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Ao cuidado da senhora Merkel

A chanceler alemã vem a Portugal a 12 de Novembro. Eis o que gostavam de lhe dizer várias figuras públicas portuguesas.
4 de Novembro de 2012 às 15:01
Depois da Grécia, Merkel visita Portugal no auge da crise
Depois da Grécia, Merkel visita Portugal no auge da crise FOTO: Fabrizio Bensch, Reuters

Apreciadora de cerveja e futebol, a cidadã alemã Angela Dorothea Merkel, de 58 anos, teria boas razões para se dar bem em Portugal, não fosse ela vista como a autora moral do garrote financeiro que asfixia as contas do Estado e inferniza a vida dos portugueses. A visita da chanceler alemã a Portugal, prevista para dia 12 de Novembro, uma segunda-feira, promete aquecer os ânimos.

A Domingo perguntou a personalidades de diferentes quadrantes políticos e profissionais o que gostariam de dizer a Merkel, ou antes à Senhora Merkel - como é frequentemente tratada por políticos e comentadores portugueses.

NÃO SE ESQUEÇA!

Bagão Félix, antigo ministro das Finanças do CDS-PP e feroz crítico do Orçamento do Estado para 2013, apresenta assim o País: "Bem-vinda a Portugal, um país com mais sete séculos de existência do que a Alemanha. Peço-lhe nesta visita um exercício de gratidão e de memória: que não se esqueça do que a Europa fez (e pagou) pela Alemanha e pela sua reunificação, agora que alguma Europa precisa do apoio da Alemanha. E que olhe para Portugal sem preconceitos: um País com severos desequilíbrios, mas também, e, sobretudo, uma nação com história e um povo com alma e direito à esperança."

Outro antigo governante, Rui Pereira - ministro da Administração Interna dos governos de Sócrates, dá uma nota de esperança: "Estamos hoje sujeitos a duros sacrifícios, mas nunca deixámos de acreditar na nossa capacidade de superação da crise. De todos os dirigentes europeus esperamos a aposta firme no crescimento solidário, que preserve os valores da Paz, da Democracia e da Justiça Social."

Sem subtilezas, o líder da CGTP, Arménio Carlos, adapta um ditado popular e diz à chanceler: "Não faça ao povo português aquilo que não gostaria que fizessem ao povo alemão." João Proença, da UGT, apela a Merkel "que defenda políticas para a Europa que sejam do crescimento, do emprego e da solidariedade. Uma Europa capaz de ultrapassar a crise e defender a moeda única através de políticas económicas e sociais e não apenas orçamentais e monetaristas."

Angela vem a Portugal com uma comitiva de empresários alemães. Hão-de discutir oportunidades de investimento no país, mas Medeiros Ferreira, socialista e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, gostava que a visita durasse mais tempo. "A senhora Merkel precisa de estar mais tempo em Portugal para perceber o nosso país e os sacrifícios que os portugueses estão a fazer."

Já Vasco Graça Moura, escritor e antigo secretário de Estado, aprecia o gesto: "Aplaudo a visita da senhora Merkel, uma vez que significa o seu interesse em que Portugal continue a fazer parte da União Europeia e em que a União Europeia não seja destruída pela actual crise financeira dos países da periferia."

O histórico socialista Henrique Neto apela à reciprocidade: "Espero que a sra. Merkel trate Portugal e os portugueses da mesma forma que nós tratámos os alemães e os austríacos durante a última guerra."

APELO À SOLIDARIEDADE

O padre Vítor Melícias gostava que a líder germânica lesse uma mensagem simples: "Seja bem vinda a um povo que é solidário, sobretudo para quem está na situação de aflição. Aprenda connosco a solidariedade que a Europa precisa."

No mesmo tom cordial de quem abre a porta de casa, o publicitário Edson Athayde sugere um percurso: "Cara Angela, por favor, entre e fique à vontade, o país é pequeno mas é limpinho. Como deve ir ali para os lados de Belém, aproveite para comer uns pastéis, a receita é um segredo quase tão grande quanto o que explica a nossa capacidade de apertar os cintos. (...) Não faça cerimónias, sinta a casa como se fosse sua. Em boa verdade, mais cedo ou mais tarde, ela será."

