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Correio da Manhã

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Amigos e família têm enorme importância na recuperação dos doentes de cancro

Diziam-lhe que ela ainda havia de pintar, pintar muito. E ela, formada em Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto mas professora de Educação Visual durante 30 anos, gostava de ouvi-los – ao marido, à irmã e a todos os que a visitavam e lhe falavam do futuro. Ela é Isabel Soares e tem 56 anos, cinco dos quais passados em luta sem tréguas contra o cancro da mama. Fez quimioterapia de onde saiu “mais morta do que viva”. Mesmo nos dias piores levantava-se de manhã, tomava banho, ou davam-lho, vestia-se, ou vestiam-na, e sentava-se na sala. Aí a encontravam os amigos e familiares que lhe garantiam “tu ainda vais pintar muito”. Era verdade. Isabel está actualmente a preparar a segunda exposição dos seus trabalhos. E dá a cara pela campanha internacional ‘Breast Friends’ (Amigos do Peito), de luta contra o cancro da mama.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Correiro Domingo - O seu é um dos rostos da campanha ‘Breast Friends’. Como é que isso aconteceu?
Isabel Soares - O livro ‘Breast Friends’ junta figuras públicas de vários países a pessoas que tiveram cancro da mama. Eu fui convidada pela Fátima Lopes.
- Onde se conheceram?
- Num seminário sobre passagem de energias positivas.
- Nessa altura já estava doente. Quando e como soube que tinha cancro da mama?
- Depois dos 40 anos comecei a fazer anualmente uma ecografia mamária e uma mamografia. Mas foi em Junho de 2001, quando tomava banho, que senti um carocinho na mama esquerda. Fiz nova ecografia e mamografia. Mandaram-me esperar uns meses para ver a evolução do quisto.
- O que sentiu quando deu pelo carocinho?
- Na altura em que senti o carocinho não dei muita importância. No fundo pensava que a mim não me ia acontecer absolutamente nada. Por isso passei aquele Verão descontraidamente. Disseram-me que esperasse uns meses. Esperei. Depois fiz outra ecografia. Nessa altura mandaram-me fazer uma biopsia. Fi-la no Natal, no Porto. O quisto era grande e benigno.
Houve casos de cancro na mama na sua família?
A minha mãe morreu, aos 82 anos, de cancro, mas não sabemos em que sítio.
- E depois da biopsia?
- Devo dizer que tudo aconteceu muito rapidamente graças a um tio meu, médico, que me acompanhou. No dia 2 de Janeiro fui operada à mama, para remoção do quisto.
- Mas era benigno...
- O meu tio desconfiava de qualquer coisa maligna. E, quando mo tiraram, confirmou-se que atrás havia dezenas de quistos muito pequeninos, como cabeças de alfinete, malignos.
- Quem lhe disse que eram malignos?
- A minha irmã e o meu marido contaram-me com cuidado, mas quem me disse que eram malignos e que eu tinha de fazer mastectomia e esvaziamento da axila esquerda foi o meu tio e o meu primo, também cirurgião, que me operaram. Falaram comigo na manhã do dia seguinte, muito cedo.
- O que sentiu nessa altura?
- O choque é enorme, mas, tal como antes, tudo se desenvolveu muito depressa. Logo depois consultei um médico de Cirurgia Plástica: a ideia era fazer a mastectomia e colocar logo o expansor [é uma espécie de saco que se enche com o soro fisiológico, para esticar a pele, preparando-a para o implante definitivo]. Ainda fui a Paris para uma segunda consulta antes de fazer a mastectomia, mas a opinião da médica foi exactamente igual à dos médicos portugueses.
- Ter-se ocupado a tomar decisões e a concretizá-las rapidamente fez com que pensasse menos na doença?
- Sim. Entreguei-me ao que tinha de fazer e, além disso, confiava no meu tio. Tudo o que ele dissesse estava bem para mim. É muito importante confiar no médico. É verdade que eu estava em choque e assustada, a pensar como ia ser a minha vida dali para a frente, mas não sou muito gemida.
- O que é não ser gemida?
- É não ser pieguinhas.
- O que significou ter ficado sem a mama?
- Não vou dizer que ficou muito bem. Não é perfeita, a prótese, um peito ficou mais pequeno do que o outro. Fiz um implante de silicone mas ainda ponho um bocadinho no soutien para ficar igual ao outro.
- O que aconteceu depois?
- Durante a mastectomia descobriram que tinha gânglios inflamados na axila. Ou seja, tinha cancro em mais sítios. Os médicos não contavam com isso. Fui logo a uma consulta de Oncologia. Lembro-me de o médico olhar para as análises e dizer “para não corrermos riscos, vamos pelo máximo”.
- O máximo da quimioterapia?
- Sim. Quarenta e duas sessões de cinco horas e meia cada uma em dezoito meses, a primeira no dia 19 de Fevereiro de 2001.
