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Amor sem cabelos brancos

Dono de café, Rogério ia nos sessentas quando descobriu a companheira do resto da sua vida na cunhada do filho. No dia do casamento deste. Luís andava nos quarentas quando ouviu que tinha um por cento de hipóteses de conquistar a miúda de vintes. Têm dois filhos. Há 25 anos, o empresário António pegou num bebé ao colo. Seria a mulher de quem viria a ter filhos. Histórias como estas são literatura. Não é preciso ser escritor para as viver. António Lobo Antunes assumiu no Aeroporto de Lisboa, com rosas e beijos, o amor por uma mulher que conheceu no Brasil, na Feira Literária Internacional de Paraty. Raquel Cristina dos Santos, 31 anos, está a fazer um doutoramento que versa a escrita do homem que agora a ama. Ficam aqui os romances anónimos.

23 de Agosto de 2009 às 00:00
Amor sem cabelos brancos
Amor sem cabelos brancos

ROGÉRIO, 80 ANOS, Ana, 36

Na vida de um casal, o que significam 44 anos de diferença entre marido e mulher? 'Pouco ou nada', responde Rogério Portela, que aos 62 anos encontrou o amor da sua vida, Ana Cristina, então com 18. 'A minha mulher é o meu Euromilhões', exclama o homem. 'E eu sou tratada com tanto carinho que estou cada vez mais apaixonada', acrescenta a esposa.

Esta é uma história que merece ser contada. A começar pelo facto de Rogério ser cunhado do próprio filho. Nascido em Moçambique, chegou à Zimbreira – aldeia de 37 habitantes, no concelho de Mação – para abrir o seu café, a Tasquinha do Portela. Deu então emprego a uma moça chamada Adélia, da freguesia vizinha de Pereiro, que conquistou o coração de um dos seus cinco filhos, Rui Sérgio.

E foi no casamento de Rui Sérgio que viu pela primeira vez Ana Cristina, irmã de Adélia. 'Começámos a conversar e sentimos logo qualquer coisa um pelo outro', recorda. 'Ela trabalhava num café em Lisboa, ao pé do Estádio da Luz, e até namoriscava com um fura-vidas que não a respeitava como ela merecia'. Como a jovem lhe confidenciou que não se sentia bem na capital, convidou-a a vir para a Zimbreira, oferecendo-lhe o emprego da irmã, que partiria em breve com o novo marido.

Passados uns meses, Ana Cristina aceitou o repto e 'o amor foi surgindo aos poucos, pela forma como ele sempre me tratou'. 'Mas atenção, nunca aconteceu nada enquanto estive casado', avisa Rogério. Depois do divórcio, assumiram o relacionamento em Dezembro de 1991. Dura há 18 anos. No início, o casal tornou-se alvo da má-língua. 'As pessoas acabaram por aceitar', afirma Ana Cristina. Rogério acrescenta dar-se 'muito bem' com o sogro, apesar de ser 11 anos mais velho. Ana fez 36 anos a 22 de Maio. O marido fez 80 a 24 de Julho.

LUÍS, 52 ANOS, Ana, 33

Já era grisalho o cabelo quando o músculo mais romântico da anatomia se tomou de amores. Dizem que o coração vê melhor que os olhos no território dos afectos, por isso a decisão foi avançar. Luís Martins tinha 44 anos de vida solitária quando se cruzou com os 25 de Ana Dinis numa festa de uma amiga comum. O ‘acaso’ serviu numa bandeja uma mudança de vida, há oito anos, e virou-lhes do avesso o futuro. 'Eu era uma universitária com amigos e festas e passei a ser mulher e mãe.' Tinha ainda muito tempo. Da vida de Luís estava arredado o plano 'de constituir família'. Achava que já não tinha tempo. Juntos alteraram a ginástica do presente e sem contorcionismo deixaram-se aquecer pela chama. Mas o feliz desfecho não foi evidente. Dias depois de se terem conhecido, 'e já ter levado uma tampa para um café', Luís questionou Ana sobre a sua hipótese. Ela disse: ‘Dou-te 1%’. 'Mas foi um 1% em Setembro e a Rafaela em Dezembro', o mês em que o positivo no teste anunciou novas mudanças para daí a nove meses.

