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Ana Coelho-Moreira: “Vi cólera, desprezo e aversão”

A investigadora analisou seis rostos da Casa Pia: Carlos Cruz, Carlos Silvino, Ferreira Diniz e de três vítimas.
Marta Martins Silva 19 de Junho de 2016 às 11:15

Durante três anos, a investigadora Ana     Coelho-Moreira analisou à lupa as expressões faciais de seis intervenientes de um dos casos mais mediáticos em Portugal: o processo Casa Pia.

Qual a importância da análise das expressões faciais?

A face é o nosso cartão de visita para com os outros e é o local de excelência da manifestação e exibição da atividade neuropsicológica, química e elétrica do nosso cérebro. A título de exemplo, a nível da saúde permite, entre outros,     entender     melhor     o doente.

Para este caso em concreto, do processo Casa Pia, que técnicas utilizou?

Para análise da expressão facial da emoção da amostra do processo Casa Pia, o instrumento utilizado foi o FACS – Facial Action Coding System [permite medir a expressão facial ou comportamento facial     visível,     e     não     apenas ações que podem estar relacionadas a uma emoção através de vários indicadores].

Quanto     tempo     demorou esta investigação e quais as maiores dificuldades?

Foi um trabalho demorado e exaustivo, muito por conta da utilização do FACS, que implica o visionamento demorado e analítico dos vídeos selecionados. Foram vários os desafios, dificuldades, ao longo     da     investigação.     Por exemplo, não me foi possibilitado o contacto direto com parte dos intervenientes, pelo que     apenas     utilizei     documentação e vídeos públicos (como conferências de imprensa, entrevistas). Tive por isso     de     optar     pela     mesma metodologia de recolha de dados com todos os restantes, o que, em certa medida,  deu azo a algumas cautelas na análise final dos resultados sob pena de os próprios dados terem sido ‘contaminados’ por variáveis parasitas (tais como o quadro axiológico-valorativo dos entrevistados e/ou jornalistas, a sua relação     pessoal,     os     locais     de captação     de     imagens,     os meios de captação de imagem,     a     qualidade     das     imagens, entre outros).

Tendo em conta o facto de ser um processo mediático, teve receio de estar a correr um grande risco?

Não foi, não é, nem será objetivo meu ou da minha investigação fazer um novo julgamento ou um julgamento do julgamento do processo Casa Pia. O objetivo central é demonstrar em que medida as análises da expressão facial da emoção poderão contribuir e servir as instituições judiciais em Portugal, explicando a sua utilização, o seu caráter científico e rigoroso. Há muito tempo que diversas instituições em várias partes do globo se socorrem deste tipo de análise (FBI, NSA, CIA, MI5, Mossad, entre outros).

Em Portugal usa-se este recurso judicialmente?

Em Portugal, o estudo da expressão facial da emoção ainda     é     relativamente     recente quando comparado com outros países, pelo que o seu uso ainda é escasso. No contexto forense, as instituições judiciais, podem socorrerem-se de pareceres técnicos e/ou peritos     de     determinadas áreas para produção de prova (artº 163º, CPP).

Quais as expressões faciais comuns aos intervenientes no processo Casa Pia?

As emoções mais frequentemente exibidas pelos indivíduos selecionados, ainda que três     fossem     analisados     na condição     de     condenados     e três na de vítimas, foram desprezo, cólera e aversão.

O que significam?

O desprezo, de forma geral, está ligado a uma vivência do próprio indivíduo de superioridade face ao seu interlocutor, de manifestação de domínio     sobre     determinado tema/assunto/circunstância do que os demais. A cólera está ligada à perceção do indivíduo de algo que considera ameaça à sua sobrevivência, ou a perceção de uma potencial agressão de qualquer natureza contra si ou contra algo ou alguém que estima. Esta emoção caracteriza-se pelas características biológicas que acompanham as psicológicas, como o aumento da tensão arterial e da necessidade de oxigenação, enquanto o indivíduo analisa a possível ameaça e pondera qual a melhor atitude a tomar (fugir ou lutar). Por último, a aversão, também ela uma das emoções básicas,     está     ligada,     por exemplo, a situações, coisas, pensamentos, alimentos que causam repulsa no indivíduo, pelo que este sente necessidade de se afastar e evitar qualquer tipo de contacto. Foi curioso concluir que estas três emoções     básicas     foram     as mais comuns e transversais a todos os indivíduos da amostra, bem como dos indivíduos selecionados     para     o     vídeo- -matriz de comparação de resultados (o político Anthony Weiner e o ex-presidente Bill Clinton,     ambos     envolvidos em escândalos).

Porquê a comparação com casos internacionais ao longo do estudo?

Sendo que uma das hipóteses colocadas era a de perceber se as características faciais da culpa,     a     existirem,     seriam transversais e universais, fazia     todo     o     sentido     utilizar como vídeo-matriz de comparação indivíduos de outras nacionalidades. A escolha recaiu sobre dois norte-americanos, pois foram duas pessoas que também foram expostas publicamente, foram escrutinadas pela comunicação social e tanto negaram os factos de que eram acusados como posteriormente assumiram os mesmos. No processo Casa Pia, duas das vítimas     e     um     dos     condenados vieram a público tanto assumir a veracidade dos abusos, como também os negaram.

Quais as principais conclusões a que chegou?

Os resultados obtidos sustentam a existência de uma matriz específica na face da culpa, designadamente, com a presença combinada das AU (action units) 1+2+5+64, todas elas manifestadas na upper face (parte superior da face, mais concretamente arquear zona interior do sobrolho, arquear zona exterior do sobrolho, levantar as pálpebras     superiores     e     baixar     o olhar), independentemente das circunstâncias que estão na sua origem, assunção ou negação. Também foi possível perceber que na assunção de factos, os indivíduos demonstram menos intensidade e menor frequência de exibição     de     emoções     na     face, grosso     modo,     adotam     uma postura facial mais contida onde,     quanto     à     duração,     as microexpressões     eram     as mais frequentes (estas muito associadas à     tentativa     de ocultação e/ou dissimulação de emoções) e eram maioritariamente     simetricamente exibidas. Na negação dos factos foi possível perceber que as manifestações faciais da emoção eram mais frequentes, mais intensas, menos simétricas e, quanto à duração, verificou-se a manifestação de     macroexpressões     e     expressões subtis, além de microexpressões.

Que outros processos gostaria de estudar neste âmbito das expressões faciais?

Não nego que determinados processos, pelas suas características específicas, me suscitam maior interesse, como o caso de José Sócrates, o desaparecimento de Rui Pedro, os casos de Vale e Azevedo, Leonor Cipriano, Bernie Madoff ou Maddie McCann.
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