Anaïs Nin: o ponto de vista do prazer feminino

O erotismo da escrita resulta das experiências pessoais da autora.
Por João Pedro Ferreira|13.01.19
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Anaïs Nin (1903-1977) foi uma escritora norte-americana de origem francesa e cubana. Nasceu nos arredores de Paris e era filha do compositor cubano Joaquín Nin e de Rosa Culmell, cubana de ascendência francesa. Quando o pai abandonou a família, a mãe foi viver para Nova Iorque com os filhos. Durante a travessia do Atlântico, aos 11 anos, Anaïs começou a escrever um diário que manteve durante toda a vida e no qual tiveram origem as suas obras literárias.

Em 1923, Anaïs casou-se em Nova Iorque com o banqueiro Hugh Guiler, indo viver para Paris. Ali se tornou íntima do escritor Henry Miller, famoso pelos seus romances eróticos, e de sua mulher, June. Nas décadas de 1930 e 1940, a escritora manteve relacionamentos íntimos com nomes famosos da literatura mundial, incluindo, além do já referido Miller, John Steinbeck, Gore Vidal, Antonin Artaud, James Agee ou Lawrence Durrell, entre outros.

A II Guerra Mundial levou Anaïs Nin a regressar aos EUA, onde se casou, em 1955, com o ator Rupert Pole – apesar de não se ter divorciado de Hugh Guiler.

A obra de Anaïs Nin ocupa um lugar de destaque na literatura do século XX sobretudo pelo facto de a sua forte componente erótica ser apresentada do ponto de vista feminino, o que fez dela um ícone do feminismo. Entre as suas obras principais contam-se, além dos seis volumes do ‘Diário’, os romances ‘Cidades do Interior’ e os livros de contos ‘Delta de Vénus’ e ‘Os Passarinhos’.

Do livro ‘Delta de Vénus’

‘Artistas e Modelos’

"[...] Não trocámos uma palavra até chegarmos ao seu apartamento. Ele não me tocara. Nem precisava. A sua proximidade excitara-me de tal modo que era como se estivesse a acariciar-me há muito tempo.

[...] Por fim ele beijou-me. A sua língua circulou em torno da minha vezes sem conta, até que parou para tocar apenas na ponta da minha língua. Enquanto me beijou, levantou lentamente a minha saia. Baixou as ligas e as meias. Depois levou-me para a cama. Eu sentia-me tão dissolvida em prazer que era como se ele já me tivesse penetrado. A sua voz parecia já ter aberto todo o meu corpo. Ele sentiu o meu estado, e por isso ficou espantado com a resistência encontrada pelo seu pénis. [...] Senti-me sendo dolorosamente rasgada, mas o calor dissolveu tudo, o calor da sua voz ao meu ouvido, dizendo: — Desejas-me tanto como eu te desejo?

Ele gemeu de prazer. E, com todo o seu peso sobre mim, comprimindo o meu corpo, o momento de dor desapareceu. Senti a felicidade de ser desflorada. E deixei-me ficar deitada, quase sonhando.

— Magoei-te — disse John. — Não gostaste. — Não pude obrigar-me a dizer naquele instante que queria mais.

A minha mão procurou o seu pénis. Acariciei-o. Ele levantou-se, muito duro. John beijou-me até que senti uma nova onda de desejo, o desejo de reagir com toda a plenitude do meu corpo. Mas ele disse: — Agora vai doer. Espera um pouco. Podes ficar comigo toda a noite? Queres ficar?

Vi que havia um pouco de sangue na minha perna e quis lavá-lo. Senti que ainda não fora possuída por completo, que aquilo eram apenas os preliminares de algo bem melhor. Queria ser possuída e conhecer o que seria a felicidade plena. Caminhei um tanto sem firmeza e caí na cama de novo.

John estava adormecido; o seu grande corpo ainda se encontrava curvado como quando estivera colado ao meu, o braço atirado sobre o local onde estivera a minha cabeça. Ajeitei-me a seu lado, sonolenta. Quis segurar o seu pénis de novo. Fi-lo bem de leve para que ele não despertasse. Então adormeci, para ser acordada algum tempo depois pelos seus beijos.

Flutuámos num mundo de sensualidade, sentindo apenas a vibração da nossa carne, e cada contacto que havia entre nós era uma alegria. John puxou-me pelos quadris. Temia magoar-me. Abri as pernas. Quando ele meteu o pénis, doeu um pouco, mas o gozo que senti foi bem maior. Foi uma pequena dor anulada pelo prazer imenso da presença do seu pénis que se movia bem fundo dentro de mim. Desloquei-me para a frente, louca para ir ao seu encontro.

Dessa vez ele ficou passivo e disse: — Tu é que te mexes; agora vais gozar.

Movi-me delicadamente em torno do seu pénis. Coloquei os punhos fechados nas costas para erguer o corpo na direção dele. John colocou as minhas pernas sobre os seus ombros. Aí então a dor aumentou muito e ele recuou.

Quando saí de manhã, estava meio tonta, mas feliz por sentir que tinha chegado tão perto da paixão. Fui para casa e dormi até que ele telefonou."

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