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ARGENTINA: VAI OUTRA ‘CAÇAROLADA’?

É o retrato de uma geração desencantada, num país que vive há dois anos a contemplar o seu próprio precipício. Um ano depois da megamanifestação que impressionou o Mundo, quatro jovens manifestantes reflectem sobre o passado e o futuro. Com um ponto em comum: todos vão perdendo a esperança
7 de Março de 2003 às 15:50
Às vezes um elemento inanimado é capaz de dizer coisas. Que o digam os argentinos, que aprenderam a falar através das suas caçarolas. A 19 de Dezembro de 2001, aquele instrumento, até então um inofensivo utensílio de cozinha, fez a sua ressonante aparição na cena política mundial. Cerca de 30 mil pessoas reuniram-se nas ruas de Buenos Aires, na Argentina, protestando contra as políticas económicas desastrosas e a crise provocada pelo governo de Fernando de La Rua. Nas mãos levavam uma caçarola e uma colher, batendo-as com força. Muitos caminharam mais de 40 quilómetros, vindos de La Matanza. E foram duramente reprimidos pela Polícia.

As caçarolas adquiriram a partir dali uma forte conotação simbólica, inventada por um povo cansado de promessas não cumpridas, farto de constantes atropelos, mas sobretudo, faminto: faminto de pão, no caso das crianças pobres que morrem de inanição, mas também faminto de Justiça, de trabalho e, sobretudo, faminto de futuro.

A história conta que, o então presidente De la Rua, decretou o “estado de sítio” em todo o território do país, para lutar contra a vaga de saques a supermercados que se sucediam ao longo de todo o dia. Utilizando a “cadeia nacional de rádio e televisão”, o mandatário anunciou a medida à população. Foi naquele momento que em algumas varandas da cidade de Buenos Aires (capital do país e cidade que conta com quase metade dos seus habitantes) começou a escutar-se o particular som das caçarolas e frigideiras de todo o tipo.

A população da cidade, indignada desde há um mês pela medida governamental de congelar por tempo indeterminado as economias bancárias de todos os clientes, não se contentou em fazer soar as suas caçarolas só nas varandas e, assim, foi desafiando abertamente a medida do “estado de sítio” declarada pelo governo (que não permitia reuniões nas ruas de mais de três pessoas) e começou a descer as ruas de Buenos Aires.

Centenas de milhar de pessoas, entre as quais se destacavam famílias com crianças e avós, ocuparam as principais artérias da cidade e começaram a dirigir-se para a Praça de Maio (Plaza de Mayo), centro nevrálgico do país e lugar onde se encontra a “casa rosada”, sede do governo. O desencadeamento de uma repressão policial enfurecida durante toda aquela noite e no dia posterior, convertendo literalmente o centro da cidade num campo de batalha e de mortes, foi o ‘KO’ de um governo que vivia a ser substituído pelos peronistas de Eduardo Duhalde. Mas o que ficou nos olhos do mundo, e sobretudo na consciência do povo argentino, foi aquela maravilhosa demonstração de civismo.

Um ano e pouco depois, entrevistámos alguns dos actores daquele particular sucesso. Homens e mulheres comuns, todos jovens mas de extractos sociais e ofícios diferentes. Homens e mulheres que, por um dia, foram protagonistas da História do seu país apenas por empunharem uma caçarola.

DANIELA NÃO DESISTE

Quando o governo anunciou o congelamento bancário, Daniela Abiusso, 35 anos, desenhadora de roupa, esteve uma semana em estado de choque. Como que por artes mágicas, as suas economias passaram de 30.000 a 7.000 euros. O seu trabalho era fazer vestuário para a TV e, a partir da crise, nenhuma empresa queria assinar contrato. De repente, Daniela viu-se sem qualquer fonte de rendimento.

Por isso para ela “o dia da ‘caçarolada’ foi um desafogo espectacular”. “Juntei-me aos meus amigos frente ao televisor e, num segundo, dissemos: ‘Vamos lá!’ Sentimos que estávamos a participar numa façanha que figuraria nas enciclopédias do futuro”.

No entanto, Daniela rapidamente pensou com cepticismo: sentiu que nada mudaria profundamente no seu país, como de resto hoje pensa que sucedeu: “Tantos golpes, tanta couraça… Já nada nos surpreende. O argentino é um ser incrível, tem uma capacidade de adaptação que impressiona...”

Às diferentes políticas económicas que foram empobrecendo o seu país, vê-as genericamente como “um plano de aniquilação”. “Parece que, quanto mais gente morre, menos problemas têm os governantes para governar. Não se move um dedo em favor das crianças do Norte do país, que morrem de fome”.

