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AMÉLIA REY COLAÇO: A IMPERATRIZ DO TEATRO

A 27 de Março comemora-se mais um Dia Mundial do Teatro, uma das grandes paixões de Amélia Rey Colaço. A outra foi o marido, Robles Monteiro, com quem fundou uma mítica companhia. Segue-se uma história de amor. Das antigas.
23 de Março de 2003 às 15:45
Na noite de 17 de De-zembro de 1917, com apenas 19 anos, uma jovem aristocrata lisboeta debuta no palco do São Luiz toda esfarrapada, de cara suja e descalça. Amélia Rey Colaço estreia-se na arte dramática com ‘Marianela’, dos irmãos Quintero. Os aplausos não cessam mais.

Amélia carrega consigo uma enorme herança cultural. O pai, Alexandre Rey Colaço, pianista e compositor, imprimira em casa a excelência musical que o tornara professor de D. Manuel II, rei de Portugal. Tinha origem alemã mas casara com uma francesa, Alice Lafourcade Schimdt-Ern, que educara Amélia em todas as línguas.

Os pais sugerem às quatro filhas a dedicação a uma arte. Amélia, a mais nova, escolhe o estudo do violino. É por isso mandada para Berlim, onde a avó, Madame Kiersinger, é anfitriã de um ‘salon’ literário. Na capital alemã, Amélia torna-se frequentadora assídua dos lugares económicos do Deutches Theatre, onde assiste às concepções revolucionárias que Max Reihardt faz de Shakespeare e Tolstoi.

No regresso a Lisboa, anuncia a decisão de ser actriz. Antes do consentimento, os pais pedem ao actor Augusto Rosa que a avalie. O veredicto do mestre é claro: “Não há que contrariar. A pequena tem grandes qualidades!” É o primeiro a reconhecer o talento de uma actriz, com 70 anos de carreira, que quase todos consideram ‘a grande personalidade do teatro português do sec. XX’.

Por trás desta grande mulher estará Felisberto Robles Monteiro. O beirão, dez anos mais velho, desistira do seminário e rumara à capital para tentar a vocação noutras artes. Começa como jornalista, mas relaciona-se com pessoas do palco e torna-se discípulo de Augusto Rosa. O mestre, amigo de ambos, convida-os para as suas recepções. Robles começa a cortejar Amélia, que desvia o olhar: “Mentiria se não confessasse que, logo de início, me dei conta do interesse que lhe despertava. (...) Mas, pretensiosamente convencida da minha independência, fazia-me difícil, rogada, muito estupidamente senhora do meu nariz e da minha pessoa”, confidenciaria a actriz.

Amélia junta-se à companhia do Ginásio, onde Robles se revela um excelente administrador. As declarações de amor nos bastidores conseguem perturbá-la e refugia-se em Madrid. Nas cartas que Robles lhe escreve, declara-se eternamente a seus pés.

A arrogância cede lugar à paixão e casam-se em Lisboa, em Dezembro de 1920. Meses depois, nasce no palco do

S. Carlos a companhia Rey Colaço/Robles Monteiro.
No papel de ‘Zilda’, de Alfredo Cortês, Amélia encarna a filha de uma engomadeira que aluga o corpo para subir na vida, num papel que é um misto de escândalo e sucesso. Vencidas as críticas e as resistências, arranca a história da companhia, que virá a ser a mais antiga da Europa.

A PERFECCIONISTA

Os actores, também empresários, encenam Camões, Almeida Garrett e Gil Vicente. Trazem o teatro para a rua e fazem-no correr o País. Um dos seus maiores triunfos dá-se na noite em que 6000 pessoas se juntam no adro de Alcobaça para assistir à representação integral de ‘Castro’, tragédia portuguesa do séc. XVI, considerada ‘irrepresentável’.

Depois da década de 40, já o Teatro se anuncia como de D. Maria II, é a vez do Mundo subir ao palco com Shakespeare, Molière, Garcia Lorca e Eugene O’Neal.