O juiz desembargador Eurico Reis apela às origens de Merkel: "Frau Merkel, o facto de a sua formação ser na área da Química não deveria levá-la a desconsiderar tão agressivamente as Humanidades. Não sei o que o seu pai, um pastor protestante, lhe diria, mas, por mim, acho isso muito pouco cristão. (...) Nós (eu também nasci nos anos 1950) tivemos o benefício do Estado Social Europeu e seria profundamente imoral que os nossos filhos, em resultado dos nossos actos, dele ficassem privados."


Num tom menos conciliador, a sexóloga Vânia Beliz usa a sua área de especialidade para enviar à governante uma sugestiva metáfora: "Talvez lhe segredasse ao ouvido que seria muito mais proveitoso se fizesse mais na cama aquilo que está a fazer à Europa e que estamos cansados da sua fantasia de dominação, que apenas parece gratificar o seu ego típico de uma amante egoísta e egocêntrica de quem já se tem pouco respeito."

A actriz São José Correia fica sem palavras perante a visita: "Não tenho rigorosamente nada para lhe dizer é a frase que lhe quero dirigir, de acordo com o desprezo que tenho pelo mundo financeiro. Nós sabemos que a Alemanha tem este problema, de tempos em tempos dá-lhe para controlar a Europa e desta vez não é com bombas nem com guerras, desta vez é através do mundo financeiro."

QUE SE PASSA?

O humorista Pedro Tochas faria um cartaz muito simples, com uma única frase: "Qué Pasa Merkel?!" E explica: "O cartaz poderia fazê-la pensar que nós somos espanhóis, talvez nos deixasse em paz."

Outro profissional da escrita humorística, João Quadros, dirige à chanceler uma dose de humor negro: "Já me cheira a gás", escreveria ele a Merkel. "E só tenho pena de não saber traduzir a frase para alemão", acrescenta.

O cartunista Augusto Cid faz uma sugestão: "Vai um corridinho daqui para fora"; e DJ Poppy dá o passo seguinte: "Que pegue na vassoura e siga para bem longe."

O médico Mário Jorge Santos, especialista em saúde pública, também receita uma visita rápida: "Volte para casa e vá matar saudades, que é coisa que não vai deixar por cá". Marta Mateus, a voz dos Oquestrada, prefere sugerir uma viagem. "Tenho um conselho: Vá estagiar com a Dilma ao Brasil para vir mais esperta, com ar mais saudável, mais trigueirinha e fresca."

Habituado aos palcos, José Cid não gosta do protagonismo europeu no concerto das dívidas que desafinam o País. Por isso, diria a Merkel: "Preferia mil vezes entregar Portugal nas mãos de Timor, Angola, Moçambique ou Brasil do que dá-lo à Alemanha." Sónia Tavares, vocalista dos The Gift, tem uma sugestão gastronómica: "Servia-lhe um prato que agora é muito comum na minha terra, ali para os lados de Leiria e Alcobaça, e que se chama ‘crise': não é mais do que um bitoque mas sem o bife."

Xana, a voz dos Rádio Macau, prefere o poder da pergunta: "O que é para si existir?"; "Acha que existir é o mesmo que subsistir?" e, por último, "Não acha que a própria subsistência está em risco?"

Outros três músicos lembram as guerras do passado. Adolfo Luxúria Canibal avisa: "Os nazis perderam a guerra em 1945, não a queira ressuscitar." Zé Pedro, guitarrista dos Xutos, também evoca memórias: "Perguntava-lhe se isto é alguma espécie de vingança por causa das duas guerras mundiais. E lembrava-a que Portugal não esteve na II Guerra." Jorge Palma é mais suave: "Angela, nunca se esqueça do passado e tenha cuidado com a nossa humanidade."

PORTUGAL ASFIXIADO

Paulo Rodrigues, dirigente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, sabe que a instabilidade social pode descambar em problemas na rua. E por isso avisa a chanceler: "A política económica internacional da Alemanha está a asfixiar Portugal, ao abrigo de uma suposta ajuda financeira. A austeridade cega levará à instabilidade social, à qual os polícias não são alheios. Esta postura fragilizará a segurança interna com reflexos extremamente negativos na economia do País."

