Arqueologia forense: corpos que falam e desvendam crimes

Peritos europeus na Escola da Polícia Judiciária para exercício internacional e partilha de experiências
Por João C. Rodrigues|13.05.18
Arqueologia forense: corpos que falam e desvendam crimes

Quatro corpos enterrados num quintal de uma pequena propriedade nos arrabaldes de Loures desde janeiro. Sete palmos debaixo de terra e ocultos pela erva que cresceu imparável durante quase cinco meses. Ninguém sabe quem são nem sequer onde estão ou como foram ali parar. Mas esses quatro corpos vão contar uma história, revelar quem é o homicida, qual foi a ferramenta usada para fazer as sepulturas, com que mão o autor pegou na serra usada para desmembrar as vítimas. E é aqui que entram em ação um antropólogo holandês especializado na recuperação de restos humanos da época medieval, um polaco que passou os últimos 30 anos a investigar túmulos e valas comuns da II Guerra Mundial e um arqueólogo dinamarquês que fez carreira no meiodesepulturas Viking, entre outros 13 peritos de toda a Europa que se juntaram a 11 portugueses – seis técnicos do Laboratório de Polícia Científica (LPC) da Polícia Judiciária, quatro antropólogos da Universidade de Coimbra e um médico patologista do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses –para um dos exercícios mais exigentes e completos alguma vez feitos em Portugal na área da arqueologia forense. Uma espécie de CSI à escala real e sem efeitos especiais.

O cenário – tão realista que impressionou os visitantes estrangeiros –foi montado na Escola da Polícia Judiciária (EPJ). Implicou um trabalho de preparação que começou em janeiro e que se manteve em segredo até ao mês passado. Os corpos (leia-se manequins à escala real) foram enterrados de forma errática entre laranjeiras. Alguns foram esquartejados ou decepados, com os membros afastados dos torsos. Em cada uma das covas foram ainda colocados objetos que, caso fossem encontrados, davam pistas para o caso. Sapatos, folhas de jornal, vidros com impressões digitais, pedaços de madeira, sangue. A seguir voltaram a ser cobertos com terra, de uma forma que era impossível determinar a olho nu onde estavam. Mas os responsáveis da EPJ e do LPC queriam aumentar a dificuldade para esta formação e esperaram.

Ninguém entrou naquele espaço até à data do teste real, feito num dia ensolarado, depois de meses em que se bateram recordes de pluviosidade e nos quais a vegetação cresceu até à cintura de um homem adulto. Nem a diretora da EPJ, que por momentos se juntou ao grupo para seguir os trabalhos, conseguiria localizar os alvos. Muito menos aqueles que acabavam de chegar e estavam naquele espaço pela primeira vez. Começava o desafio: localizar os corpos e desvendar o que tinha acontecido a cada um deles.

Tecnologia e história lado a lado

Numa situação real de investigação criminal, os primeiros passos poderiam passar pela fotografia aérea ou a utilização de cães treinados para detetar cadáveres, mas já se sabia que esse método não seria viável neste cenário. Por isso, os peritos avançaram para o terreno de roçadouras na mão. Era preciso limpar o mato para poder usar a primeira ferramenta que podia ajudar: o georradar. No caso em concreto, foram usados três aparelhos deste género, um do LPC, já com dez anos de utilização, e outros dois trazidos pelos participantes europeus, mais modernos. "É uma ferramenta preciosa, que permite detetar as variações no subsolo, se a terra foi remexida. Assim não é preciso escavar toda a área e ajuda logo a determinar a distribuição dos corpos", explica ao CM Mike Groen, um perito do Instituto Forense da Holanda que coordenou a formação prática em Loures e o único autorizado, por questões de segurança, a falar sobre o que está a ser feito.

"O que tentamos é usar a tecnologia disponível em parceria com os conhecimentos adquiridos em escavações arqueológicas. Nesse aspeto, a investigação criminal e a Antropologia ou a Arqueologia Forenses estão muito próximas", explica o responsável enquanto faz a supervisão dos trabalhos dos alunos, uns prestes a sair da faculdade, a maior parte com décadas de experiência nos seus países.

"Estão aqui pessoas vindas da Alemanha, Holanda, Itália, Polónia, Suécia e Suíça, entre outros. A cooperação e a partilha de conhecimentos é fundamental para a evolução da ciência. Os fins podem ser diferentes, mas a metodologia é comparável", acrescenta Mike Groen, dando a entender que resolver um homicídio com profanação de cadáver em Portugal é quase igual a descobrir o que levou à morte de um guerreiro nórdico há centenas de anos ou de uma vítima do regime nazi em meados do século passado.

