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Ana, a amiga assassina

Perda de peso, imagem distorcida de si, alterações de comportamento, muito sofrimento e, em casos extremos, morte por subnutrição são as consequências da anorexia, uma doença com nome de mulher.
26 de Novembro de 2006 às 00:00
A Ana tem muitas amigas e alguns amigos. Mas a Ana é uma amiga da onça. Maltrata as que mais a adoram. Algumas chegam a idolatrá-la. A Ana faz delas gato sapato. Chega a matá-las. A Ana matou Carolina Reston, Carla Casalle, Luisel Ramos, todas jovens na casa dos 20 anos, ligadas à moda. Mas a Ana também mata muitas outras jovens anónimas, do ramo da moda, mas não só. E, no entanto, a Ana é glorificada na internet por milhares de adolescentes em todo o Mundo, que a têm como modelo e fazem a sua apologia em inúmeros ‘sites’, blogues e ‘chats’ de conversação ‘on-line’ ditos pró-Ana.
Mas, afinal, quem é a Ana? É também na internet que podemos encontrar a sua ‘carta de apresentação’: “Permita me apresentar. Meu nome (...) é Anorexia. Anorexia Nervosa é meu nome completo, mas você pode me chamar de Ana. Felizmente, nós podemos nos tornar grandes parceiras. No decorrer do tempo, eu vou investir muito tempo em você, e eu espero o mesmo de você.” Este é apenas um excerto da bizarra carta que descreve a doença na primeira pessoa, uma carta publicada em muitos ‘sites’ e que faz parte de um assustador ‘movimento’ denominado pró-Ana. As jovens que frequentam estes ‘sites’ dizem-se ‘a favor da anorexia’ como quem clama ser ‘a favor da despenalização do aborto’.
Mas a anorexia nervosa é uma doença. Uma doença grave e, apesar de tudo, rara, como explica Daniel Sampaio, psiquiatra e responsável pela consulta especializada em Doenças do Comportamento Alimentar (DCA) do Hospital de Santa Maria: “É preciso que as pessoas saibam que a esquizofrenia é mais frequente do que a anorexia”, salienta. E alerta para o facto de existir outra DCA, a bulimia nervosa, com maior expressão, e que, na sua opinião, é pouco divulgada.
Apesar da proliferação dos blogues e ‘sites’ que defendem a anorexia como ‘estilo de vida’, nem todas as doentes os frequentam e, por outro lado, muitas das frequentadoras são jovens com excesso de peso, que “aspiram a ser anorécticas” porque, ainda nas palavras de Daniel Sampaio, “não sabem o que é a anorexia”.
Estas adolescentes elegem as anorécticas como modelo, porque, “como querem perder peso” – refere a endocrinologista Isabel do Carmo, autora de um livro sobre o tema e membro do Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar (NDCA) – “é natural que frequentem na ‘net’ os blogues das outras para lhes copiarem as manobras. As outras são verdadeiramente as vitoriosas, as que conseguiram perder peso”.
É o caso de Francisca, de 20 anos. Francisca nunca frequentou ‘sites’ pró-Ana e acha-os “absolutamente bizarros”. Mas, um dia, uma amiga começou a apresentar os sintomas que ela tão bem conhecia: “Veio ter comigo e disse-me que ia fazer dieta. Falou-me em planos alimentares, calorias e restrições. Fiquei horrorizada. Disse-lhe ponto por ponto o que lhe ia acontecer. Que não ia conseguir parar. Porque a fome é um vício. Só muitos anos depois, já em recuperação, é que ela percebeu que há muito tempo eu já sabia do que se tratava. Depois da primeira consulta que teve, telefonou-me: ‘Sabes, durante estes anos todos eu tive um modelo. E esse modelo eras tu.’ Eu não queria acreditar que aquilo pudesse ser verdade. Como é que eu podia ser o modelo de alguém? Eu só queria ser normal e que ninguém desse por mim!” Mas a Francisca sempre tinha sido a mais alta e a mais magra da turma. E também a melhor aluna, a melhor desportista. Como a maior parte das jovens que sofrem de anorexia nervosa: extremamente perfeccionistas, estudiosas e meticulosas. Filhas exemplares, o que faz com que os pais raramente se apercebam de que algo vai mal até que a perda de peso e as alterações de comportamento atinjam níveis alarmantes. Quando Francisca decidiu tratar-se e contar aos pais o que se passava, já tinha entrado na casa dos 30 quilos. Para uma altura superior a 1,70 m.
