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Correio da Manhã

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Argentino asta la muerte

“Buenas noches.” A pronúncia destila a tango. Traz a faca do destino. Pontua finais trágicos. O táxi 113 da Costa do Sol é guiado das cinco da tarde até às tantas da madrugada por José Lopes – “Argentino” – palavra pronunciada com ‘r’ profundo agudo, seguida de um sorriso corrido de orgulho dolorido.
16 de Abril de 2006 às 00:00
Argentino asta la muerte
Argentino asta la muerte
É filho de portugueses, mas, indubitavelmente, “argentino asta la muerte.” Até à morte não vem ao calha. A História dessa Argentina não se coaduna com o doce de leche. Pelo contrário: tem o azedo do morticínio. Está tingida por uma escabrosa maré negra de sangue: a matança de milhares de inocentes. A chacina de milhares de pessoas que ficaram etiquetadas com o miserável epíteto de desaparecidos. Desaparecidos. Os minutos gelam. Criaturas assassinadas por não terem aplaudido a tirania sanguinária do general Videla. “Não morreram, foram mortas.” Desaparecidos. Na marginal da linha do Estoril os minutos são frigoríficos.
José volta atrás. Pára em 1973. Era um operário metalúrgico. Acabara de casar. “Marta era mi mujer.” Felizes como só os apaixonados conseguem. Feliz à larga com um filho a enrijecer o amor. Mas, em 1975, o céu desmoronou-se. A escória do Videla foi-o buscar à fábrica. Depositou-o numa cadeia. Torturou-o. Arrancou-lhe a alma. Nesse mesmo ano, em Dezembro, a casa dos sogros seria barbaramente invadida. Queriam a Marta. Partiram a porta e vida. Levaram-na. Até hoje. “Desapareceu.” José não foi esquartejado. Por três vezes esteve na fila do matadouro. Não o mataram, mas parte dele morreu. O passaporte português e a persistência da mãe junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros evitaram que fosse atirado para as muitas valas comuns que impregnam a Argentina com a fetidez de cadáveres. A 25 de Maio de 1979 veio a expulsão. A terra de Luís Vaz de Camões recebeu-o e ao seu filho de ombros abertos.
Argentino até à morte – não vem ao calha – a mágoa não está na Argentina. “Não estou ressentido com o meu país.” A dor concentra-se na ditadura militar, “nesses criminosos de porcaria.” José guarda o calão para dentro. Esse Videla que tem a santa prisão domiciliária “devia ser fuzilado.” Devia, com balas que trouxessem os mortos que ele matou.
José nunca mais regressou. Se voltasse teria a sepultura à sua espera. Somente há pouco tempo tornou-se possível ir à Argentina sem correr o risco de ter uma espingarda a disparar na sua carótida. Regressará. Irá à Praça de Maio, a esse cerco onde mães, pais, maridos e esposas circundam as dores. Levará o filho. Darão as voltas que o corpo deixar.
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