Carlos Lopes, o medalhado atleta olímpico, põe o dedo na ferida, ou antes, em várias feridas: "Ela que não pensasse só na sua barriga e que não destruísse países que têm centenas de anos, que vêem em Angela a miséria. Se pudesse, punha-a a mexer rapidamente para o país dela e que levasse uns e outros que ganham muito e andam a roubar ao povo."


O fadista Gonçalo da Câmara Pereira só tem para Merkel uma pergunta mordaz: "Veio visitar a colónia?". Rui Reininho incomoda-se: "‘Schweinerei' [Porcaria]! Não é bem-vinda a minha casa." E justifica: "O momento não está para delicadezas." O dirigente da FENPROF, Mário Nogueira, também não está com falinhas mansas. Diz ele à chanceler: "Frau Merkel, roubar é crime! Nuremberga pode julgar-te!" O psiquiatra Carlos Amaral Dias escolhe um slogan: "Portugal Não Morre."

O FUTURO DA EUROPA

O politólogo António Costa Pinto convida Merkel a uma reflexão: "Numa fase em que a Alemanha é a superpotência da União Europeia, que tenha, nesse caso, uma estratégia inteligente de federalização da União Europeia, que é a grande solução para a crise do Euro." O publicitário Américo Guerreiro apela ao equilíbrio: "Que a sra. Merkel pense e construa uma Europa social, económica e financeiramente única enquanto é tempo. Uma Europa que seja equilibrada e justa entre os seus membros."

Pelo contrário, o fadista João Braga não acredita no futuro dos 27 e diz à governante: "Cumpra o seu dever: acabar com a UE." Pensamento que contraria o do também fadista António Zambujo: "Não a reconheço como dona da Europa."

A apresentadora de televisão Vanessa Oliveira faz um apelo quase bíblico à patroa da UE: "Que tenha piedade de nós, sobretudo dos que ganham pouco." A sexóloga Marta Crawford quer explicar a Merkel o que está em risco: "O rigor e a união não se conquistam por decreto nem aniquilando os que parecem estar fora do carril. É preciso saber ouvir, porque só assim se superam os momentos de crise e se evolui para um patamar onde todos podem viver com dignidade e em paz... caso contrário nem o sexo nos salva!"

A PRIMEIRA MULHER A CHEFIAR O GOVERNO ALEMÃO

Nascida em Hamburgo em 1954, Angela Merkel é filha de um pastor luterano, que se mudou para o lado oriental. Angela foi educada na República Democrática Alemã, sob o regime comunista. Doutorada em Física, trabalhou como química antes de se meter na política. Aderiu à CDU - o partido conservador cristão, logo a seguir à queda do muro de Berlim, em 1990. Protegida do chanceler Helmult Kohl, chegou à liderança do partido após a sua retirada. É chanceler da Alemanha desde 2005.

ANGELA MERKEL E AS IRONIAS DA HISTÓRIA (Por João Pereira Coutinho)

Angela Merkel é a mulher mais poderosa da Europa. Sem surpresa, é a mais odiada também. Segundo opinião generalizada, a sra. Merkel não passa de uma fanática da austeridade, educada por um pastor luterano na antiga República Democrática Alemã. Estes traumas teriam formado uma personalidade rígida, disposta a punir os estados deficitários do sul e a exigir destes "sangue, suor e lágrimas" na correcção das contas públicas.

É uma forma de ver as coisas. Existe outra: Merkel aprendeu com a história. Não com a história remota da Alemanha, onde a hiperinflação de Weimar e a consequente ascensão do nazismo continuam vivas e bem vivas. Falo da história recente: sob chantagem da elite política francesa, sempre disposta a explorar o sentimento de culpa germânico, a Alemanha aceitou abrir mão do seu amado marco. Conta Philipp Bagus, na obra A Tragédia do Euro (Almedina), que a esmagadora maioria dos alemães estava contra. Mas as promessas de que a nova moeda teria a mesma força (e a mesma estabilidade) da antiga chegaram para convencer Berlim.


O resto do filme é conhecido: países sem disciplina orçamental aproveitaram as incomparáveis condições de financiamento do euro para se endividarem loucamente. Quando a factura chegou, depois da crise financeira de 2008, não havia dinheiro para a pagar. Que fazer?