Ainda assim, Daniela acredita que, na Argentina, há muita gente que pensa como na época dos militares: “O que mais me marcou naqueles dias foi a terrível repressão que sofremos.” Mas ela não tem medo. Pensa que hoje voltaria a sair com as caçarolas e assume abertamente: “Sou de esquerda!” Mas o seu futuro está ligado à sua terra, e Daniela faz uma declaração de princípios quando diz: “Nunca pensei em sair. Nem sequer tenho o passaporte em dia.”

ANDRÉS À ESPERA

“Saí em Dezembro com a caçarola porque a minha situação e a da minha família era muito difícil. Mas creio que sou daqueles que podiam ter saído há dois, três ou dez anos, porque nunca estivemos bem”. Estas são as primeiras palavras de Andrés Gómez, 21 anos, empregado de um restaurante da cadeia ‘Burger King’. O jovem vive numa precária construção sobre um terreno ocupado, ao norte da cidade de Buenos Aires.

Na noite de 19 de Dezembro de 2001, encontrava-se a ensaiar numa praça junto a uma ‘murga’ (agrupamento carnavalesco) do seu bairro. “Quando vimos pessoas a sair com as caçarolas, fomos a minha casa e apanhámos todas as caçarolas que conseguimos. Caminhámos uns dez quilómetros até à casa do governo e chegámos lá bem de madrugada. As pessoas vinham de todos os lados da cidade. Foi impressionante”, recorda Andrés.

Para ele, as coisas não mudaram grande coisa desde então. O jovem ainda espera que o governo da cidade lhe adjudique uma vivenda estatal. Enquanto isso, dorme junto com o seu pai e os seus irmãos numa habitação de dez metros quadrados. “Se voltava a sair e a ‘caçarolar’? Claro, este governo é certamente pior do que o anterior e, assim, vai acabar como o outro”, conclui.

AS MEMÓRIAS DE CLARA

Clara Pak, desenhadora gráfica, tem 34 anos. É uma coreana naturalizada argentina, que chegou ao Río de la Plata com cinco anos juntamente com os seus pais e irmãos. Considera-se a ovelha negra da família e, em vez de se ocupar do negócio de roupa que o pai fundou, decidiu estudar e seguir a universidade. “Ver crianças a revolver o lixo ou morrendo de fome é algo que me revolta”, conta justificando a sua atitude ‘caçarolera’.

O dia 19 de Dezembro de 2001, recorda-o com um misto de alegria e tristeza. “Foi como uma bola de neve. Fomos todos caminhando pelas ruas até à Praça de Maio e, enquanto isso, as pessoas que antes estavam nas varandas e acenavam acabaram por se juntar ao grupo, recorda. “Depois começou a repressão policial e senti uma impotência terrível ao ver como aqueles a quem pagamos para que nos defendam dos agressores se transformavam naqueles que disparavam sobre nós.”

Clara também vê o futuro com cepticismo, quando diz: “Nos últimos tempos entrámos numa terrível letargia, já não nos parecem normais a miséria e a fome”. Em jeito de resignação, finaliza: “Embora possa parecer muito ‘naïf’, queria um governo que pensasse no povo...”

O DESESPERO DE ESTEBAN

A 19 de Dezembro de 2001, quando as caçarolas ensurdeciam a cidade, Esteban Pastorino, 30 anos, fotógrafo artístico de reconhecida trajectória, deixou a máquina em casa e aventurou-se pelas ruas. “Quis sair de forma activa e ser parte do povo, da gente. Tirar fotos colocava-me à margem dos acontecimentos”, disse.

Tem guardado esse dia como uma “espécie de memória emotiva”, cuja imagem é uma só: “Homens e mulheres manifestando-se em solidariedade e todos com as mesmas ideias”. Recorda o insuportável mal-estar anterior ao estoiro, em que se destacavam a “saturação relativamente a políticas corruptas”, as “acções que não dão prioridade ao povo mas sim a eles próprios”, a “soberania dos dirigentes que não ouvem ninguém...”

Hoje, ainda o indigna ver na imprensa diária crianças desnutridas e a morrer de fome no seu país. Mas diz que esta situação “não acontece há apenas um mês, mas há muito tempo”. “Antes não se sabia, mas creio que, lamentavelmente, a Imprensa manobra-a como uma notícia que passará de moda, como tantas outras. Quero ver o que dizem dentro dos próximos seis meses...”

Falando do que acontecerá, Esteban acredita que, “ainda que não se tenha avançado grande coisa” relativamente aos sucessos do passado, “é importante o facto de não se haver retrocedido”. “Daqui em diante os políticos criam um ‘anticorpo’ e governam de maneira mais cruel ou têm que fazer mais pelas pessoas. Mas uma coisa é certa: as coisas nunca mais serão iguais”, garante.
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