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"Andávamos à procura dos ‘turras’ para os eliminar"

Estávamos numa zona de perigo e de emboscadas. Um dos meus melhores homens pisou uma mina e morreu.
Manuela Guerreiro 8 de Dezembro de 2019 às 13:00

Quando fomos mobilizados, estivemos cerca de seis meses em Évora, no Regimento de Infantaria 16, onde fui responsável pela instrução e especialidade do 4.º pelotão da Companhia de Caçadores 3537. Seguimos para Santa Margarida onde estivemos duas semanas a fazer o IAO – Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. Foi aí que nos preparámos. Eram criadas situações similares às que iríamos encontrar em Angola. Ensinavam-nos a fazer rapel, a saltar de helicóptero no mato ou a marchar armado. Mas não tem nada a ver com a realidade. Terminada a instrução, tivemos uma pequena licença e depois fomos para o aeroporto de Lisboa. Fiz a comissão em Angola, onde estive 26 meses e meio. Partimos no dia 24 de junho de 1972. Tinha 22 anos.

A viagem para Luanda durou oito horas. Fomos de avião, num Boeing da TAP, fretado pelo Estado para transporte dos militares. Chegámos a Luanda e fomos conduzidos para o aquartelamento do Grafanil, que fica a cerca de cinco quilómetros. Era aí que eram concentradas todas as tropas que chegavam do continente e depois eram distribuídas para outras zonas. Saímos dali em camionetas de carga, abertas, conduzidas por civis, com destino a Mucondo, no norte de Angola, onde estivemos os primeiros 13 meses. Mucondo pertencia ao Comando de Setor de Santa Eulália, na região dos Dembos. Demorámos cerca de 8 horas até chegar a Mucondo.

Perigos e emboscadas

Estávamos numa zona 100 por cento operacional, cheia de perigo. Aliás, a 50 quilómetros de Luanda, para norte, já havia combates e emboscadas. Mucondo fica a 350 quilómetros de Luanda. Todos os dias havia operações no mato. Uma parte da companhia estava sempre fora. Tínhamos de escoltar, com regularidade, o transporte dos alimentos.
O aquartelamento foi construído de raiz num local ermo e estava completamente isolado. Tinha uma pequena pista de aviação, em terra batida, onde aterravam avionetas que nos levavam, duas vezes por semana, os frescos – carne, peixe e legumes e também o correio. Quando não havia condições não podiam aterrar, o que era desmoralizante.

O resto dos mantimentos – arroz, batata, massa ou feijão - chegava de 15 em 15 dias, em camionetas de transporte civil. Eram dezenas de camionetas, faziam filas enormes. Muitas foram emboscadas e atacadas. Fazíamos a escolta de uma parte do percurso, normalmente duas vezes por mês. Mas também fazíamos operações diariamente no mato, onde passámos grandes sacrifícios. Andávamos à procura dos chamados ‘turras’, abreviatura de terroristas, para os eliminar. Afinal era isso que andávamos lá a fazer. Tentávamos destruir as culturas deles e ainda fazíamos proteção diária a fazendas particulares de café.

Pessoalmente, não matei ninguém, mas o meu pelotão sim. Sabíamos que estávamos numa situação com a qual não concordávamos. Estávamos numa guerra injusta. Mas estávamos lá e tínhamos de nos defender. O meu pelotão matou um ‘turra’ numa operação porque estávamos a ser atacados e respondemos. Enterrámo-lo com a cabeça de fora para os colegas dele saberem que estava ali. Como comandante do pelotão não deixei que lhe tocassem. Alguns queriam ficar com recordações macabras, o chamado troféu de guerra. Também tivemos baixas em combate e em acidentes. Um dos meus melhores homens pisou uma mina e morreu.

Fizemos a restante comissão no Béu Comercial, na região de Maquela do Zombo. Continuava a ser uma zona operacional, mas ligeiramente mais pacífica. Ficámos ali os outros 13 meses. Regressei a Lisboa a 1 de setembro de 1974 e terminei a guerra.

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