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Ao deserto e ao gelo segue-se o país mais temido do Mundo

Álvaro Leite já fez maratonas e ultramaratonas por todo o planeta. Em abril vai a Pyongyang, na Coreia do Norte
José Carlos Marques 26 de Março de 2017 às 15:00
A juventude dá-nos força e velocidade mas a resistência física e mental conquista-se com a idade, diz o atleta de 45 anos, que faz há uma década provas de grande esforço físico
A juventude dá-nos força e velocidade mas a resistência física e mental conquista-se com a idade, diz o atleta de 45 anos, que faz há uma década provas de grande esforço físico FOTO: Sérgio Lemos

No dia em que Álvaro Leite se encontrou com a ‘Domingo’, estava a correr junto ao Tejo. Dois dias depois, tinha um treino marcado do outro lado do Atlântico. "Combinei com uns amigos correr no Central Park de Nova Iorque. Vão ser 25 quilómetros, o habitual", conta. O dom da aparente ubiquidade deve-se ao emprego. É comissário de bordo da TAP, o que o levou a conhecer praticamente todos os cantos do Mundo. Mas a sua próxima viagem tem tudo para ser diferente. A 9 de abril, Álvaro Leite, de 45 anos, junta-se ao escasso lote de atletas estrangeiros que vão correr a maratona de Pyongyang, capital da Coreia do Norte, o país que tem, talvez, o regime mais opressivo da atualidade.

Na terra de Kim Jong-un, o presidente que recebeu o poder pela morte do pai, Kim Jong-il, por sua vez filho do ‘Querido Líder’ e fundador do regime, Kim Il-Sung, não espera facilidades. "Vou integrado num grupo de atletas internacionais que partem da China dois dias antes. Marquei a viagem com uma agência chinesa e somos cerca de 100 atletas. Vamos viajar de comboio a partir de Dandong, uma cidade na fronteira com a Coreia do Norte", conta Álvaro Leite.

Uma das agências que organizam a ‘excursão’ de atletas à cidade da qual a maior parte das pessoas preferiria manter-se bem longe anuncia um preço de 1350 euros pela viagem. Com todos os extras que é preciso pagar - desde o visto à inscrição na própria corrida -, a participação na maratona de Pyongyang fica na casa dos 1600 a 1700 euros. Mas a cidade que o espera não é propriamente um destino turístico.

As restrições são mais do que muitas e Álvaro imagina que haverá dificuldades com as quais não está a contar. "Sabemos que não podemos sair do hotel sem um ou dois guias oficiais, que nos acompanham a todo o momento. Não sei ainda como é que vamos treinar. Temos de fazer corrida e imagino que não vão pôr um guia a correr ao nosso lado."

Álvaro Leite diz não ter qualquer simpatia por um regime político que mantém os cidadãos num quase total isolamento do resto do Mundo. Mas acredita que a presença dele e de outros atletas internacionais pode fazer a diferença. "Eu acho que a maneira que nós temos de fazer aquelas pessoas perceber que há outras formas de ver o Mundo é ir lá visitá-las. Só o facto de lá estarmos mostra que há outras formas de viver e de pensar. Sei que a Coreia do Norte é uma ditadura terrível. Mas acho que ir lá pode fazer a diferença e pode ser muito interessante para nós e para eles."

No dia desta reportagem, soube-se que o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, de visita à Coreia do Sul, afirmou que "uma ação militar contra a Coreia do Norte não está posta de parte". "Já houve edições da prova que foram fechadas a estrangeiros por razões políticas. Espero que não seja o caso", diz Álvaro Leite.

ESTÁDIO PARA 150 MIL ALMAS
O desafio de correr em Pyongyang traz várias particularidades. Por exemplo, o facto de a corrida começar no estádio Rungrado ou 1º de Maio, considerado o maior estádio do Mundo. As autoridades dizem que tem capacidade para 150 mil pessoas e a organização da corrida promete que lá vão estar pelo menos 80 mil no dia da corrida. "Imagino a loucura que deve ser partir de um estádio com uma multidão assim", conta Álvaro.

