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Correio da Manhã

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As confissões da prisioneira Maria das Dores

Em 2007 mandou matar o marido e agora fala sobre o crime num livro escrito na prisão.
Marta Martins Silva 15 de Setembro de 2019 às 10:00
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Socialite diz que queria infligir sofrimento ao marido, Paulo Cruz.

O espelho do Estabelecimento Prisional de Tires mostra todos os dias a Maria das Dores – condenada por mandar matar o marido, o empresário Paulo Pereira da Cruz, em 2008 – o   quanto   envelheceu   nos   últimos doze anos. Viu o cabelo – que até então não passava sem os mimos de um cabeleireiro semanal – ganhar raízes brancas difíceis de disfarçar com a cosmética disponível atrás das grades e o armário ficar confinado a 70 peças, incluindo roupa interior, ela que até então se vestia com as marcas mais luxuosas, não dispensava o motorista nem a ama a tempo inteiro para o filho mais novo.

‘Mimi’, como chegou a ser conhecida, também era presença assídua dos eventos do ‘jet set’, onde conseguia conquistar a simpatia de outros com igual passatempo, numa altura em que já ia distante a memória do primeiro casamento, com um professor de História que conheceu nos bancos   da   escola,   e   o   trabalho   ao balcão de um banco. Maria das Dores Correia Alpalhão – que chegou a conseguir quartos em hotéis de luxo lotados fazendo-se passar por secretária de Cavaco Silva e bacalhau em   vésperas   de   Natal   dizendo   ser sobrinha de Mário Soares – conheceu Paulo Cruz num restaurante em Sintra. Viu-o chegar num reluzente Mercedes S300, o que não foi prenúncio de um casamento brilhante, principalmente depois do acidente de viação em que perdeu um braço, ia o marido a conduzir.

O fim da relação estaria iminente naquele início de 2007 - o administrador de uma empresa de hortifrutícolas de Torres Vedras, de 44 anos, assim o teria confessado ao irmão -quando Maria prometeu ao motorista 150 mil euros a troco da morte do marido (que tinha um seguro de vida no valor de 1,2 milhões de euros). O brasileiro João Paulo Silva pediu, por sua vez, ajuda ao amigo cabo-verdiano Paulo Horta e, depois de tirarem a vida ao empresário com uma marreta de cinco quilos, enfiaram-lhe um saco de plástico na cabeça, selado por fios elétricos.

Durante   o   julgamento,   Maria   das Dores optou por negar o crime, mas fala agora sobre ele no livro ‘Eu, Maria das Dores, me Confesso’, do qual publicamos em exclusivo um excerto.

Ciúmes, dívidas e discussões
"O   que   acontecia   era   que,   a   cada noite em que o Paulo chegava tarde, eu morria de ciúmes. A princípio, ele   procurava   desculpas   com   que me mentia. Depois, o descaramento era tão grande que simplesmente aparecia quando lhe dava na gana.

– João Paulo, eu não aguento mais isto – desabafava eu com o brasileiro, quando às vezes me levava e trazia   a   fazer   recados.   Tínhamo-nos conhecido através do cabeleireiro Duarte Menezes, de quem me considerava amiga. Pelos vistos, o João Paulo   também   fazia   recados   para ele, como passear os cães, e talvez entre   eles   houvesse   uma   relação mais   íntima,   que   eu   nunca   quis aprofundar...   Como   também   não quis aprofundar os boatos que diziam que, no passado, o João Paulo se tinha prostituído com homens.

– Querida Maria, veja lá se o Paulo arranja trabalho para ele…

Pode ser a conduzir o carro ou o que   for   preciso   –   pediu-me   certa vez o Duarte Menezes. E eu perguntei ao Paulo se podia contratá-lo e foi assim que o João Paulo acabou por tornar-se   numa   espécie   de   braço direito dele, bem como uma pessoa bastante próxima dentro da nossa família.

– João Paulo, o meu marido engana-me com outras mulheres e você diz-me   que   não   se   passa   nada?   – conversava com ele.

– Noutro dia, estive no escritório, sentei-me na mesa, abri uma gaveta e sabe o que encontrei? Um telemóvel desses baratos, que pelos vistos usa para falar com as suas amiguinhas… Não tinha código e sim, claro que o liguei. E sabe o que li? – O João Paulo não respondia às minhas perguntas,   limitava-se   a   escutar-me, enquanto me levava pelas ruas de Lisboa para fazer recados de que eu   precisava.   E   eu   continuava   a contar -lhe a história.

