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António Cândido Franco: "Agostinho tinha uma enorme invulgaridade"

Biógrafo de Agostinho da Silva passou dez anos a pesquisar um homem que compara a Sócrates e a Padre António Vieira.
Leonardo Ralha 15 de Fevereiro de 2015 às 16:00
António Cândido Franco tem 58 anos e é professor na Universidade de Évora

Escrever a biografia de um homem que viveu muitas vidas foi a missão a que o professor universitário António Cândido Franco se voluntariou. Fruto de dez anos de trabalho, ‘O Estranhíssimo Colosso’ (Quetzal) recorda ou apresenta aos leitores Agostinho da Silva, morto em 1994, aos 88 anos, um dos grandes pensadores do século XX em Portugal e no Brasil.

Qual é o maior equívoco que persiste, duas décadas após a sua morte, acerca de Agostinho da Silva?

Parece-me que a faceta mais escondida é a do escritor. Conhecemos relativamente bem a invulgaridade do Agostinho da Silva como pessoa, mas muitas vezes não temos a dimensão da grandeza do escritor. Trata-se de um colosso da língua portuguesa, alguém que pode ser comparado ao Padre António Vieira, ao Fernando Pessoa e ao Teixeira de Pascoaes. Habituámo-nos a ver um homem com um pensamento original, mas que não passa disso, e esquecemo-nos de que teve uma obra de grande qualidade.

Deixa claro no seu livro que ele não era um nacionalista e que preferiria o Adamastor a Vasco da Gama...

Era mais um universalista. Um homem que encarava o Mundo e não apenas centrado em Portugal. Desejaria muito, e essa foi a luta dele a partir de uma determinada altura, sobretudo no Brasil, que a língua portuguesa pudesse representar um trunfo importante nesse novo Mundo. O nacionalismo do Agostinho, se existiiu, foi apenas esta tentativa de dar à língua portuguesa um papel importante no futuro.

No entanto, acabou por ser adotado por alguns nacionalistas.

Pode ter havido leituras do Agostinho, e pode continuar a haver, centradas apenas em Portugal. Não creio que isso corresponda à visão do Agostinho, até porque para ele o Brasil representava na língua portuguesa o que Portugal já não conseguia. Na linha do Padre António Vieira, viu ali a construção do Quinto Império.

A recolha de informação para escrever ‘O Estranhíssimo Colosso’ custou-lhe uma década de trabalho. Qual foi o impulso para escrever esta biografia?

Teve a ver com o momento em que conheci o Agostinho da Silva. Em 1988, no lançamento do livro ‘Os Dispersos’. Foi um acontecimento de grande projeção mediática na época, porque meteu o Presidente da República, Mário Soares [a quem ele chegou a dar aulas], e foi nos Jerónimos. Surpreendeu-me profundamente a figura dele. Deixou-me desarmado. Não usava gravata, tinha um casaco velho, barba por fazer e o cabelo despenteado, no meio de gente engravatada, com todo aquele protocolo. Ele, que era o homenageado e a quem o Presidente da República fez uma grande vénia. Percebi que a vida daquele homem tinha de ter tido uma invulgaridade muito grande. Isso despertou em mim interesse em investigá-la.

Admite que o percurso dele tem inúmeras zonas de sombra. Qual é a informação que mais gostaria de ter incluído no livro, mas a que não teve acesso?

Ele próprio diz que teve uma vida com várias biografias, com muitos episódios, muito distintos. A parte que  me escapou e que me desperta mais curiosidade - e sobre a qual o Agostinho guardou muito segredo - tem a ver com as várias mulheres que foi tendo. Conheço apenas três importantes casos amorosos, mas uma vida riquíssima continua na sombra. Conhecemos oito filhos ao Agostinho da Silva, mas é possível que haja mais. Em Brasília, onde esteve sete anos, numa altura em que a meia-idade ia a caminho da terceira, era conhecido por ‘O Povoador’. Teve uma vida amorosa muito rica, mas ele próprio foi muito reservado, numa época em que a ostentação destas coisas podia até ser perigosa.

Aliás, avisa que uma "biografia sem sexo é como tela sem tinta", e escreve que ele "não era destesticulado" e "tinha força na verga".

É um homem que, sem o impulso sexual, não se compreende. Teve uma vida sexual muito intensa, e o biógrafo não pode deixá-la de lado, por muito delicada que a questão ainda pode ser.

Ao longo do livro refere-se a ele de várias formas, sempre com grande ternura. e com recurso ao possessivo, como quando lhe chama "meu vadio". Sentiu-se como um Platão que apresenta Sócrates às gerações que já não o conheceram?

A comparação é demasiado elevada para a minha pobre pessoa. Que o Agostinho possa ser um Sócrates, não tenho dúvidas nenhumas. É um inqueietador por excelência e, ao mesmo tempo, um retórico com um poder socrático. Mas não parece que eu possa ser um Platão. Seria, quanto muito, um historiador da Atenas do século V a falar do mestre.

