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AMORES-PERFEITOS: CINCO CAMINHOS ATÉ O ALTAR

Mal a viu, o actor Ruy de Carvalho confessou a Armando Cortês: “Viste aquela miúda? Gostava que fosse minha mulher.” Acabou por se casar com Ruth, foram felizes para sempre. É uma história de amor. Em vésperas de São Valentim, dia 14, temos outras para contar. Todas bem reais.
8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
RUY E RUTH
Corria o ano de 1944 quando Ruth, então com 17 anos, se dirigiu ao conservatório para mais uma aula de ballet, disciplina que aprendeu com a mestre Margarida Abreu. No mesmo local, Ruy de Carvalho estudava as artes do palco. Eles não se conheciam. Nunca tinham trocado uma palavra. Nesse dia longínquo Ruy vê Ruth pela primeira vez e apaixona-se. Convicto, diz a Armando Cortês: “Vês aquela miúda? Gostava que fosse minha mulher e a mãe dos meus filhos.” Tempos depois, Armando conta a Ruth o que ouvira. Ela responde: “Nem pense nisso, nunca casaria com um actor”.
Quis o destino que estes jovens se encontrassem várias vezes e que fossem juntos ao Porto. Ela ia dançar. Ele ia cantar e representar. Numa noite, ao jantar, ele numa tentativa desesperada de fazer conversa com a menina-mulher pela qual se tinha apaixonado, pergunta-lhe se por acaso ela tinha “uma pedra no arroz”.
“Depois disso, no regresso a Lisboa, viemos a conversar” recorda Ruth com carinho. Margarida Abreu desaprovava as conversas entre a sua pupila e o actor. “O Ruy usava um anel mas como lhe faltava uma pedra, virou-o ao contrário e a minha professora pensava que ele era casado”, diz Ruth. O tempo foi passando e o Cupido atingiu este jovem casal que acabou por se apaixonar perdidamente.
Mas nem tudo foi um mar de rosas. A família dela desaprovava um namoro que começou um dia, na Avenida da Liberdade. Enquanto passeavam ele roubou-lhe um beijo. Alheia às contrariedades familiares e após concluir o curso, a 17 de Junho de 1954, precisamente 10 anos depois de se terem conhecido, casam, pelo registo. E 15 anos depois pela Igreja. Não tiveram direito a lua-de-mel mas as consecutivas viagens que fizeram juntos pelo mundo compensaram esse tempo perdido. E basta vê-los juntos, de mãos dadas, cinquenta anos depois, para se perceber que este é um casal feliz, unido pelo amor, pela ternura e pelo respeito.
EUSÉBIO E FLORA
Naturais de Moçambique, conheciam--se de vista porque tinham amigos comuns. Eram crianças, apenas diziam olá um ao outro. Mas nunca brincaram juntos. Eusébio veio para Portugal e ela ficou em África. Anos mais tarde, em 1963, integrada numa equipa de ginástica, Flora viaja até Lisboa e traz na bagagem uma encomenda para entregar ao futebolista. “Conhecemo-nos porque eu lhe levei a encomenda. E ele convidou-me para ir ao cinema, mas eu não podia porque já tinha um compromisso”, recorda Flora.
Uns dias depois, a Pantera Negra insiste e convida a rapariga para jantar. Flora esperou em vão, ele nunca apareceu no restaurante. “Já estava há muito tempo à espera quando ele ligou a dizer que não podia ir.” Ainda assim, e porque possivelmente simpatizavam um com o outro, começaram a sair. Ele não não voltou a falhar aos encontros. “Começámos a namorar”, diz Flora que, entretanto, regressara a Moçambique vivendo um amor à distância.
O ex-futebolista parte de férias para a terra da sua amada e pede-a em casamento. E foi assim que, no dia 22 de Setembro de 1965, casaram pelo registo em Lourenço Marques. E no dia 8 de Outubro do mesmo ano, pela Igreja, em Benfica. “Para mim conta o casamento católico”, remata Flora. Cerca de 40 anos depois e com duas filhas adultas, o casal prepara-se agora para acolher o primeiro neto. É um rapaz e deverá nascer no final de Março.
MARGARIDA E DAVID
Margarida e David frequentaram a mesma faculdade. Ela cursou Germânicas. Ele cursou História. Mas nunca se falaram, apesar de Margarida conhecer o nome dele das listas de Associação de Estudantes e saber quem era o pai do seu futuro marido – o poeta e escritor David Mourão-Ferreira.