O atleta não sabe ainda se pode levar o telemóvel. Para grande ralação da sua mãe, que, apesar de habituada aos desvarios do filho, preocupa--se por o saber em tão inóspitas paragens. "Até há pouco tempo, os estrangeiros tinham de os deixar no aeroporto quando entravam no país. Agora dizem-me que já o poderemos usar com um cartão ‘sim’ comprado lá, mas não é certo." Certo é que na Coreia não se pode fotografar o que se quer. Há sempre um guia a dizer o que é e o (muito) que não é permitido. E há regras tão bizarras como a proibição de usar calças de ganga - tidas como um pernicioso símbolo do Ocidente - ou o facto de a jornada de trabalho ter seis dias, a que se soma um sétimo de "voluntariado". Não há automóveis particulares a circular nas estradas. Naquelas paragens, o Estado é tudo, porque nada existe fora do Estado.

Álvaro vai ali para competir - diz que tem o objetivo de melhorar o seu tempo na distância de 42 quilómetros e lutar pelos lugares cimeiros entre os milhares de atletas amadores que vão estar presentes. Mas o que realmente o motiva é encontrar algo de novo. "Antes de ir para a Coreia do Norte vou estar uns dias na Coreia do Sul. Com estes dois destinos terei visitado quase 100 países. É um número simpático", conta o comissário de bordo que nasceu no Porto , mas que vive entre Gondomar, Lisboa e os variados destinos para onde a TAP o leva semanalmente.

PROVAS DE FOGO E GELO
A corrida de Pyongyang será a de mais difícil acesso para um atleta amador, mas não é o destino mais exótico onde Álvaro Leite já competiu. Já correu no gelo do Ártico, no deserto de Atacama, nas selvas peruanas de Machu Pichu ou no Anapurna, uma das montanhas mais altas dos Himalaias, no Nepal.

Em 2013, foi o primeiro português a completar a maratona da muralha da China, corrida em cima de um dos mais famosos monumentos do Mundo. A descrição que faz da prova desmascara a aura romântica que se possa imaginar. "São mais de 20 mil degraus e estes não são regulares. Para passar alguns temos de usar as mãos. Ou seja, temos de estar sempre a olhar para o chão e passamos horas a ver pedras, todas iguais. Foi muito desgastante a nível psicológico", conta o atleta, que ficou em 4º lugar na corrida, em que participou com a colega da TAP, Filipa Elvas, a única mulher que acabou a prova.

Começou a correr apenas há dez anos, por sugestão de um piloto da TAP. No início, fazia provas ‘Iron Man’ - desafios quase sobre-humanos em que se nada 3,5 km, se pedala 180 km de bicicleta para depois se correr uma maratona de 42 km. Coisa para durar pelo menos 11h15 horas de esforço, o seu melhor tempo nesta variante radical do triatlo. Tem feito também várias ultramaratonas - provas de longa distância, muitas vezes em terrenos acidentados. "É curioso de ver como, nestas provas, encontro quase sempre atletas acima dos 30 anos. A juventude dá-nos força e velocidade mas a resistência física e, sobretudo, mental conquista-se com a idade."

Álvaro Leite segue um cuidadoso plano de treinos, que combina com o treinador Paulo Leite. Seja qual for o destino em que aterre, sabe que tem uma corrida para fazer, ou várias piscinas para nadar.

O DESPORTO MUDA VIDAS
Nos últimos meses, Álvaro Leite abraçou um desafio inesperado. Convidado por um padre de Gondomar, aceitou tornar-se professor de desporto de um grupo de pessoas com deficiência mental. Descobriu uma realidade que ainda o espanta. "Fiquei muito surpreendido com a capacidade de superação que eles têm. O desporto faz mesmo a diferença na vida deles. Encontrei atletas e pessoas fantásticas."

Percorrendo mentalmente o mapa mundi que vive na sua cabeça, Álvaro Leite aponta o destino que ainda lhe falta. "Quero correr na Antártida. É o único continente onde nunca pus os pés."

A DITADURA DO CLÃ KIM

Comunismo dinástico

O regime coreano foi fundado em 1948 por Kim Il-Sung, que governou durante 46 anos. O regime marxista caracteriza-se pela restrição das liberdades e o culto do líder. Kim Jong-il sucedeu ao pai em 1997 e o poder passou para o filho em 2011.

Mísseis da discórdia

Desde a guerra com a Coreia do Sul (1950-1953) que o país vive de costas para o Ocidente, tendência que se tem agravado. Os sucessivos ensaios de mísseis de longo alcance ameaçam o Ocidente e até a China, o último aliado, esfriou relações.

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