Ele licencia-se em Filologia Clássica com média de 20 valores e aos 23 tem o doutoramento feito. O que faltou para que as universidades se interessassem por ele?

A situação política em Portugal era muito complicada. O golpe militar de 1926 tinha levado ao encerramento da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde o Agostinho se tinha licenciado e estava a doutorar-se. Era uma escola maldita devido ao fundador, Leonardo Coimbra, que tinha sido ministro da Educação e fazia parte da esquerda republicana da época. Isso condenou-o ao ostracismo. Veio a ter uma carreira académica muitíssimo importante, ao longo de 20 anos, mas no Brasil, onde foi aproveitada a sua capacidade criativa.

Se a Faculdade de Letras do Porto não tivesse sido encerrada, ele ter-se-ia contentado com uma carreira académica segura e em fazer filhos à primeira mulher?

Nunca. Até poderia ter seguido esse caminho, mas seria um ser muito mais triste. Não digo que não seria escritor de génio, mas o Agostinho que teríamos conhecido na parte final da vida teria sido um homem muito mais reprimido. Provavelmente teria sido um homem engravatado até ao final da vida, coisa de que ele se libertou a determinada altura.

Acaba por transformar os obstáculos em oportunidades... 

É um dos grandes segredos e grandes chaves da vida dele. Sabe sempre aproveitar o que parece adversidade para dar um salto qualitativo em termos biográficos.

Ele, que foi considerado mestre por tantos, é alguém de quem se possa dizer que foi um português sem mestre?

No sentido em que ultrapassou os seus próprios mestres, que se solta de qualquer amarra, superior e hierarquia. Mas aprendeu bastante com várias pessoas - algumas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e até no Liceu Rodrigues de Freitas -, às quais ficou grato até ao fim da vida. Já nos anos 80 continuava a recordar, com gratidão enorme, uma figura da Faculdade de Letras do Porto chamada Teixeira Rego. Mas é uma gratidão como se dedica aos pais.

Quando ele se recusa a assinar a declaração de que não pertencia ou pertenceria a associações secretas, ficando assim excluído do ensino oficial, o que pesou mais: o imperativo ético ou a coragem física?

Julgo que há uma síntese entre as duas forças. O Agostinho tem um imperativo ético e moral muito forte, mas teve de haver mais do que isso. Muita gente achou aquilo um absurdo terrível, e ficou com problemas de consciência, mas depois era preciso coragem, até física, para assumir as consequências de não assinar. E só houve duas pessoas com essa coragem. Agostinho foi um deles e o outro é um herói anónimo.

Há episódio mais rocambolesco na vida dele do que a mulher legítima e a nova mulher serem forçadas a viver na mesma casa, quando a primeira aparece de bagagens na mão no Uruguai?

Esse episódio deve ter sido de uma violência terrível para todos, embora acredite que o Agostinho tinha sangue frio e humor para atenuar os choques. Os episódios mais interessantes da vida do Agostinho são em Brasília, com a ditadura militar brasileira, quando tem de enfrentar sucessivas invasões da universidade. Chega a confrontar-se corpo a corpo com os militares. Era professor titular, equivalente a catedrático da nossa universidade, e mantinha uma comunidade de alunos baianos aos quais pagava os estudos e que viviam com ele num barracão de madeira. Tudo isto deve ter dado origem a episódios muito curiosos.

Tendo em conta a ditadura militar no Brasil, quando ele aproveita a abertura de Marcelo Caetano para voltar a Portugal será que ele vê o Estado Novo como um mal menor?

No início nem vem para Portugal. Vem a Portugal, ver o que se passa, um ano depois de Salazar ser afastado do poder. Ele conhecia muito bem Marcelo Caetano, com quem até se correspondia, mas nessa altura vem com passaporte brasileiro. Como turista, é obrigado, ao fim de três meses, a sair de Portugal, o que acontecerá até ao 25 de Abril. Atravessava a fronteira e voltava a entrar, após uns dias em Badajoz ou na Galiza.

No final da vida tornou-se muito conhecido graças ao programa televisivo ‘Conversas Vadias’. Se estivesse vivo hoje estaria a conseguir milhares de seguidores no Facebook ou no Twitter?

Certamente. Até porque o Agostinho não era um ser que se reservasse. Gostava muito de conversar e de conviver com amigos, e tinha sempre a porta de casa aberta. Naquela época era assim. Hoje, quem quer conviver anda pelo Facebook e, portanto, ele seria adepto dessas tecnologias. Teria certamente milhares de conversas.

Se pudesse fazer-lhe uma pergunta, qual seria?

A minha curiosidade iria incidir muito sobre a vida privada.

Não lhe perguntaria, portanto, porque é que, querendo ser marinheiro, nunca aprendeu a nadar?

Isso compreendo. Ele próprio deixou dicas, dizendo que o marinheiro não abandona o barco. Não interessa saber nadar ou não. Tem de morrer afogado quando o navio vai ao fundo.  

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