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Correio da Manhã

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APOCALIPSE INTERIOR

Apocalypse Now, por muitos considerado a obra-prima de Francis Ford Coppola, chega renovado ao grande ecrã. Trata-se de um dos mais impressionantes filmes de guerra até hoje realizados. Para (re)ver, com um aperto no estômago
5 de Julho de 2002 às 19:35
APOCALIPSE INTERIOR
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Jim Morrisson canta o célebre The End e um turbilhão de terra provocado pelo movimento das hélices dos helicópteros norte-americanos invade o ecrã. Neste inesquecível início vive-se também o fim, não do filme, que esse ainda tem mais de três horas pela frente, mas da maneira como a guerra foi vista até 1979, tanto pelos cineastas como pelo público. A partir deste decisivo momento, qualquer experiência cinematográfica, sobre o Vietname ou qualquer outro conflito, deixou de ser encarada segundo o mesmo ponto de vista, tal a forma como Francis Ford Coppola decidiu construir a história.

O realizador norte-americano foi o principal responsável pela mudança, o homem com o condão de observar a guerra de maneira tão especial, e de lutar para levar avante uma ideia que muitos apontavam como um autêntico desastre económico. Enganaram-se os críticos que pensavam que o filme não iria ver a luz do dia ou não seria um sucesso, talvez mesmo o último grande êxito de Coppola enquanto realizador, ele que vivia ainda à sobra do sucesso dos dois primeiros episódios de O Padrinho.

O filme é baseado no livro Heart of Darkness, de Joseph Conrad, embora Coppola tenha explicado sempre que preferia usar um pequeno bloco de apontamentos do que seguir à risca a história. Apocalypse Now, agora na versão Redux (não no sentido de reduzido mas de revivido, restaurado), mostra o trajecto do Capitão Willard, um oficial com a difícil missão de encontrar e matar o Coronel Kurtz, reunido com um exército pessoal algures na selva do Cambodja.

Ao contrário do que acontece, por exemplo, em O Resgate do Soldado Ryan, a odisseia aqui focado não vai à procura de qualquer forma de patriotismo americano, pois a tarefa dos homens que partem de barco rio acima não consiste em salvar ninguém, mas sim exterminar. Além do mais, o filme não presta homenagem a qualquer acto heróico, sendo acima de tudo um tratado sobre o lado mais obscuro da guerra, quando os soldados enlouquecem e são obrigados a matar até os próprios companheiros de armas. Mais do que um filme de guerra, é um filme sobre a guerra, os seus efeitos na mente humana e a forma como transforma o comportamento das pessoas que nela participam.

A versão agora nas salas tem novas cenas, alguns importantes acrescentos que a tornam mais humana, embora no básico mantenha a capacidade de provocar no espectador um autêntico nó no estômago, um misto de angústia e sofrimento que fazem dela, em certos momentos, tão desagradável quanto genial. Para mais, Apocalypse Now, que foi Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, conta com a fabulosa interpretação de Martin Sheen, pontualmente (muito bem) acompanhado por Marlon Brando, Robert Duvall, Harrison Ford e Dennis Hopper. Como disse uma vez Francis Ford Coppola: “Este filme não é sobre o Vietname. Este filme é o Vietname”.
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