- Como reagiu ao tratamento?
- Da quimioterapia vem-se mais morta do que viva. A certa altura tive de levar uma transfusão de sangue porque tinha uma anemia muito forte.
- Que outros efeitos secundários sofreu?
- Todos aqueles que podia ter sofrido. Foi o que o médico me disse. O cabelo caiu-me duas vezes. Despegava como se não tivesse raiz. Eu tinha-o muito forte. Quando estava a cair picava-me na cabeça. Tinha de enchê-la de Nívea, cobri-la com um lenço de seda e dormir de costas. Foi a minha irmã que me aconselhou a fazer isto. Logo após a primeira sessão de quimioterapia sofri uma infecção num olho. Tive problemas de intestinos. Caíram-me as unhas. A pele rebentou.
- Agora a pele das suas mãos parece muito delicada...
- Fiquei toda queimada. Eram queimaduras de dentro para fora. E a pele caiu-me toda. Neste momento é igual à de um bebé. Nem aguento cremes normais. Uso os da farmácia, próprios para os bebés. Também os dentes começaram a cair aos bocadinhos. E deixei de sentir os pés. Fui a um neurologista. É irreversível. Não há bela – ter melhorado – sem senão – os efeitos secundários da quimioterapia – foi o que ele me disse.
- É total, a insensibilidade dos seus pés? Também à dor?
- No Verão usei uns sapatos que deviam magoar-me. Os pés ficaram cortados e com sangue. Não dei conta de nada. Cheguei a andar com um anel que tinha uma pedra enorme dentro de um sapato.
- Qual era o seu estado de espírito durante a quimioterapia?
- Tive muitas dores, dores nos ossos, que são de gritar, mas nunca gritei, nunca chorei e nunca fiquei um dia inteiro na cama. Todos os dias me levantava, tomava banho – a determinada altura não conseguia tomar banho sozinha, tinha de ser a minha irmã ou o meu marido a banhar-me – vestia-me, ou vestiam-me, e sentava-me na sala. Quando podia esticar-me um bocadinho no sofá esticava-me porque o cansaço é muito grande. Mesmo falar ao telefone passa a ser difícil.
- Que tipo de acompanhamento teve então?
- Fui acompanhada por uma fisioterapeuta logo desde o início. Fazia-me massagem linfática. Orientava a linfa para as costas, desviando-a dos gânglios da cova do braço. Devido à fisioterapia consigo erguer o braço. Normalmente, quem faz mastectomia só levanta o braço até um ângulo de 90 graus. Eu levanto-o completamente, sem qualquer problema. Também consultei uma nutricionista. O regime alimentar é muito importante.
- Como é a sua alimentação?
- O mais natural possível. Acabámos com os produtos conservados lá em casa. De resto, como tudo, excepto fumados. Tomava e continuo a tomar todos os dias sumo de laranja, feito na hora, para não oxidar. Mas eu não tinha forças para decidir nada disto. A minha irmã acompanhava-me às consultas e procurava o que era melhor para mim.
- Quando é que a quimioterapia acabou?
- Acabou em Julho de 2003. Uns meses antes, mais precisamente em Maio, conheci a Fátima Lopes. Os médicos tinham-me dito que não havia solução, a quimioterapia não estava a dar resultado, os marcadores não baixavam. Não havia muitas hipóteses para mim.
- E então?
- Propuseram-me que entrasse no ensaio clínico de um remédio alemão. Disseram-me que era mesmo preciso pois não eu tinha muito mais tempo de vida. Eu já não andava. Nessa altura houve uma coincidência: uma amiga da minha irmã falou-lhe de uma senhora em Lisboa.
- Quem era a senhora?
- Christiane Águas, orientadora de um curso sobre conhecimento pessoal e passagem de energias positivas. Eu e a minha irmã rumámos a Lisboa. Mas não sabíamos ao que íamos. O curso realizou-se numa sexta-feira à noite e no sábado seguinte. Na segunda fui fazer análises, na quarta fui à consulta e tinha-se verificado uma descida enorme dos marcadores. O médico disse “vou já tirá-la da experiência” - com o remédio alemão. Pouco mais fiz de quimioterapia porque a partir daí os marcadores começaram a descer até que acabei o tratamento, no dia 16 de Julho.
- O que é que pensa que aconteceu?
- O curso teve influência. Continuo a participar nos seminários da Christiane. Mas é preciso ver que eu fiz muita quimioterapia, dois ciclos, um deles inovador. Talvez o tratamento tenha começado então a fazer efeito.
- Qual é o seu estado se saúde neste momento?
- Sou vista por um médico de quatro em quatro meses. O cancro está em ligeira remissão, ainda não chegou ao valor que devia, mas há redução dos indicadores. Tomo muitos comprimidos para os efeitos secundários da quimioterapia. O médico diz-me sempre que “efeito secundário não é doença”, mas a mim o que mais me incomoda são os efeitos secundários. Sinto-me muito debilitada.