Mas se o georradar permite localizar as ‘vítimas’ enterradas, o resto tem de ser feito à mão. Pás, enxadas, escovas e outros objetos habitualmente vistos em escavações arqueológicas são as ferramentas que permitem chegar ao objetivo. Mas não é um trabalho de força bruta. Tudo é feito com o maior cuidado para não destruir qualquer pista que ajude a resolver o caso ou prova com validade em tribunal – caso este fosse um caso real.

É tempo de ‘meter mãos à obra’, sob um sol já intenso, sobretudo para os peritos vindos do Norte da Europa, que rapidamente demonstram na pele os efeitos da insolação. Mas é nesta altura que o espírito de camaradagem se nota no grupo e a partilha de experiência dos peritos do Sul da Europa perante a canícula beneficia todos. "Mais um exemplo de que a cooperação internacional traz vantagens", brinca um dos portugueses.    

"Os mortos falam connosco"

Com os quatro corpos ‘geolocalizados’, as sepulturas começam a ganhar forma. Pouco a pouco vão ficando mais fundas, revelando os primeiros indícios de que ali por baixo estão quatro corpos. Tudo é documentado e registado: a profundidade de qualquer objeto encontrado, as distâncias a que foram deixados, entre outros parâmetros. "É um cliché, mas os mortos falam connosco, contam a sua história. O que nós fazemos é reproduzir a situação, o contexto do que aconteceu àquela pessoa com base nas provas recolhidas. Seja no âmbito da investigação criminal ou da investigação histórica. Qualquer pista pode ajudar a explicar o que se passou. Quer tenha sido há um mês ou há vários séculos", explica Mike Groen entre pequenas deslocações a cada um dos grupos que explora os quatro buracos no solo. O holandês dá conselhos, faz perguntas, define métodos, aceita sugestões. "Tudo tem de ser feito com método, não se pode descurar nada."

Passo a passo, os ‘cadáveres’ são desenterrados. A terra em redor é peneirada e revela pistas quase invisíveis. Vidros com impressões digitais, peças de roupa, sapatos, invólucros, tudo é catalogado e metido em sacos individuais. Um trabalho minucioso mas fundamental para a resolução de qualquer caso. Tudo terá de ser alvo de perícias no Laboratório de Polícia Científica, por isso o rigor é fundamental. São estes indícios que vão permitir contar a história daquela vítima e, nos casos reais, servir de prova quando o processo chegar a julgamento.

Este exercício serviu também para ver se as provas são utilizáveis depois de meses enterradas. Sem entrar em pormenores, os responsáveis pela formação admitem ter testado até que ponto impressões digitais são detetáveis depois de vários meses em contacto com terra molhada – e sim, são detetáveis e podem conduzir à identificação. Imagine-se um cenário hipotético: uma vítima de homicídio, enterrada pelo assassino, que por descuido deixou uma impressão digital no relógio ou nos óculos. Com os métodos atualmente disponíveis e a experiência dos peritos do LPC, muito provavelmente o autor seria identificado. Se depois seria localizado e preso já é outra questão, que não depende do trabalho destes especialistas em arqueologia forense.

"Hoje em dia é possível determinar com que ferramentas o buraco foi escavado, ou que tipo de serra foi usada para cortar os membros da vítima", acrescenta Mike Groen, deixando sem resposta a questão se seria possível determinar se o corte foi feito por uma pessoa destra ou canhota. Um sorriso enigmático foi a reação do especialista, que deixou a reportagem da ‘Domingo’ sem saber se era um sim ou um não.

A escavação prossegue. Os 27 participantes debruçam-se sobre as sepulturas, vão trocando de lugar, partilham descobertas, pedem a sugestão de colegas e formadores sobre o que está a ser feito. Sem pressas, mas também sem perderem tempo. Há quase uma competição entre equipas, mas para ver quem descobre mais pistas relevantes, não para acabar primeiro. Mais do que a rapidez, importa não descurar qualquer pormenor. Um passo apressado pode destruir uma prova importante. Parece uma dança bem coreografada, onde um pé no sítio errado colocará em causa todo o trabalho já feito.

Um especialista suíço pede mais envelopes para guardar novos indícios descobertos. Fala com uma colega, que regista o achado e o junta a outros, já limpos e devidamente embalados.      