CHOCANTE ASSOCIAÇÃO ENTRE ANOREXIA E MODA
Para Francisca é chocante que “as pessoas façam uma associação entre anorexia e moda. Eu nunca me interessei por isso. Acho fúteis as pessoas que têm as manequins como modelos a seguir. Aliás, quando a minha amiga começou a fazer dieta e eu vi no que ela estava a entrar, afastei-me dela e disse-lhe porquê”. Mais tarde, quando percebeu que tinha sido um modelo para a amiga, Francisca sentiu-se “profundamente culpada”. A culpa acompanha-a, de resto, desde que se lembra de si. Assim como a anorexia nervosa, embora até hoje tenha dificuldade em aceitar que é “isso” que tem. Nunca foi capaz de pronunciar “a palavra”. Nem quando andava em terapia com uma psicóloga, no tempo em que tinha sinais de depressão que alertaram as professoras (“Telefonaram da escola aos meus pais: ‘Ela só chora’”), nem, anos mais tarde, quando decidiu contar aos pais o que se passava, no mesmo dia em que marcou uma consulta na Clínica de Santa Catarina de Siena.
Francisca não consegue entender as causas da sua doença. Afirma nunca ter feito qualquer esforço para perder peso, até porque sempre foi magra. Para ela, o distúrbio iniciou-se porque, ainda antes da puberdade, se sentia diferente dos outros: “Por isso não queria estar com eles; para não estar com eles evitava os sítios que eles frequentavam, o refeitório da escola, o bar, os cafés. E então, não comia.” A pouco e pouco, não comer tornou-se como um vício. Francisca apercebeu-se de que conseguia controlar-se. Cada dia passado sem comer era uma vitória. Sobre o quê, ela não sabia, mas sentia-se poderosa. E, ao mesmo tempo, a cada vez que atingia um objectivo – “e tudo o que eu queria, eu fazia” –, sentia-se vazia. E fechava-se no quarto a chorar. Entretanto, os pais orgulhavam-se da filha, a melhor aluna da escola, a menina bem comportada, que não saía, não dava problemas e passava horas a estudar.
LONGOS PERÍODOS EM BRANCO
Na vida de Susana há longos períodos em branco: “Sei que saía da faculdade ao fim da manhã e que, ao fim da tarde, jantava na Espiral (restaurante vegetariano e macrobiótico). Mas não sei o que fazia entretanto. Um dia larguei o emprego. Fui à consulta do Hospital de Santa Maria. Pesava 35 quilos. A médica quis internar-me. Fiz tudo para ficar em ambulatório. Deram-me um plano alimentar. Acho que foi aí que comecei realmente a ter um comportamento de anoréctica, a contar calorias, colheres de arroz. Mais tarde voltei ao hospital. Pesava 29 quilos. Mesmo assim deixaram-me sair. Cumpri à risca o plano alimentar. Uma semana depois ainda pesava menos. Nem me conseguia mexer. Fiquei semanas fechada em casa. Só a minha mãe me acompanhava. Não sei como sobrevivi.” Os médicos também não. Nos casos em que o Índice de Massa Corporal atinge níveis abaixo dos 16 (o normal é entre 18,5 e 25) e em que a amenorreia (falta de período menstrual) se prolonga por mais de três meses, há indicação para internamento, que pode ser compulsivo. Mas uma das características da anorexia é a manipulação e, frequentemente, as doentes conseguem, à força de promessas, manter-se fora do hospital. Algumas são um prodígio de sobrevivência.