'Quando descobri que estava grávida fartei-me de chorar mas o Luís foi o primeiro a dizer que ia correr tudo bem.' Dois anos depois o clã recebeu notícia idêntica: o Luís Pedro estava a caminho. 'E não teríamos ficado por dois se não fosse a idade. Porque um homem pode ser pai até aos 80 mas ser pai não é só fazê--los, é poder vê-los crescer.' E o medo de não conseguir acompanhar todas as fases é peso recorrente.

'Não me sinto com a idade que tenho, mas por mais que me custe eu olho o espelho e vejo a verdade. Mas o problema não é a idade, é imaginar o que vai na cabeça de quem tem menos 19 anos do que eu. E mesmo que não queira estou sempre a imaginar que a outra pessoa me está a achar um velho e me está a cobrar isso, embora a Ana afaste essa ideia'. O que mais assusta Luís, numa perspectiva de futuro, é, por isso, 'ser surpreendido por uma deslealdade. Se acontecesse por causa da idade eu sofreria muito. Sendo ela mais nova, há um grau de probabilidade maior de deixar de gostar'. Apesar de a imaginação dar corda aos sapatos, o futuro é encarado com os pés presos à terra. 'Não sei como vai ser daqui a 20 anos mas imaginando-nos juntos não me preocupa. Se estivermos juntos é porque faz sentido, e por isso qualquer problema de saúde ou sexual que surja ultrapassaremos, mesmo que com ajuda. Mas nunca será o sexo a determinar o fim de uma relação', diz Ana. Até porque o que até aqui viveram mostra que a relação tem pernas para andar. À velocidade do conjunto.

ANTÓNIO, 77. ISABEL, 58

‘Com o Melão podes ir para todo o lado’, dizia-lhe o pai, 'conservador, à moda antiga'. E ela ia, primeiro menina e mais tarde já moça, passear para o parque e depois para os bailes. O amor espera muitas vezes, paciente, até se fazer convidado. 'O meu marido foi colega do meu pai, tinham uma amizade antiga. O António lembra-se de me levar a passear era eu pequenina.' António Melão ausentou-se da terra, Freixo de Espada à Cinta, durante anos. Quando voltou, longe de encontrar a menina descobriu-a mulher feita, com 20 anos. Ele tinha 40. Era homem solteiro, ‘bon vivant’.

Isabel atreveu-se a gritar ‘liberdade!’ com o homem que conhecia desde sempre. 'O meu pai, que nunca me deixava ir a bailes, dava-me autorização para ir com o Melão, lembro--me de ser a acompanhante dele com as namoradas, era muito namoradeiro.' Em pouco tempo, a amizade cedeu lugar a um amor que foi declarado em surdina e assumido frente aos pais dela. 'Apesar de terem aceite muito bem, alertaram-me para a diferença de idades. Mas a escolha foi minha', lembra Isabel, comovente na doçura com que descreve a história de António, o homem que lhe deu três filhos.

'Não tive de mudar os meus hábitos, até porque se calhar foram os hábitos que ele tinha, o estar sempre animado, gostar de sair, que nos ligaram mais. E apesar de ser mais velho tinha um espírito muito jovem. Durante toda a nossa vida foi 100% marido e 100% pai.' A voz só se faz trémula quando o presente é convocado: 'Só desde há três anos se começou a notar a diferença de idade, quando ele teve um AVC. Agora é o meu menino. Cuido dele.' Embargadas, as palavras custam a sair da boca de Isabel, que recupera o sorriso para contar uma conquista: 'O António comentava que se calhar já não via os filhos casados. Viu, com saúde, nascer a primeira neta.'

ANTÓNIO, 50 ANOS, CARINA, 25

Não imaginava António que a rapariga que pegava ao colo, no casamento do seu empregado, seria a mulher com quem, quase 20 anos depois, viria a perder-se de amores. Mas quis o destino, ou qualquer outra entidade por ele, que assim fosse.

Depois de um casamento de 27 anos, António Mateus, empresário, deu por si sozinho, 'bastante desamparado'. Estava numa pensão e todas as noites ia jantar a um restaurante em Vila Franca de Xira. Foi aí que reparou em Carina Carvalho, que era empregada de mesa: 'Achámos graça um ao outro e começámos a sair para tomar café.' Mas chegou a um momento em que parou para pensar: 'Achei que não estava a ser correcto, nem sensato, ao provocar uma miúda, na altura com quase 20 anos. Eu tinha 45.'

