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Correio da Manhã

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ARRISCAR A VIDA POR UM INSTANTE

São 8 848 metros a subir. Muitos tentam, poucos conseguem. Edmund Hillary foi o primeiro, há 50 anos. João Garcia esteve lá em 1999.
25 de Maio de 2003 às 00:00
“Ao fim de um bom bocado, acabo por me convencer de que o cume era ali. Até porque era o mais sujo. Ironia amarga, não é? O ponto mais alto, mais remoto do Mundo, é identificável por estar sujo...” A frase é de João Garcia, o primeiro português a alcançar o cimo do Monte Evereste, a 8 848 metros.
“Ali estava eu, tão perto do céu como se pode estar com os pés na terra, e só pensava em respirar. Não tive nenhum pensamento profundo, tipo ‘Foi para isto que vivi toda a vida’. Nada”, relata o alpinista no livro ‘A mais alta solidão’, dedicado ao amigo Pascal Debrouwer, que com ele partilhou o instante que ambos tanto desejaram, mas que morreu na descida.
O mesmo podia ter acontecido a João Garcia, não fosse a sua coragem, reforçada pelo auxílio de um casal de brasileiros, Paulo e Helena Coelho, que desistiram da sua quarta tentativa de atingir o cume para ajudar o português. “Ele ficou desesperado, pegou numa garrafa de oxigénio resolveu subir outra vez atrás do amigo (Pascal Debrouwer). Pelo rádio apelámos para que desistisse da ideia, mas foi impossível contrariá-lo”, conta Helena, que, relegando para segundo lugar aquilo que era até ali o maior objectivo da sua vida, não hesitou: “O nosso grande desafio naquele momento era salvar a vida do João.”
E salvaram. O português sobreviveu e, depois de 92 dias no Hospital Clínico Universitário Losano Blesa, em Saragoça, voltou a Portugal já sem as pontas dos dedos e do nariz, amputadas por terem congelado. A sua vida mudou para sempre, mas a paixão pelo alpinismo manteve-se. Por isso, uma das primeiras prioridades de Garcia quando regressou a Lisboa foi encomendar novos cabos para as suas ferramentas de modo a adaptá-los às suas ‘novas’ mãos, para poder voltar a escalar montanhas.
Quarenta e seis anos depois do primeiro homem ter chegado ao cume do Evereste, um português igualava o feito, escalando os 8 848 metros do ‘Grande E’ sem oxigénio, uma proeza que até hoje ainda nem uma centena de pessoas conseguiu realizar.
Muitas delas, incluindo João Garcia, estiveram reunidas na passada sexta-feira no Nepal para assinalar o 50º aniversário da primeira conquista do Evereste.
SUBIR SEMPRE OUTRA VEZ
Eram 11h30 do dia 29 de Maio de 1953 quando o neozelandês Edmund Hillary (ver caixa) e o ‘sherpa’ Tenzing Norgay alcançaram o cume. O Homem ganhava assim um dos maiores desafios, senão mesmo o maior, que a Natureza lhe coloca. Porque a subida para o Evereste é uma luta corpo a corpo entre o alpinista e a montanha.
Apesar de revelado o mais alto mistério do Mundo, o interesse pelo ‘Grande E’ não diminuiu, antes pelo contrário. Desde então, muitos milhares de pessoas tentaram repetir a proeza de Hillary e Norgay, a maioria nunca logrou atingir o topo, centenas perderam a vida e poucos puderam desfrutar da mais ampla vista sobre o planeta.
“Mesmo no cimo do Evereste, eu continuei a olhar para outras montanhas e a pensar como escalá-las”, afirma Edmund Hillary, porque para um verdadeiro alpinista mais do que chegar alto, é fundamental chegar muitas vezes alto.
É o que sente João Garcia, o homem a quem o Evereste roubou as pontas dos dedos e do nariz, mas – como todos os que fazem do alpinismo a sua vida – a quem só a morte acabará com o prazer de subir montanhas. A qualquer preço.
“Sabia que chegar lá a cima não é o fim da história, que é preciso voltar. Sabia que vitória é darmos o nosso melhor e regressarmos bem. (...) Sabia tudo isso. E no entanto...” n
EDMUND, O MITO
Edmund Percival Hillary nasceu a 20 de Julho de 1919, em Papakura, Nova Zelândia. Apicultor de profissão, participou na II Guerra Mundial como navegador de voo. Entre a equipa que a 29 de Maio de 1953 tentou atingir o cume do Evereste, Hillary era apenas mais um. Preparado, é verdade, mas sem poderes especiais. No entanto, a sua capacidade fisíca e do ‘sherpa’ Tenzing Norgay destacaram-se no momento de percorrer os últimos metros rumo ao ponto mais alto do Mundo. O próprio Hillary ficou surpreendido com o seu sucesso, mas nos anos que se seguiram aplicou-o com uma devoção notável na ajuda do desenvolvimento da região que o levou à glória. E que, em 1975, lhe tirou quase tudo. O avião em que seguiam a mulher, Louise, e a filha, Belinda, incendiou-se pouco depois de levantar voo em Katmandu e despenhou-se. O desgosto foi grande, mas não teve a força suficiente para abalar a paixão de Hillary, agora nomeado cidadão honorário do Nepal, pelas montanhas. O filho, Peter, herdou-lhe o gosto, e a 25 de Maio de 2002 alcançou também o cimo do Evereste. O telemóvel fez o resto: “Pai, é o Pete. Estamos no cume.”
MALLORY, O REI SEM TRONO
É certo que Edmund Hillary foi o primeiro homem a regressar vivo do ‘Tecto do Mundo’, mas não que tenha sido o primeiro a alcançá-lo. A 8 de Junho de 1924, George Leigh-Mallory e Andrew Irvine fazem a sua terceira tentativa para atingir o cume, mas são traídos pelo mau tempo e desaparecem. Há quem defenda que Mallory só vacilou no regresso. O corpo do britânico foi encontrado em 1999 a escassos metros do cume, mas isso de pouco serviu para provar se esteve ou não no cimo do Mundo antes de qualquer outro.
UM BRAÇO PELA VIDA
A vida é feita de opções, umas mais difíceis do que outras, mas quase todas mais simples do que aquela que Aron Ralston, um norte-americano de 27 anos, teve de fazer recentemente. O alpinista ficou cinco dias preso num grande rochedo do Parque Nacional de Utah, e só conseguiu sobreviver porque ao quinto dia optou por abdicar do braço direito em nome da vida. “Com uma pancada seca, cortei primeiro os dos ossos e depois utilizei a faca. Fiz um garrote e continuei o trabalho. Tudo isso levou cerca de uma hora”, disse Ralston à saída do hospital, onde durante dias esteve entre a vida e a morte.
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