“Curiosamente, o David foi namorado de uma amiga minha e eu dava-lhe imensos conselhos sem nunca imaginar que iria sobrar para mim”, recorda a apresentadora de TV Margarida Mercês de Mello. Entretanto, ela entrou para a RTP e para a rádio. Ele começou a trabalhar no universo da música. Cruzaram-se algumas vezes nos bastidores de programas e ela achava-o simpático. Com 25 anos e divorciada de um casamento precoce, Margarida dedicava energias ao trabalho e à família. Até que um dia, em Junho de 1979, Manuela Moura Guedes, sua colega na RTP insiste para que ela saia. Margarida, relutante, aceita. Nessa noite encontra David. “Ele tinha umas calças brancas e uma camisa havaiana e passou a noite toda a dançar”. Voltam a conversar. E um mês depois têm o primeiro de muitos jantares a dois no restaurante Sancho, em Lisboa. “Comemos um bife panado recheado de queijo e fiambre.”
Começaram a namorar e, apesar de nesse primeiro jantar ele lhe ter dito que não tinha feitio para casar, no dia 7 de Fevereiro de 1982 casaram. Passaram a lua--de-mel no Brasil. Um quarto de século depois desse jantar e com quatro filhos, continuam juntos, e felizes.
JOSÉ E MARIA
Lisboa, 1939, no início da II Guerra Mundial. Maria de Lurdes Sá Nogueira, filha do carismático professor catedrático Sá Nogueira e bisneta do Marquês Sá da Bandeira, ingressa na Universidade de Lisboa para cursar Germânicas. José Hermano Saraiva, andava na mesma faculdade, em História e dirigia a Associação Académica e o jornal universitário. Ela ouviu falar nele no dia em que o pai, na véspera do baile de recepção aos caloiros, lhe pede para ter cuidado com “um tal de Saraiva”.
O futuro historiador admirava muito o marquês Sá da Bandeira, e ao perceber que uma das caloiras era bisneta, quis conhecê-la. “Senti logo que também a Maria era uma mulher honesta.”
No baile bem tentou descobrir qual daquelas meninas se chamava Maria. Sem êxito. Uns tempos depois, ao confrontar--se com um grupo de raparigas a conversar na faculdade, aproximou-se e perguntou se alguma delas se chamava Maria. Teve sorte. Muita sorte. Apesar das advertências do pai, a estudante de germânicas achou-lhe graça. E no dia 15 de Janeiro de 1940 começam a namorar. “Fascinava-me a forma como ele falava da família”, conta Maria.
A família dela acabou por acolher José como um filho. Ele era romântico. Fazia questão em oferecer diariamente uma flor à amada. E passar na Brasileira para cumprimentar o futuro sogro, que ali se sentava a ler o jornal.
O desejo de construir uma família, o amor aos livros e à arte, e a paixão pelas viagens conduziu o jovem casal ao altar no dia 23 de Dezembro de 1944. Foi um casamento simples, sem grandes festejos. “A Europa estava mergulhada numa Guerra Mundial. Não quisemos grandes celebrações”, recorda o casal. No dia em que se casaram partiram para em lua-de--mel para a Serra da Estrela. Desde então, viajaram muito e sempre juntos.
ANTÓNIO E ANA
Ana nasceu e cresceu no Porto. António nasceu e cresceu em Lisboa. Conheceram-se numa noite de Verão, numa rua de Cascais, através de um amigo comum que tentava em vão cortejar a jovem. Ela tinha 18 anos. António Monteiro Coelho, o actual Relações Públicas da TVI, tinha 25 anos. Pouco tempo depois, António e o amigo vão ao Porto visitá-la. “O nosso amigo não guiava e o António tinha carro…”, revela Ana. O tal amigo acabou por perceber que não havia nada a fazer – a seta do Cupido tinha atingido a sua amada e o seu grande amigo.
Seis meses depois António pediu à família de Ana para namorar com ela. “Era notório que havia um interesse de parte a parte, no entanto, naquele tempo, era preciso pedir-se em namoro”, comenta Ana. A primeira saída oficial do casal de namorados aconteceu à tarde. Foram passear no Porto com uma amiga de infância de Ana e um colega de faculdade. “Naquela altura, sempre que eu queria sair com o meu namorado, vinha a minha mãe, tia, cunhada. Eram saídas a três”, revela Ana, acrescentando: “Eu podia sair com o António sozinha mas só à tarde.”
Depois de dois anos, entre sucessivas saídas a três e viagens entre Lisboa e o Porto, no dia 7 de Outubro de 1972, casaram. Pela Igreja, como manda a tradição. “Penso que no namoro ficámos a conhecer todas as estações e apeadeiros entre as nossas cidades” salienta, com humor Ana. Ironicamente, anos mais tarde viria a escrever o livro 'Vamos Casar' e a editar uma revista homónima.
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