Tentou terminar tudo. Ela chorou. Ele também. Num daqueles ímpetos que só o amor traz, António admitiu o que nem às paredes se confessa: 'Eu amo-te, Carocha!' 'Eu também!', disse Carina.

Não foi fácil o início da relação, escondida durante algum tempo. A filha de António, quase da idade de Carina, foi excepção. 'Quis ser eu a dizer-lhe, para não saber por mais ninguém. Ela respondeu-me que tinha de acabar já com aquilo.' Mas a tempestade passou. 'Somos amigas, não é aquela relação de madrasta-enteada, apesar de nos apresentarmos assim em todas as ocasiões e de as reacções serem as mais diversas.'

Quando a notícia chegou à família de Carina caiu que nem ‘uma bomba’. 'A minha mãe dizia-me que para ele eu era apenas mais uma.' Não era, mas só os dois sabiam disso. Mudaram-se para um apartamento em Vila Franca de Xira. O tempo acabou por serenar as opiniões. Hoje o casal vive em Arruda dos Vinhos. Há três anos tiveram dois rapazes, gémeos. António sentiu 'o tempo voltar para trás'.

ANTÓNIO, 62 ANOS, CARMO, 45

Ambos viúvos, Carmo e António conheceram-se numa festa de passagem de ano, em 1994, através de amigos comuns. Ainda Carmo aprendia a lidar com a morte do marido e já António encarava a viuvez como algo que deve ser superado, apesar da mágoa que permanece.

António, na altura com 42 anos, convidou Carmo, à data com 29, a ‘andar de baloiço’. O atrevimento não colheu simpatia e a atracção masculina adormece. 'Não acreditei que uma mulher tão jovem se interessasse por mim mas, de facto, aconteceu', lembra António Encarnação.

O casal chegou a ocultar a relação dos amigos próximos e de familiares. Carmo não sabia como lidar com um relacionamento prematuro: 'Sentia-me mal, porque tinha ficado viúva poucos meses antes de conhecer o António.'

O relacionamento, que já leva 15 anos, tornou Carmo 'mais madura' e António 'mais sociável'. 'A relação nunca esteve em perigo pelo facto de ser mais velho.' A ‘idade’ foi sempre só informação de BI.

'UMA QUESTÃO DE TODOS OS TEMPOS E CLASSES'

'Isto é uma questão de todos os tempos e todas as classes sociais, até mais das classes baixas, ao contrário do que se poderia pensar', resume António Martins, sociólogo da Universidade de Aveiro. Segundo o investigador, 'a sociedade privilegia o que funcionalmente tem alguma utilidade. E aqui uma das questões é a reprodução.' Por isso, 'se algo vai contra essa regra, é natural que se criem estereótipos que o senso comum vai interiorizando'.

'ANTES DAS OBRIGAÇÕES ESTÁ A ESTIMA'

Rogério foi pai com 66 anos. Ana mãe com 22. Roberto Jorge tem hoje 13. 'Eu era muito amigo do padre Sousa, que um dia me disse: ‘Ó Portela, mas tu tens um filho e não o baptizas?’', recorda. 'Como é que eu posso baptizar o miúdo se não sou casado?', respondeu Rogério, ao que o pároco disse ter a solução: fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Casaram em 1999. O sexo nunca foi um embaraço: 'É aqui que eu sou diferente, porque não olho para uma mulher como um objecto de prazer. Antes das obrigações conjugais está a estima e o respeito que o homem deve à sua companheira.'

'TENHO CONSCIÊNCIA QUE DAQUI A UNS ANOS VOU FICAR MAIS FRACO' 

No início da relação, António tinha a noção de que as coisas iam ser complicadas devido à diferença de idades: 'Agora ainda me sinto com saúde, mas tenho consciência de que daqui a uns anos, e pela lei natural da vida, vou ficar mais fraco e ela não. Não sei como me vou sentir nessa altura.' Quanto ao sexo, Carina é firme quando diz que 'o Amor não é só isso. O Amor é muito mais do que isso, envolve a intimidade, a confiança. ‘Aquilo’ sem o resto não interessa', assegura.