Susana tem consciência de ser “um milagre”. No entanto, nunca acreditou que pudesse morrer. E nunca o quis, afirma: “Apenas queria desaparecer. Ocupar o mínimo de espaço possível. Não ser notada.” Também garante nunca ter tido preocupação com a sua imagem e muito menos admiração pelo mundo da moda. Como Francisca, revolta-a a associação entre moda e anorexia. Mas os especialistas colocam as modelos entre as ‘actividades de risco’, assim como as bailarinas e as desportistas. No entanto, salienta Daniel Sampaio, “não se pode determinar uma causa única, a doença é multifactorial. Acredita-se que existem factores genéticos, familiares e sociais, mas poderá haver um evento desencadeador, como por exemplo abuso sexual”. Não foi o caso de Francisca, nem de Susana. Nem uma nem outra conseguem perceber em que momento a anorexia começou a tomar conta das suas vidas.
Susana tinha, até ao desencadeamento tardio da doença (aos 21 anos), uma vida social muito activa. “De repente, todos os meus amigos desapareceram, menos dois. As pessoas olhavam para mim de uma maneira... má! Como se eu tivesse escolhido isto.” Já Francisca, pelo contrário, conta que “pessoas maravilhosas têm aparecido” na sua vida. Pessoas que contribuem, sem querer, para intensificar a sua imensa culpa: “Assim que se começam a aproximar mais, eu afasto-me. Sei que vou acabar por desiludi-las.”
Houve, no entanto, um episódio que lhe causou grande mal-estar. Ao prestar provas para ingressar numa escola profissional, foi entrevistada por uma professora: “Às tantas, ela olha para mim e diz: ‘Realmente, é mesmo muito magra. Não me diga que tem uma daquelas doenças parvas das miúdas de agora?!’ Fiquei com vontade de me enfiar no buraco mais próximo.”
Vergonha, culpa, controlo e descontrolo, ódio de si mesma, incapacidade de parar mesmo quando já se está muito magra, perda da noção da realidade. Estes sentimentos acompanham a doente às vezes já muito depois de ter entrado em tratamento. Assim como alguns comportamentos típicos: contar calorias, cortar a comida em pedaços muito pequenos, calcular meticulosamente todos os momentos do dia. Francisca já está em tratamento há mais de dois anos, mas ainda hoje não se vê tal como nós a vemos: “Acho sempre que os outros são mais magros do que eu. Há uns tempos fui à praia com um amigo, uma das únicas vezes que fui à praia nestes seis anos. Passado um bocado disse-me que era a última vez que ia à praia comigo. ‘Porquê?’, perguntei. ‘Está tudo a olhar para ti.’ ‘Mas... a olhar para mim? Porquê?’ ‘És a mais magra desta praia’, respondeu. ‘O quê? Olha aquela e aquela, e aquela...’ Olhou para mim: ‘Estás doida? Qualquer uma delas tem pelo menos mais dez quilos do que tu!’ Todos me dizem, mas eu não consigo ver. Parece-me que não passo em passagens estreitas ou que não caibo em determinadas calças. Quando as visto, afinal estão-me largas.” Esta distorção da imagem é típica da anorexia nervosa, “mas pode não surgir”, afirma Daniel Sampaio. E, tal como os outros técnicos, sublinha a importância do diagnóstico precoce e da intervenção terapêutica que, salienta, deve, antes de mais, ser feita por um psiquiatra: “As equipas também englobam nutricionista e endocrinologista, mas a primeira intervenção deve ser do psiquiatra.” Quanto à “adesão” do doente, Daniel Sampaio garante que é conseguida pela insistência, “até porque há muito sofrimento”. Dulce Bouça, presidente do NDCA, vai mais longe: “É errado pensar que as doentes não se querem tratar. Uma anoréctica quer sempre sair da anorexia. É preciso, com muito carinho e sabedoria, demonstrar-lhe que ela continua dona do seu corpo.”
O ABC PRÓ-ANA
LEGIÃO DE JOVENS FAZ APOLOGIA DA ANOREXIA ATRAVÉS DA INTERNET
A proliferação de blogues, ‘sites’ e ‘chats’ na internet ditos pró-Ana e Pró-Mia fez surgir um novo código utilizado pelas jovens ‘aspirantes’ a anorécticas que elegem a anorexia e a bulimia como um ‘estilo de vida’. Nos blogues, trocam-se dicas sobre como vomitar ou enganar os pais. Os termos que utilizam servem para que se reconheçam entre si como membros desta nova ‘tribo urbana’.