Cenário de guerra num quintal

A tarde aproxima-se do fim e o que era um quintal com um pomar coberto de erva numa pequena propriedade dos arrabaldes de Loures assemelha-se agora a um cenário de guerra. Quatro sepulturas abertas, com os corpos ainda lá dentro. Montes de terra remexida e peneirada ao lado. Quem chegasse à Escola da Polícia Judiciária naquele momento e não soubesse que os corpos não eram reais seria surpreendido pela violência do cenário. Devidamente catalogadas e preparadas para seguir para peritagem estão as outras provas recolhidas ao longo do dia em que foram efetuadas as escavações. Os fatos brancos dos participantes – simultaneamente aprendizes e professores – revelam que foi um trabalho duro. Os joelhos estão negros, os sapatos pesam quilos devido à lama acumulada, as luvas confundem-se com a cor da terra escavada. O suor escorre pelo rosto de todos. Ao contrário das séries norte-americanas sobre investigação criminal, não há muito glamour neste trabalho. E os resultados não são imediatos. E, garante um dos elementos da PJ que acompanhou a formação, "na vida real é pior". Recordam casos reais e relatam experiências que poderiam chocar os mais sensíveis. A conversa com o jornalista é solta, algo impossível se o cenário fosse verdadeiro. "Aproveite para ver e aprender, pois se isto fosse a sério nem vos deixávamos aproximar", avisa um dos elementos da Polícia Judiciária que deu apoio ao exercício.

"A investigação de cenas de crime em Portugal é boa, os criminalistas são do melhor que já vi. Sei que faltam antropólogos nesta área, mas julgo que está a ser feito um esforço para formar estes peritos de forma a colaborarem com a Polícia Judiciária", elogia e aponta Mike Groen enquanto observa os trabalhos.

Já só falta o ‘exame’ final. Mas ainda é preciso prepará-lo. O trabalho de campo termina, mas as equipas juntam-se para analisar as provas recolhidas e tentar reproduzir a situação encontrada. São mais horas de trabalho pela noite dentro, a apresentação tem de ser feita na manhã do dia seguinte. É neste momento que têm de contar a história daquela pessoa, sempre com base nos indícios recolhidos. Como foi morta, quem a matou, com que armas, há quanto tempo... Não há vencedores nem vencidos. Todos ganham em conhecimento.

Ciência como suporte da Justiça

Toda esta formação, que durou quase uma semana, foi promovida pelo Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária. Mas a preparação começou ainda no ano passado. Primeiro com a criação de um plano de formação, depois com a construção de um cenário ao mesmo tempo desafiante e realista. Por fim, a reunião de um grupo de especialistas europeus capazes de contribuir com conhecimento e experiência nesta área das Ciências Forenses. Para o diretor Carlos Farinha trata-se de uma iniciativa que permite abrir "novos horizontes da ciência como apoio à Justiça". "São vários os campos da Ciência Forense que estiveram reunidos na Escola da Polícia Judiciária, um exemplo do que deve ser a cooperação internacional nesta área", acrescenta o responsável pelo laboratório que efetua todas as perícias dos crimes mais graves cometidos em Portugal.

"É positivo para todos e é algo em que temos de investir para cumprir com os nossos parceiros. A legislação europeia impõe igualdade no que se faz nesta área até 2020. E nesse aspeto posso garantir que somos sócios-contributivos. Por isso, estas iniciativas são relevantes. Permitem uma troca de experiências que não seria possível apenas com exposições teóricas. Neste caso específico, a formação visou melhorar a capacidade de utilização de equipamentos de georradar, bem como desenvolver boas-práticas periciais nas escavações e desenterramentos subsequentes. Aprendemos uns com os outros", afirma Carlos Farinha, ainda antes da prova final do curso, na qual cada equipa teve de apresentar os resultados do trabalho no terreno como se fosse um caso real.

A iniciativa será "certamente para repetir". Há vontade de todas as partes. Os estrangeiros elogiam a formação e o país. Dizem que querem voltar, que se inscrevem assim que puderem.

Meios novos necessários

A capacidade dos peritos portugueses é elogiada pelos colegas vindos de longe. Ninguém tem dúvidas de que não ficam atrás de ninguém. Mas questionam se estão apetrechados com os equipamentos necessários para ajudar ao trabalho. Por exemplo, o georradar disponível já tem dez anos e, naturalmente, não tem a mesma capacidade dos aparelhos mais recentes que os especialistas estrangeiros trouxeram para testar neste complexo exercício.

Na prática as diferenças são minimizadas, mas "não é a mesma coisa", ouve-se baixinho. Ao mesmo tempo ressalva-se que este tipo de equipamento é usado poucas vezes por ano – "não há assim tantos casos de homicídio com corpos enterrados em Portugal". Um aparelho deste género custa no mínimo 15 mil euros e haverá outras prioridades para a Polícia Judiciária e o Laboratório de Polícia Científica.

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!