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Alma siamesa

Sacudo do capote a nostalgia do adeus e deixo para trás um país em que sou sempre muito feliz. Pelo caminho que me leva até às margens do rio Mekong adoço a boca com a mais fina herança portuguesa: fios de ovos
8 de Fevereiro de 2009 às 00:00
Alma siamesa
Alma siamesa

Segundo a tradição chinesa, todas as coisas têm verso e reverso, preto e branco, um lado ying e um lado yang. Nas viagens, por luminosas que sejam, também há momentos sombrios. Por cansaço acumulado, por saudades daqueles que amamos ou por estarmos sempre a dizer adeus. Adeus a novos e a velhos amigos, a pessoas com quem simplesmente nos cruzamos, aos que ficaram em casa e nunca mais voltaremos a ver.

É nisso que penso no cais de embarque da ilha Tartaruga onde Talek me obriga a prometer um regresso para breve. Ontem, noite de lua cheia na paisagem mágica do Sky Bar, depois de lançarmos das rochas balões de luz que desapareciam como pirilampos na imensidão do céu, fui atropelada pela tristeza das despedidas. Ainda a sinto no veloz catamarã que, aos saltos sobre ondas de dois metros, me leva para longe da 'minha' ilha. Serão já saudades ou simples reacções anatómicas que me fazem vomitar tudo, incluindo a alma, na atribulada viagem até Chumporn?

Em Banguecoque, capital da Tailândia, instalo-me nas imediações da Kaosan Road, gueto turístico e provavelmente a rua mais ‘freak’ do Planeta, onde é fácil recompor o estômago e distrair a mente com a ‘fauna’ humana. Turistas de todas as etapas do Mundo misturam-se com vendedores de todas as coisas do Mundo, desde gafanhotos e larvas fritas a imitações perfeitas de Rolex. Uma feira permanente, com adolescentes rosados imersos nas delícias proibidas de cocktails e de cd piratas e velhos barrigudos entregues à ilusão da conquista de jovens raparigas. Que à mínima distracção lhes roubam a carteira e o romantismo.

Gosto de deambular pelas ruas desta cidade onde a cada esquina se sente a tolerância budista. Onde monges e ladymen (transexuais socialmente aceites) convivem pacificamente em mercados e templos doirados, onde turistas e executivos assistem lado a lado a combates de Muay Thai (boxe tailandês) e a shows de 'go-go'. Fico sempre perplexa quando me sento nas mesas semi-obscuras dos bares a ver mulheres das tribos do norte exibirem os seus dotes vaginais. Ora rebentando balões com setas certeiras, ora retirando lá de dentro, quais faquires, alfinetes e lâminas de barbear, autênticas mercearias.

Enquanto espero pelos vistos que me permitirão seguir viagem, entre massagens e passeios pelo rio Chao Praya, revisito a herança portuguesa. Para não variar, os nossos antepassados foram os primeiros europeus a chegar, deixando marcas tão longínquas como os cinco séculos que distam da data em que, conquistada Malaca (1511), Afonso de Albuquerque enviou a Ayuthaya um representante. Duarte Fernandes chegou à antiga capital do Sião com a missão de captar a simpatia do rei Rama II para o estabelecimento de futuros laços comerciais, tarefa facilitada pela recusa do sultão de Malaca em prestar vassalagem ao soberano do poderoso reino. Por isso, quando um ano mais tarde, o embaixador António Miranda de Azevedo se fez anunciar com o seu séquito, foi-lhe oferecida uma enorme área de terreno onde os portugueses foram autorizados a construírem casas e igrejas, bem como a comerciar. Ao lugar – ainda hoje conhecido, apesar de Ayuthaya ter sido destruída em 1767 por invasores do Reino de Pegú (actual Birmânia) – foi dado o nome de Bang Portuguet.

À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o Mundo, os nossos soldados e comerciantes rapidamente formaram uma comunidade mista luso-tailandesa que, no século XVII, era composta por cerca de 3 mil católicos. E quando Ayuthaya foi destruída e abandonada como capital, as pedras das casas e das Igrejas de São Paulo, São Francisco e São Domingos (da qual se podem visitar as ruínas) foram transportadas para o que é hoje o Bairro de Santa Cruz, em Banguecoque. Mas nem só de história vive o legado português na Tailândia. Quer em bancas de rua, quer em mesas solenes, nenhuma refeição siamesa que se preze dispensa a presença de 'foi thong', sobremesa de fios de ovos popularizada por Maria Guiomar, célebre luso-nipónica que no século XVII viveu em Ayuthaya.