A liderar a equipa está a arte de Rey Colaço, aliada ao engenho de Robles Monteiro. Amélia escolhe as peças e ocupa-se da montagem dos espectáculos com o requinte que lhe vale a alcunha de ‘A Imperatriz’. Para desenhar os espectáculos chama artistas como Raul Lino, Almada Negreiros ou Lucian Donnat. Importa as novidades, idealiza o guarda-roupa e não hesita em pôr-se de gatas para pintar o cenário. Robles Monteiro ocupa-se

do trabalho administrativo e revela-se um excelente ensaiador. Pelas suas mãos passam Palmira Bastos, Raul de Carvalho ou Eunice Muñoz e revelam-
-se nomes como os de Lurdes Norber-to, Maria Barroso ou a filha Mariana, que assina Rey e Monteiro.

Depois da morte de Robles Mon-teiro, em 1958, Amélia assume a administração e a Companhia resiste. Passa horas a deambular pelo Nacional, por razões que mais tarde confessa: “O amor que eu sentia pelas paredes e tábuas daquele teatro era imenso”.

Na madrugada de 2 de Dezembro de 1964 um telefonema informa-a de que a sua ‘casa’ de eleição está a arder.

QUANDO TUDO ARDE

Duas semanas depois, uma placa no Coliseu dos Recreios anuncia: “O Nacional continua”. ‘Macbeth’, o espectáculo em cena, reaparece com o guarda-roupa possível. Estão depois no Avenida, no Trindade e no Parque Mayer. Mas a força da Companhia não é a mesma.

Aos 90 anos, Amélia está em casa da filha, no sofá de um quarto pequeno, onde mal consegue ler. Mas a lucidez, essa, é a de sempre. Nesse dia sugere uma nova encenação de Castro, que algumas pessoas querem fazer. Vítor Pavão dos Santos, amigo, diz que é complicado. Amélia aponta o espaço entre o sofá e a cama e diz que é possível: “Mas eu ensaio-os aqui!”. N

CENSURA E COMPANHIA

Com o seguro do incêndio do D. Maria, Amélia pede a Lucian Donnat que remodele o Teatro Avenida. Quando reabre, na noite de estreia, o Teatro tem à entrada o busto de Almeida Garrett, salvo do incêndio do Nacional. Em cartaz está ‘O Motim’, uma história da época do Marquês de Pombal que merece a presença de Américo Tomás, então presidente da República. O texto passara pela Comissão de Leitura do governo, mas a ‘intelligenzia’ do regime só percebe três dias depois da estreia que as cenas de interrogatório podem ser relacionadas com as práticas da ditadura. A PIDE arranca os cartazes e sela as portas do Avenida.
Ironicamente, antes e depois de 1974, altura em que a companhia acaba, Amélia é acusada de estar ao serviço do regime.

Quando um comissário proíbe ‘A Visita da Velha Senhora’ por haver um caixão em cena, Amélia dá a peça a ler ao próprio Cardeal Cerejeira, que acaba por a considerar “de um alto valor moral”.

Diz Vítor Pavão dos Santos que a companhia não era, de forma alguma, um instrumento do Poder: “Aquela companhia viveu como toda a vida portuguesa viveu naqueles anos – com a censura”. Carmen Dolores corrobora: “Eles tiveram grandes problemas com a censura – o que não quer dizer que fossem revolucionários – queriam apenas fazer o trabalho deles”.

A política dos artistas era, para Amélia, a Arte.
É verdade que muitas peças ficaram por concretizar porque os textos não eram aprovados ou porque, já no ensaio geral, o paladar do regime não apreciava certo tom. Mas a grande mágoa de Amélia é a proibição de Brecht. Reza a lenda que um dia decidiu falar com o ministro da Educação, então responsável pelo teatro. Mal entrou no gabinete, foi avisada: “Se vem cá pedir que eu autorize os comunistas de que gosta, o Camus, o Sartre e o Brecht, pode ir-se embora”. Ela respondeu apenas: “Então boa tarde”. E foi-se embora.
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