Ana: Anorexia Nervosa; pró-Ana: a favor da anorexia
Mia: Bulimia Nervosa; pró-Mia: a favor da bulimia
Anjo, Boneca, Criança, Princesa: a forma como se designam a si próprias, o que se explica pela alteração hormonal causada pela anorexia, que causa um atraso na puberdade
Controlo: o que todas elas querem atingir
Compulsão: uma crise de voracidade. ‘Tive uma compulsão’ significa: ‘Comi muito’
ED: Eating Disorders (Perturbações do Comportamento Alimentar). Pró-Anas/Mias referem carinhosamente os seus ED como se de uma mascote se tratasse
Miar: vomitar. As ‘Mias’ ou ‘Ana/Mias’ (descritas cientificamente como anorécticas de tipo compulsivo) têm crises de voracidade em que ingerem grandes quantidades de comida e sentem muita culpa, vomitando em seguida
LF: Low Food (pouca comida). Pró-Anas/Mias fazem frequentemente jornadas de LF e promovem LFC (Low Food Colectivos) na rede, concursos em que ganha quem conseguir seguir as restrições mais severas durante mais tempo
NF: No Food (nenhuma comida). NFC: No Food Colectivo. O mesmo que acima, mas observando jejum completo.
ANOREXIA E BULIMIA NERVOSA
OS SINAIS DE ALARME
As Doenças do Comportamento Alimentar traduzem-se por uma série de sinais que, mais cedo ou mais tarde, podem ser notados por pais, professores ou amigos mais próximos.
- Seguir dietas severas apesar de ter um peso normal
- Perda de peso progressivo que é escondida com roupas largas ou sobreposição de peças de roupa
- Recusar ou evitar as refeições em família ou em público
- Saltar refeições
- Isolamento dos amigos
- Hiperinvestimento nos estudos em detrimento de actividades lúdicas
- Tristeza, irritabilidade e alterações de humor
- Idas à casa de banho imediatamente após cada refeição (anorexia de tipo bulímico ou bulimia nervosa) – quando há bulimia ou anorexia de tipo bulímico, a doente vomita a seguir a cada refeição ou crise de voracidade. Também recorre frequentemente ao uso de laxantes.
SINTOMAS QUE PODERÃO PASSAR DESPERCEBIDOS
- Amenorreia (falta de período menstrual) ou desinteresse sexual no caso dos rapazes
- Imagem distorcida de si própria: vêem-se como gordas apesar de muito magras
- Tornam-se ‘experts’ em nutrição: calorias, valores nutritivos e composição dos alimentos deixam de ter segredos para elas
- Sentem-se muito poderosas à medida que vão perdendo peso e muito culpadas quando comem
- Têm muita fome (que pode diminuir à medida que a doença progride)
- Prática intensa de exercício físico
- Práticas de automutilação (anorexia de tipo bulímico ou bulimia nervosa)
CONSELHOS ÚTEIS
A QUEM RECORRER?
Se sofre de uma perturbação do comportamento alimentar ou conhece alguém que possa precisar de ajuda, pode recorrer a uma das consultas especializadas.
CONSULTAS HOSPITALARES
Hospital de Santa Maria
Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Telefone geral – 217 805 000
Hospital da Universidade de Coimbra – Serviço de Psiquiatria
CONSULTA DE DISTÚRBIOS ALIMENTARES
Telefone geral – 239400400/239400500
Linha Azul – 239827446
Hospital de São João – Serviço de Psiquiatria
Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Telefone geral – 225 512 100
Linha Azul – 225 096 093
OUTROS NÚMEROS E CONTACTOS
Linha SOS Adolescente – 800 202 484
Dias úteis, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Centro SOS Voz Amiga – 800 202 669
Dias úteis, das 12h00 às 24h00
AFAAB – Associação dos Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos
Telefone – 22 200 00 42 (Porto)
‘E-mail’ – afaab@ip.pt
www.comportamentoalimentar.pt
Em Lisboa, tambem existe uma clínica privada especializada nas Doenças do Comportamento Alimentar. Chama-se Clínica de Santa Catarina de Siena (Santa Catarina de Siena – na imagem – é descrita como a primeira anoréctica de que há memória. Viveu no séc. XIV).
Fica situada na Avenida 5 de Outubro, n.º 114, 1.º Dt.º
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