É a salivar com as finas subtilezas dos 'foi thong' que apanho um autocarro para Vientiane, capital do Laos, onde há oito anos cheguei num domingo de Páscoa com os búfalos do rio Mekong e as paisagens rurais de Luang Prabang espetadas nos olhos. Nessa altura, senti-me personagem de um filme em que ainda fazia sentido a palavra 'Indochina'. Agora, atravesso a fronteira, cruzando a linha de um dos últimos redutos comunistas no Mundo, mas em vez de propaganda e de búfalos cor-de-rosa, encontro nas ruas de Vientiane wireless internet e todos os tiques da globalização. Com charme francês.

egundo a tradição chinesa, todas as coisas têm verso e reverso, preto e branco, um lado ying e um lado yang. Nas viagens, por luminosas que sejam, também há momentos sombrios. Por cansaço acumulado, por saudades daqueles que amamos ou por estarmos sempre a dizer adeus. Adeus a novos e a velhos amigos, a pessoas com quem simplesmente nos cruzamos, aos que ficaram em casa e nunca mais voltaremos a ver.

É nisso que penso no cais de embarque da ilha Tartaruga onde Talek me obriga a prometer um regresso para breve. Ontem, noite de lua cheia na paisagem mágica do Sky Bar, depois de lançarmos das rochas balões de luz que desapareciam como pirilampos na imensidão do céu, fui atropelada pela tristeza das despedidas. Ainda a sinto no veloz catamarã que, aos saltos sobre ondas de dois metros, me leva para longe da 'minha' ilha. Serão já saudades ou simples reacções anatómicas que me fazem vomitar tudo, incluindo a alma, na atribulada viagem até Chumporn?

Em Banguecoque, capital da Tailândia, instalo-me nas imediações da Kaosan Road, gueto turístico e provavelmente a rua mais ‘freak’ do Planeta, onde é fácil recompor o estômago e distrair a mente com a ‘fauna’ humana. Turistas de todas as etapas do Mundo misturam-se com vendedores de todas as coisas do Mundo, desde gafanhotos e larvas fritas a imitações perfeitas de Rolex. Uma feira permanente, com adolescentes rosados imersos nas delícias proibidas de cocktails e de cd piratas e velhos barrigudos entregues à ilusão da conquista de jovens raparigas. Que à mínima distracção lhes roubam a carteira e o romantismo.

Gosto de deambular pelas ruas desta cidade onde a cada esquina se sente a tolerância budista. Onde monges e ladymen (transexuais socialmente aceites) convivem pacificamente em mercados e templos doirados, onde turistas e executivos assistem lado a lado a combates de Muay Thai (boxe tailandês) e a shows de 'go-go'. Fico sempre perplexa quando me sento nas mesas semi-obscuras dos bares a ver mulheres das tribos do norte exibirem os seus dotes vaginais. Ora rebentando balões com setas certeiras, ora retirando lá de dentro, quais faquires, alfinetes e lâminas de barbear, autênticas mercearias.

Enquanto espero pelos vistos que me permitirão seguir viagem, entre massagens e passeios pelo rio Chao Praya, revisito a herança portuguesa. Para não variar, os nossos antepassados foram os primeiros europeus a chegar, deixando marcas tão longínquas como os cinco séculos que distam da data em que, conquistada Malaca (1511), Afonso de Albuquerque enviou a Ayuthaya um representante. Duarte Fernandes chegou à antiga capital do Sião com a missão de captar a simpatia do rei Rama II para o estabelecimento de futuros laços comerciais, tarefa facilitada pela recusa do sultão de Malaca em prestar vassalagem ao soberano do poderoso reino. Por isso, quando um ano mais tarde, o embaixador António Miranda de Azevedo se fez anunciar com o seu séquito, foi-lhe oferecida uma enorme área de terreno onde os portugueses foram autorizados a construírem casas e igrejas, bem como a comerciar. Ao lugar – ainda hoje conhecido, apesar de Ayuthaya ter sido destruída em 1767 por invasores do Reino de Pegú (actual Birmânia) – foi dado o nome de Bang Portuguet.

À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o Mundo, os nossos soldados e comerciantes rapidamente formaram uma comunidade mista luso-tailandesa que, no século XVII, era composta por cerca de 3 mil católicos. E quando Ayuthaya foi destruída e abandonada como capital, as pedras das casas e das Igrejas de São Paulo, São Francisco e São Domingos (da qual se podem visitar as ruínas) foram transportadas para o que é hoje o Bairro de Santa Cruz, em Banguecoque. Mas nem só de história vive o legado português na Tailândia. Quer em bancas de rua, quer em mesas solenes, nenhuma refeição siamesa que se preze dispensa a presença de 'foi thong', sobremesa de fios de ovos popularizada por Maria Guiomar, célebre luso-nipónica que no século XVII viveu em Ayuthaya.

É a salivar com as finas subtilezas dos 'foi thong' que apanho um autocarro para Vientiane, capital do Laos, onde há oito anos cheguei num domingo de Páscoa com os búfalos do rio Mekong e as paisagens rurais de Luang Prabang espetadas nos olhos. Nessa altura, senti-me personagem de um filme em que ainda fazia sentido a palavra 'Indochina'. Agora, atravesso a fronteira, cruzando a linha de um dos últimos redutos comunistas no Mundo, mas em vez de propaganda e de búfalos cor-de-rosa, encontro nas ruas de Vientiane wireless internet e todos os tiques da globalização. Com charme francês.

 

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