- No meio de tanto sofrimento sentiu-se alguma vez desmoralizada?
- Só quando me disseram que devia participar no ensaio clínico porque não tinha muito mais tempo de vida. Fui-me um bocadinho abaixo. Mas a família e os amigos apoiaram-me tanto – têm uma importância enorme – que eu sentia não ter direito a queixar-me. Estava tão bem tratada. Tinha sempre visitas, praticamente todos os dias. O papel principal era da minha irmã e do meu marido, que estiveram dia e noite comigo.
- Sempre pensou que ia vencer a doença?
- Eu pensava “vou ultrapassar isto e finalmente fazer aquilo de que gosto, que é pintar”. Sou professora de Educação Visual há trinta anos. Agora estou de baixa. Gostei muito de ser professora, mas, se fiz o curso de Pintura nas Belas Artes do Porto, era porque gostava de pintar. Toda a gente me dizia que finalmente ia ser pintora.
- Que papel desempenhou a arte na sua recuperação?
- Uma pessoa que passa por aquilo que eu passei depois tem de dedicar-se a algo de que goste muito e nunca deixar-se dominar pela doença ou pela debilidade. A minha irmã dizia--me sempre “tu vais ultrapassar isto tudo, ainda vais pintar, pintar muito”. Era uma motivação.
- Que técnica usa?
- Pinto em seda natural. Aprendi com uma professora vietnamita. Gostei muito da técnica. Domino-a muito bem agora.
- Os motivos são abstractos ou figurativos?
- Não penso no que vou fazer quando estou a esticar a seda. Os motivos são os que saem na altura. São muito alegres, de um modo geral abstractos. Penso que transmitem muita alegria. Pinto em silêncio e sozinha.
- Considera-se uma pessoa espiritual?
- Sim. Sou católica praticante. Para mim a energia de que fala Christiane vem de Deus.
- Alguma vez pensou na morte?
- Para ser franca, tenho muito medo da morte. Sei que quando morrer vou para junto dos meus pais, mas continuo a ter medo da morte. Sempre estive ligada à vida.
- Sente-se uma mulher diferente da que era antes de Junho de 2001, quando sentiu o carocinho?
- Eu sou a mesma mulher, mas coisas que antes tinham muita importância agora não têm. O meu aspecto, por exemplo. Dizem-me que eu era muito bonita. Não me diziam isso antes. Só agora sei que era bonita (risos).
- Mas continua a ser bonita...
- Em Caminha, onde vivo, não me reconheciam. Só quando eu falava é que descobriam quem eu era. Afinal, fui professora durante 30 anos e falo um bocadinho alto. Reconheciam-me pela voz porque o meu aspecto mudou completamente.
- Por causa do cabelo?
- O cabelo nunca mais foi o mesmo. Agora é fraquinho. Quando começaram a nascer umas coisinhas brancas fiquei contente: pensava que ia ficar todo branco. Eu tinha uma madeixa branca à frente, mas o meu cabelo era preto, forte e liso. Agora é muito fraquinho, mesmo depois dos tratamentos com ampolas, e fica encaracolado.
- Que outras coisas perderam importância?
- Estou mais relaxada em relação ao que visto e se me pinto ou não. Dantes pintava-me todos os dias. Fazia maquilhagem para ir para a escola. Não tenho esse cuidado agora, às vezes não me apetece. Eu dava importância a coisas e agora isso até me parece ridículo. Por exemplo, ficava aborrecida se via umas chávenas bonitas e, uma vez que a loja estava fechada, não podia comprá-las. Incomodava-me por causa de coisas pequenas, sem interesse nenhum. Importante para mim agora é a saúde, a amizade e a família.
- E o futuro?
- Tenciono continuar a pintar. Os meus trabalhos vão estar em exposição a partir do próximo dia 7 de Dezembro, na Ordem dos Médicos do Porto. Neste momento estou a pintar lentamente, porque a técnica é lenta e eu ainda sou mais lenta.
- O que gostava de dizer às mulheres que estão a passar pelo que passou?
- Devem ter esperança. E devem manter sempre o pensamento positivo. Digo também à família e aos amigos que, como fizeram comigo, facilitem a vida do doente, acarinhem-no e dêem-lhe esperança. Os doentes devem ter qualidade de vida, tratamento a tempo e cuidados familiares.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
- Um País... Espanha
- Uma pessoa... Maria Helena Vieira da Silva (pintora).
- Um livro... ‘Aprender a Ser’, de Christiane Águas.
- Uma música... Sagração da Primavera, de Stravinski.
- Um lema... Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje
- Um clube... Não ligo ao futebol
- Um prato... Marisco
- Um filme... ‘The Doctor’, de Randa Haines
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