Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

Almas cínicas

Quem disse que a expressão “almas gémeas” se aplica apenas em contexto delicodoce?
João Pereira Coutinho 16 de Junho de 2019 às 07:00

Agora que Woody Allen está fora de jogo – temporariamente,   segundo sei: a Europa foi ao seu encontro   para   o   salvar   da   "caça   às bruxas" – é preciso dar de beber à dor com outros produtos. A série ‘Fleabag’, de Phoebe Waller-Bridge, é um exemplo. ‘Destino: Casamento’, escrito e realizado por Victor Levin, é outro.

A crítica americana já tinha avisado: Levin merece ser lido. Atenção ao verbo: não é visto; é lido. Porque o filme é uma peça teatral para dois actores – Keanu Reeves e Wynona Ryder – que vão esgrimindo argumentos como se alguém tivesse pegado numa comédia de Howard Hawks e reescrito tudo com o tinteiro   de   Ambrose   Bierce.   A   coisa pinga cinismo por todos os lados.

É assim que encontramos Frank e Lindsay, dois misantropos a caminho de um casamento. Ambos dariam um dedo, ou até um braço, para não terem sido convidados. Mas a experiência servirá, pelo menos, para ultrapassarem a antipatia inicial que sentem um pelo outro e, à falta de melhor palavra, para se apaixonarem.   Quem   disse   que   a expressão "almas gémeas" se aplica apenas em contexto delicodoce? É   possível   pensar   em   duas   almas semelhantes que se encontram romanticamente nas águas do ácido sulfúrico.

Um programa destes precisa de duas coisas para funcionar: um excelente texto; dois actores competentes;   e,   já   agora,   um   realizador (ou encenador) que não estrague o ramalhete. ‘Destino: Casamento’ consegue-o – e Keanu Reeves, um actor limitado, que jamais imaginaríamos neste ‘vaudeville’, não pisa os calos de Wynona Ryder, que nasceu   para   a   dança.  

A   coroar   o baile, Victor Levin tem uma realização "ilustrativa", embora inteligente:   vemos   Frank   e   Lindsay como   se   habitassem   um   aquário, sempre   à   parte   de   todos   os   outros personagens, que existem apenas como figurantes sem direito a voz – e perguntamos se eles sobreviveriam ao contacto com o oxigénio das pessoas normais. Pelo menos, até à sequência final, a única onde   reina   o   silêncio   entre   os amantes. Até para almas cínicas há momentos em que as palavras e as máscaras parecem desadequadas.

A filha anarca de Woody Allen e Annie Hall

Phoebe Waller-Bridge, ou ‘Fleabag’, é a filha anarca que Annie Hall e Woody Allen, versão Alvy Singer, nunca tiveram. Embora, no caso em apreço, exista uma dimensão dramática que nem o melhor humor do mundo consegue disfarçar. No meio de panfletos feministas histéricos ou vitimários, Fleabag ‘is the real thing’.  

Autópsia da modernidade

Houellebecq pode ser samba de uma nota só. Mas haverá algum escritor europeu que capte tão bem o "espírito do tempo"? Duvido. ‘Serotonina’ é uma autópsia sobre o vazio patético e letal da modernidade, com narrador na primeira pessoa que serve de Virgílio para o (nosso) inferno emocional. Entretenimento para adultos é isto.

Da sociedade de vizinhos a uma arena de inimigos

Temelkuran parte da regressão democrática na Turquia de Erdogan para reflectir sobre os desafios que
a democracia liberal enfrenta hoje no mundo. Notáveis as páginas onde o discurso "populista" – irracional e tribal, capaz de transformar uma sociedade de vizinhos numa arena de inimigos –
é dissecado com aprumo.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)