A doutrina, uma vez mais, divide-se. Para os mesmos que acusam Merkel de puritanismo, rigidez e outros desvios patológicos, a solução passaria por enviar a factura para a Alemanha, de preferência sob a forma de "eurobonds", um eufemismo simpático que significa "a conta divide-se por todos e não se fala mais disso". A juntar à "solidariedade" dos alemães, seria necessário também que as rotativas do Banco Central Europeu começassem a imprimir moeda de manhã à noite.

Acontece que, para nossa desgraça, a Alemanha ainda é habitada por alemães. E Merkel, em 2013, terá que responder nas urnas perante eles. De nada vale relembrar ao alemão médio que o euro foi e continua a ser vantajoso para a economia doméstica. Aceitar a mutualização das dívidas seria uma sentença de morte política para Merkel. Como seria permitir que o BCE se convertesse em fábrica de dinheiro para os países em aperto.

A estratégia de Merkel tem sido a de exigir reformas profundas nos países devedores (e uma austeridade duríssima naqueles que se encontram sob vigilância e financiamento da ‘troika') ao mesmo tempo que se promete mais "solidariedade" no futuro. Mas não uma "solidariedade" a qualquer preço: só se os estados abrirem mão da sua soberania orçamental, permitindo que Bruxelas (leia-se: Berlim) determine os orçamentos nacionais.

Esta "estratégia", se merece o nome, pode garantir a sobrevivência política de Merkel na Alemanha. É duvidoso que garanta a sobrevivência da União Europeia: países em recessão (como Portugal), com desemprego imparável (como Espanha) e com um recrudescimento dos extremismos políticos (como a Grécia) são o caldo perfeito para a desagregação perfeita. Sobretudo quando paira sobre esses países a alienação do que resta das suas soberanias.

E aqui reside a ironia de Merkel: sim, ela pode ter aprendido algumas lições de história. Fatalmente, escapou-lhe a lição mais importante: nenhum povo suporta uma vida de agonia para, no fim do calvário, entregar o seu destino a uma força política que não controla. Ontem como hoje, esta é a receita para o desastre.


RECADOS

"Não sei o que o seu pai lhe diria, mas, por mim, acho isto muito pouco cristão" (Eurico Reis, Juiz)

"Senhora Merkel, aprenda com este povo solidário a solidariedade de que a Europa precisa" (Vítor Melícias, Padre)

"Frau Merkel: Roubar é crime! Nuremberga pode julgar-te!" (Mário Nogueira, FENPROF)  

"Que pegue na vassoura e siga para bem longe!" (DJ Poppy)

"Não faça ao povo português aquilo que não gostaria que fizessem ao povo alemão" (Arménio Carlos, Líder da CGTP)

"Não se esqueça do que a Europa fez (e pagou) pela Alemanha e pela sua reunificação" (Bagão Félix, Ex-ministro das Finanças)

"A senhora Merkel precisa de estar mais tempo em Portugal para perceber o nosso país" (Medeiros Ferreira, Ex-ministro)

"Sinta a casa como se fosse sua. Em boa verdade, mais cedo ou mais tarde, ela será" (Edson Athayde, Publicitário)

"Seria mais proveitoso se fizesse mais na cama aquilo que está a fazer à Europa" (Vânia Beliz, Sexóloga)

"[A Alemanha] de tempos em tempos dá-lhe para controlar a Europa " (São José Correia, Actriz)

"Angela, nunca se esqueça do passado e tenha cuidado com a nossa humanidade" (Jorge Palma, Músico)

"A austeridade cega levará à instabilidade social, à qual os polícias não são alheios" (Paulo Rodrigues, ASPP-PSP)

"‘Schweinerei' [Porcaria]! Não é bem-vinda a minha casa (...) O momento não está para delicadezas" (Rui Reininho, Músico)

"Que tenha piedade de nós, sobretudo dos que ganham pouco" (Vanessa Oliveira, Apresentadora de TV)

"Que a sra. Merkel pense e construa (...) uma Europa que seja equilibrada e justa entre os seus membros" (Américo Guerreiro, Publicitário)

"É preciso saber ouvir (...) caso contrário, nem o sexo nos salva!" (Marta Crawford, Sexóloga)

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