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Correio da Manhã

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"Apanhámos um camarada aos bocadinhos"

As minas foram o nosso pior inimigo no Ultramar. Fizeram muitos feridos na nossa companhia e quatro camaradas morreram.
Marta Martins Silva 28 de Fevereiro de 2016 às 15:00
Com os turras que apanhámos nas palhotas
Com os turras que apanhámos nas palhotas FOTO: D.R.

Assentei praça em 1967 em Viseu, depois tirei a recruta, fui para Tomar e fui mobilizado para Moçambique. Fui apanhar o ‘Vera Cruz’ no dia 24 de abril de 1968, nunca mais me esqueço, até morrer vou-me lembrar.

Fomos até Luanda, depois até à Beira, onde desembarcámos à noite e apanhámos o comboio para Muatize, uma província perto de Tete, era a última paragem dos comboios. Dali tínhamos as viaturas à espera para Furancungo, depois fomos para Vila Gamito, uns 300 km de viagem. Quando lá chegámos disseram os velhos, os que fomos render: ‘isto aqui é bom, não é muito mau, mas tenham cuidado que daqui para a frente não se sabe’. De facto durante três meses não houve nada. Passado esse tempo fomos para uma cantina que chamavam-lhe o Freitas, que era perto da fronteira do Malawi, rebentou logo uma mina num unimogue, eu nem sabia o que era uma mina, tanto que virei-me assim para o alferes: ‘Olhe, rebentou o radiador do carro’... Diz o alferes: mandem-se todos para o chão que isto foi uma mina e atrás da mina pode haver uma emboscada. Tínhamos quatro berliets e quatro unimogues e desapareceu tudo, com as minas. Na nossa companhia tivemos quatro mortos.


QUATRO BAIXAS

Uma das baixas era um rapaz cabo-verdiano, rebentou uma mina e ele morreu; outro era um rapaz do norte, motorista de unimogue rebentou-lhe uma mina por baixo e a roda do carro foi parar a alguns 200 metros ou mais, ele dizia assim, coitadinho: ‘eu nunca mais vejo o meu pai, eu nunca mais vejo a minha mãe...’ O transmissões mandou chamar o helicóptero, que levou esse rapaz e morreu mesmo a caminho de Tete. Depois íamos todos contentes, vínhamos numa coluna carregados de tabaco, cerveja, farinha, já se via o acampamento e disse assim o alferes: Pessoal, saltem para cima das viaturas que já não há nada, já se vê o quartel.


Quando chegámos a 50 metros do quartel lá vem uma mina, que rebentou por baixo de um furriel, foi cuspido e a berliet caiu mesmo em cima dele, ficou queimado com óleo. Levámos o furriel para um acampamento na fronteira com o Malawi e fizemos um caixão para ele, metemo-lo dentro de umas tábuas, abrimos um buraco e metemo-lo lá dentro com a farda que ele tinha de sair. Esteve lá três meses no buraco, ao fim desse tempo veio uma coluna de Tete com uma urna em chumbo e quem tinha coragem de levantar o corpo há três meses no buraco? Diz-me assim o alferes: ‘Oh Peniche, tu tens a mania que és forte e não és tão forte assim’. E eu e outro camarada Ribau lá desenterrámos o rapaz.

A nossa única emboscada íamos a ir para uma cantina no mato, para mandar com os turras lá para fora que estavam a atacar aquilo e a matar pessoas. À ida para lá um colega que ia na picada também morreu por causa de uma mina, foi todo pelos ares e andámos a apanhá-lo aos bocados. Depois estivemos destacados em Mutarara e de lá apanhámos o barco. Não contávamos com uma tempestade valente que partiu a proa do barco e nos adiou o regresso. Chegámos a 12 de junho à Rocha Conde de Óbidos. Muitos nem sabiam para o que iam. Havia lá na guerra rapazes, colegas meus, a chorar com medo e eu dizia-lhes sempre: ‘Não chorem, a gente tanto morre cá como morre lá’. Felizmente regressámos quase todos.

JOSÉ JOÃO RAMOS

 

Comissão  

Moçambique (1968-1970)


Força  

Batalhão 2842


Atualidade

Aos 70 anos, está reformado e vive em Lisboa. Casado, pai de quatro filhas e quatro netos.

A Minha Guerra Guerra Colonial Guerra do Ultramar Moçambique José João Ramos batalhão 2842
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