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"António Tunda morreu ao meu lado"

Alinhei sempre com um grupo de soldados que odiavam a guerra como eu.
2 de Novembro de 2014 às 15:00
Carlos Barros esteve na Guiné entre 1972 e 1974
Carlos Barros esteve na Guiné entre 1972 e 1974 FOTO: D.R.

Estudava no Externato Infante Sagres, em Esposende, cheio de sonhos. A violência e a injustiça não entravam no meu ‘dicionário da vida’. Fui alistado a 3 de agosto de 1971. Percorri o RI 5 das Caldas da Rainha (1º Curso dos Sargentos Milicianos), o CISMI de Tavira (2º ciclo do Curso dos Sargentos Milicianos – especialidade de Armas Pesadas), o RI 13 de Vila Real e o RAL 5 de Penafiel. Em março de 1972, tinha a minha sentença destinada: mobilizado para a Guiné das bolanhas, da humidade e dos mosquitos...

A minha Companhia – 2ª CART-BART 6520 – embarcou em Lisboa no dia 23 de junho. Fizemos instrução em Bolama, antiga capital da Guiné, e, passados 15 dias na carreira de tiro, morreram dois nossos companheiros,  um deles o meu grande amigo alferes miliciano Carlos Manuel Almeida, num acidente com um dilagrama (granada de mão). Era o primeiro ‘banho’ de tristeza.

A minha companhia foi para Tite por um mês e depois para  Nova Sintra, a zona mais ‘quente’ da região, que incluía os destacamentos de Jabadá e Fulacunda. O meu pelotão – o 3º grupo – foi prendado com uma estadia em Gampará, área conquistada ao PAIGC pelas tropas especiais. Permanecemos meses debaixo de fogo, tendo a companhia sofrido algumas baixas, vítimas de bombardeamentos de canhões e de minas. Dormíamos ao ar livre  porque receávamos os ataques, geralmente ao pôr do sol, do PAIGC e também os milhares de ratazanas.

No inferno de Nova Sintra, fomos alvo de 16 ataques com canhoadas e várias emboscadas no mato, tendo o PAIGC sofrido várias baixas, entre mortos e feridos. Como especialista de armas pesadas, alinhei sempre no mato com o pessoal do terceiro grupo de combate. Alguns pelotões reforçados foram fazer um ataque à terrível Mata de Brandão, onde o PAIGC tinha um aquartelamento fortemente protegido, cercado por uma mata cerrada. Pelas cinco da manhã de um dia chuvoso, lá partimos nós para uma incursão nos domínios do inimigo.

Sofremos uma contraemboscada, e foi o Vietname ao vivo, com um fogo intenso e explosões de ambas as partes. Uma granada atingiu-me numa perna, ferimento ligeiro, e o soldado Alves de Guimarães foi atingido por estilhaços da mesma granada, tendo de lhe ser amputada a perna no hospital. Tivemos 16 feridos e um morto. António Tunda, nosso soldado africano, morreu ao meu lado, já no helicóptero.

Estive internado em Bissau um mês, talvez o melhor tempo da Guiné. De regresso a Nova Sintra, no dia 25 de abril, o capitão miliciano Machado, comandante da companhia, disse-nos na parada: "Amigos, uma boa novidade, em Portugal houve uma revolução e o fascismo caiu..."

Olhei para os meus colegas  furriéis, José Gonçalves e Apolinário, e perguntei-lhes:

- "O que é o fascismo?" Incrédulos, responderam: - "Também não sabemos!"

O capitão Machado, numa breve explicação, esclareceu-nos o significado do fascismo, dizendo-nos que a guerra iria acabar...

Desembarcámos em Lisboa em 10 de agosto de 1974. A única coisa que trouxe da Guiné foi a amizade, e não é por acaso que organizo, todos os anos, os Encontros Anuais de Convívio. Já vamos para o 40º Encontro.

*depoimento de Carlos Barros recolhido por José Carlos Marques

Guiné guerra colonial Ultramar 25 de Abril
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