'OS AMIGOS DIZEM QUE O PAI É VELHINHO' 

Ana Dinis e Luís Martins já se sentiram alvo de olhares alheios por causa da diferença etária que os ‘une’. 'Noto que acontece algumas pessoas ficarem na dúvida sobre se ele é o meu marido, mas nessas alturas faço questão de dar a mão e de abraçar o Luís, para que se desfaçam todas as incertezas. Agora se me importo com isso? Nada', resume a advogada, de 33 anos. Se os adultos se convencem facilmente, as crianças têm maior dificuldade: 'Eu sei que os amiguinhos da ‘Rafa’ lhe dizem que o pai dela é velhinho porque tem o cabelo branco porque ela nos conta, mas isso não é o mais importante. O importante é acompanhá-los em tudo.'

'A FAMÍLIA NÃO ACEITOU MUITO BEM'

Isabel passeava pelos vinte e poucos e António Melão pelos quarenta quando a amizade cedeu lugar cativo ao amor. O namoro foi curto e logo chegou ao altar mas não foi bem aceite pela família de Melão. 'Quando o António ‘se declarou’ ao meu pai ele disse: ‘Como tu sabes, eu deixava a minha filha ir até ao fim do Mundo contigo’, o problema foi com o pai e as irmãs dele, passámos um grande mau bocado', conta Isabel, de 58 anos. 'Eu acho que foi muito por causa da diferença de idades, ele era um homem feito e achavam que eu era uma menina, uma bonequinha sem jeito nenhum', acrescenta antes de abrir um sorriso para revelar que quando o primeiro filho do casal nasceu 'as coisas começaram a compor-se'.

'A NOSSA VIDA SEXUAL É BOA. A MINHA IDADE NÃO SE REFLECTE' 

António Encarnação tem 62 anos, Carmo Raposo 45. Quando a formulação da pergunta inclui a palavra que se inicia com a letra ‘esse’ – sexo – o chefe de vendas é sincero: 'A nossa vida sexual é boa. A minha idade não se reflecte. Sentimos os dois prazer. Mas, como em todas as relações, nem sempre as coisas correm bem.' Carmo corrobora a apreciação doméstica. António liberta o discurso, e segue: 'Gostava que ela fosse um bocadinho mais exigente nesse campo.'

A empregada de balcão e o chefe de vendas, moradores em Vila Nova de Santo André, concelho de Santiago do Cacém, não fazem planos a longo prazo. Não adianta. Conjugam o verbo ‘amar’ no presente. Só lamentam que a biologia não lhes tenha permitido terem filhos em comum, apesar de ambos serem pais de relacionamentos anteriores. Resta-lhes, e não é pouco, 'a cumplicidade e o respeito mútuo'.

'AS DIFERENÇAS TÊM MAIS A VER COM A PERSONALIDADE'

Afirma Pedro Norte, de 39 anos, professor da Universidade de Aveiro, é responsável pelo SexLab e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica

- O sexo e a intimidade podem ser um entrave para os casais com uma grande diferença de idades?

- Não vejo por que o sexo e a intimidade possam ser diferentes em casais com diferenças de idade.

- O sexo é importante em qualquer relação amorosa. Até que ponto é preponderante o uso do Viagra numa relação em que o homem é muito mais velho?

- O Viagra tem sido usado por homens independentemente da idade. Na generalidade, homens que tenham dificuldades sexuais (sobretudo disfunção eréctil) são os principais consumidores. O facto de um homem ser mais velho não implica que tenha dificuldades sexuais e que tome necessariamente Viagra ou afins. Para além disso, são igualmente comuns os casos em que homens sem dificuldades sexuais óbvias tomam Viagra (e muitos destes casos são jovens que pretendem experimentar ou potenciar a sua vida sexual).

- Alguma ocasião, enquanto terapeuta, lhe passou pelas mãos um casal com uma diferença de idades muito grande?

- Sim, isso aconteceu.

- E que tipo de perguntas lhe faziam então?

- As problemáticas e dificuldades não são necessariamente diferentes relativamente a casais com idades semelhantes. Mais do que a questão da idade, as diferenças têm muitas vezes mais a ver com características de personalidade.

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