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Amam-me? Matem-me!

Ramón Sanpedro viveu 30 anos preso a uma cama. Tentou a via legal para a eutanásia, mas a lei impediu-o. Acabou por morrer com a ajuda de uma amiga. História verídica contada sob o olhar de Alejandro Amenábar, candidato aos Óscares
20 de Fevereiro de 2005 às 00:00
Amam-me? Matem-me!
Amam-me? Matem-me!
Ramón Sanpedro vive há 30 anos entrevado numa cama, à espera da morte que teima em não chegar. Deseja pôr fim à vida, abandonar uma existência com a qual nunca soube a lidar, desesperando pela tantas vezes negada intervenção médica, a solução final na ponta de uma seringa: a eutanásia. A sua única ligação ao mundo é a janela do quarto virada para o mar, o mesmo mar por onde tanto viajou e no qual sofreu um acidente que o deixou tetraplégico, era ainda um jovem de 25 anos, saudável, bom porte atlético, cheio de vitalidade e garra.
Desde esse fatídico dia, quando um mergulho mal calculado lhe alterou para sempre o destino, que espera dizer adeus com dignidade, longe de sofrimentos, revoltas ou angústias. Quer libertar-se daquela prisão forçada, daquela redutora forma de ver o mundo. Um rapaz que aos 19 anos apanhou boleia de um barco norueguês e conheceu tantos povos e paragens não nasceu para estar preso.
Duas mulheres entram então na sua vida: Julia (Belén Rueda), advogada que o apoia na decisão de colocar um ponto final na imensa dor; e Rosa (Lola Dueñas), vizinha a tentar convencê-lo de que vale a pena continuar a acordar todos os dias e olhar para aquele azul imenso e infinito que sempre o apaixonou.
Apesar dos intentos, Ramón continua a desejar partir, com a única certeza de que só quem o ama de verdade conseguirá ajudá-lo a comprar o bilhete de ida para a derradeira viagem.
A personalidade iluminada leva o espanhol a algo que à partida parece contraditório: mostrar a quem o rodeia o quanto é bom viver, quando ele só pensa em partir. Nessa mensagem, acaba por cativar Julia e Rosa, que começam a questionar os princípios nos quais sempre acreditaram.
Depois de ter encarnado o escritor cubano Reinaldo Arenas no muito aclamado ‘Antes Que Anoiteça’, Javier Bardem volta a interpretar um papel baseado num caso verídico. A ideia para o filme começou com a leitura que Alejandro Amenábar fez de ‘Cartas Desde el Inferno’, o livro de Ramón Sanpedro publicado há nove anos. A inspiração surgiu a partir da obra, embora o realizador não tenha ficado agarrado à realidade pura e dura dos factos: “Tendo em conta que me estava a basear num caso real comecei a escrever por minha conta. No início, não queria filmar literalmente a sua história, mas depressa percebi que devia investigar e perceber o que era interessante na sua vida e como podia incorporar isso no filme. É uma história baseada em factos reais, mas não é documental e nunca quis cingir-me unicamente à realidade.”
Um pouco por todos os locais onde é exibido ‘Mar Adentro’ divide as águas, mais por causa do tema do que propriamente pela qualidade das interpretações. Nesse aspecto existe unanimidade: os actores são excelentes. Javier Bardem, por exemplo, tem sido descrito como o melhor actor espanhol da actualidade, o feio-bonito, como lhe chamam ‘nuestros hermanos’.
Bardem mostra-se incólume às palavras dos outros. Numa entrevista ao jornal norte-americano ‘Washington Post’ prefere descrever a empatia com a figura central da história: “O que me surpreendeu em Ramón foi a naturalidade com que falava de coisas tão fortes: amor, morte, vida, sexo. Falava com a distância e a sabedoria de alguém que pensou no assunto durante vinte anos. De certa forma, era um iluminado e, no entanto, era também um homem simples que não fazia apologia de nada (...) Tudo isto me pareceu muito atractivo”.
‘Mar Adentro’ foca acima de tudo o desgaste e o suplício vividos por aquele marinheiro nascido em 1943 em Xuño, na Corunha, que tudo tentou para abandonar em definitivo a cama à qual se viu preso desde cedo. Quando se esgotaram as opções – os tribunais negaram-lhe a via legal para pôr cobro ao sofrimento –, Ramón iniciou um plano para conseguir os seus intentos sem incriminar nenhuma das pessoas que lhe eram próximas. Morreu a 12 de Janeiro de 1998, contando com a colaboração de uma amiga responsável pela preparação de um ‘cocktail’ de aspirinas e cianeto.
Para provar ter ingerido a bebida de livre vontade, uma câmara registou o processo, naquele que é o derradeiro testemunho da sua luta: “Considero que viver é um direito, não uma obrigação, como foi para mim, obrigado a suportar esta situação penosa durante 29 anos, quatro meses e alguns dias. Passado este tempo, fazendo um balanço do caminho recorrido não vejo os momentos de felicidade”.
Alejandro Amenábar confessa ter ficado muitas vezes refém da força dos acontecimentos. O filme acaba por funcionar enquanto manifesto sobre alguém que mesmo paralisado nunca deixou de ser amado por várias mulheres, de acreditar no quanto é bom poder viver, se existirem condições físicas para isso. É que, no entender de Ramón, só não valia a pena respirar porque já nem conseguia tocar a sua amada: “Para mim, esses metros necessários para chegar até a ti e poder tocar-te são uma viagem impossível, uma quimera, um sonho! Por isso quero morrer”.
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