– ‘Oi, gostei muito de estar com você,   meu   gatão’   –   reproduzi, simulando uma pronúncia brasileira. Pelo espelho retrovisor via como se desenhava um sorriso nos lábios de João Paulo. Teria sido ele a apresentá-los?, pensei de repente, e senti-me ridícula por estar a contar-lhe aquelas intimidades do meu marido. Por isso não lhe contei que junto com o telefone, também tinha descoberto vários comprimidos de Viagra. Como era possível? Ele, que dizia que não queria fazer amor comigo porque o meu braço lhe parecia um pénis, andava por aí a dormir com brasileiras sabe -se lá com que profissão!

– ‘Saudades de você!’ Achas normal, João Paulo, que lhe escrevam mensagens a dizer que sentem saudades dele? E eu, que sou a mulher dele e nem sequer o vejo em casa?! João Paulo, isto é inadmissível, não achas? Mas o João Paulo não achava nada.   Pelo   menos,   não   me   dizia nada, exceto que não me preocupasse com essas mulheres, que segundo ele   não eram mais que um passatempo. Porém eu não estava disposta a tolerar que me fosse infiel debaixo do meu próprio nariz. E se se   apaixonasse   e   me   deixasse   por uma delas? Uma sensação de vertigem na boca do estômago arrasou comigo.

– Não. Isso nunca, João Paulo. O Paulo vai pagar por tudo o que me tem feito.

– E como vai fazer isso, doutora?

– Tu vais ajudar -me.

– Eu, doutora? Nem pense! Não me meta em mais problemas, que já tenho suficientes com o engenheiro...

– De que problemas estás a falar, João Paulo? – perguntei realmente interessada.

– São coisas nossas, doutora, negócios que tenho com o engenheiro, já sabe…

– Não, eu nunca sei de nada, João Paulo! – disse, levantando ligeiramente o tom de voz, visivelmente irritada. Não sabia de que negócios estava a falar e queria que fosse mais direto   ao   assunto   e   me   contasse tudo. Era o meu marido, que mais me estava a ocultar?

– Bom,   o   engenheiro…   tem-me dado algumas coisas para vender, porque está a precisar de dinheiro…

– Que coisas, João Paulo?

– É melhor a doutora não saber... Digamos que são coisas que toda a gente compra, né? Só que depois demoram a pagar... E eu tenho de pagar ao engenheiro… Não estava a perceber a conversa e, por mais que tivesse insistido, o João Paulo não continuou a falar e mudou de assunto.

–   Sabe   uma   coisa,   doutora?   Eu odeio   tugas.   Eles   primeiro   dizem uma coisa e depois… mudam…

– Okay, okay, está tudo bem! Não quero saber mais!

Era certo, não queria que o João Paulo   me   contasse   mais   nada   dos negócios que tinha com o meu marido, nem queria saber porque é que ele odiava portugueses nem as razões por que estava aborrecido com o Paulo. E de repente recordei uma conversa que tínhamos tido umas semanas antes. Eu ia mandar algumas peças de roupa à lavandaria e, antes de entregá-las a Ivana, tinha o costume de verificar os bolsos para que não fosse fora algum bilhete ou algum papel importante. Num dos casacos   do   Paulo,   encontrei   uma bolsinha com um pó branco. Guardei -o e mostrei -o ao Paulo à noite, quando chegou a casa.

– Não tens mais nada que fazer do que andar a mexer nos meus bolsos? – protestou ele, zangado.

– Tem calma, eu não te ando a espiar, só ia mandar o casaco para a lavandaria… – justifiquei-me, sem compreender o porquê da sua indignação, que me pareceu um pouco despropositada.

–O que é, afinal? – insisti.

– É só um pó que usamos para conservar as maçãs… Não voltes a mandar nada para a lavandaria sem antes me perguntar…

– Meu Deus, quase que vou ter de pedir licença para ir à casa de banho! – respondi   em   tom   sarcástico.   Era este o tipo de conversas que mantínhamos. Ríspidas e sem amor. A cada dia que passava, sentia que conhecia menos o Paulo e que ele estava mais e mais   distante.   Pelo   menos,   tinha   o João Paulo para me manter ao corrente da vida do meu marido. Passava mais tempo com ele e pelos vistos também sabia muito mais do que eu sobre o meu próprio marido".

Confissões em livro
O livro ‘Eu, Maria das Dores, me Confesso’ chegou às livrarias na sexta-feira, dia 13 de setembro, com edição da Verso de Kapa (recentemente integrada no Grupo BertrandCírculo). Nele, a mulher que aos 48 anos foi condenada a 23 anos de cadeia por mandar matar o marido conta a sua versão dos acontecimentos e dos seus dias na prisão. Fala das tentativas de suicídio, da dificuldade que teve em adaptar-se a um meio em tudo diferente do ‘glamour’ em que vivia, e do filho mais novo, hoje estudante de Medicina, que nunca a procurou.

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