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Amores de torna-viagem

Centenas de técnicos portugueses partiram com algumas armas e pouca bagagem para o ‘el-dorado’ angolano
Victor Bandarra 26 de Agosto de 2012 às 15:00
Victor Bandarra
Victor Bandarra FOTO: João Miguel Rodrigues

É uma voz doce, sedutora, quase piegas. "Não vais voltar! Você já não gosta de mim!" A rapariga fala com jeito e construção tipicamente angolanas. O rapaz, nervoso, aflito, reage em estilo lisboeta. "Miúda! Tenho de ir ver os meus filhos! Mas eu volto! Juro que volto!" No pequeno restaurante luandense, o jovem casal escolheu um cantinho discreto. O português, provavelmente engenheiro de construção civil, tenta convencer a crioula das suas mais sérias intenções. "Eu volto, amor! Vou tratar do divórcio e volto!" De perfil, a moça faz beicinho, funga e bebe mais um gole de refrigerante, esticando o mindinho. Dá pena o olhar descoroçoado do rapaz.

É uma voz doce, sedutora, quase piegas. "Não vais voltar! Você já não gosta de mim!" A rapariga fala com jeito e construção tipicamente angolanas. O rapaz, nervoso, aflito, reage em estilo lisboeta. "Miúda! Tenho de ir ver os meus filhos! Mas eu volto! Juro que volto!" No pequeno restaurante luandense, o jovem casal escolheu um cantinho discreto. O português, provavelmente engenheiro de construção civil, tenta convencer a crioula das suas mais sérias intenções. "Eu volto, amor! Vou tratar do divórcio e volto!" De perfil, a moça faz beicinho, funga e bebe mais um gole de refrigerante, esticando o mindinho. Dá pena o olhar descoroçoado do rapaz.

Nos últimos anos, centenas de jovens técnicos portugueses partiram com algumas armas e pouca bagagem para o ‘el-dorado’ angolano. Fizeram-se à vida, deixaram mulher e filhos pequenos em Portugal e adaptaram-se ao ritmo dengoso-alucinante de Luanda. Em geral, tentam ultrapassar complexos neocolonialistas, têm vaga ideia do que foi a ‘guerra do Ultramar’, discutem sobre a Sonangol e ‘a filha do Zedú’, alguns até já ouviram falar da poesia de Agostinho Neto.

Apanhados pela crise europeia, deixam-se apanhar pelo sortilégio africano. Tal como muitos compatriotas políticos, comentadores, empresários e afins, acham que já sabem tudo sobre Angola e acreditam que os dólares angolanos podem endireitar-lhes a vida e até salvar Portugal. Face ao calor humano das mocetonas, muitos acabam pelo beicinho. Enfim, deixam-se enredar pela ‘água de cu lavado’, essa estranha poção enfeitiçante...

O meu amigo Zé dos Pneus, tropa feita em África, garante que, a escolher entre chineses, alemães ou brasileiros, prefere "vergar a mola para os gajos de Angola". Sempre gostam de bacalhau e vinho tinto e "não se chateiam muito com uma piadita racista". Aliás, a sobrinha do Zé acaba de casar com um negrão angolano que conheceu na Ajuda e que insiste em a levar para Luanda. "Só não foi ainda porque se dá mal com o calor, imagina!»

Inchados de indignação, muitos portugueses não aguentam constatar que, menos de 40 anos após a independência da colónia, são angolanos novos-ricos que vão comprando anéis, e até dedos, do malfadado império lusitano. É assim a vida e o sistema, enleados no eterno sobe-e-desce dos alcatruzes da História. Pelo caminho, por razões que o coração conhece, geram-se amores de torna-viagem. No restaurante, o jovem português, com mil cuidados, ajuda a rapariga angolana a levantar-se. Empinada, a barriguinha de seis meses atravessa impante uma multidão de olhares curiosos.

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