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As dores de quem fugiu da Venezuela

Nos últimos dois anos, milhares de lusodescendentes retornaram a Portugal.
Vanessa Fidalgo 3 de Fevereiro de 2019 às 11:00
Maria Guadalupe  Gonçalves, de 21 anos, chegou a Lisboa há cinco meses com o marido.  Na Venezuela, os pais  chegaram a ser baleados
Na Venezuela residem ainda meio milhão de portugueses e lusodescendentes. Entre 11 e 12 mil, referenciados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, terão deixado aquele país desde 2016 e rumado a Portugal, num movimento inverso ao dos pais e avós, mas pela mesma causa: a busca de uma vida melhor.

A grande maioria desta imensa comunidade é originária da Madeira e é à ilha que regressa em massa. Mas não só. Por todo o país é possível encontrar histórias como a de Guadalupe Gonçalves. Tem 21 anos e está a viver em Lisboa há cinco meses com o marido. Nasceu na Venezuela, tal como os pais, de 48 e 49 anos (originários da Madeira), que também estão de malas feitas para regressar a Portugal, depois de chegarem à conclusão de que a situação naquele país "era insuportável".

A gota que fez transbordar o copo foi a doença da mãe, um cancro da mama. "Não se consegue comprar os medicamentos necessários para a tratar na Venezuela. Como vivíamos em Mérida, perto da fronteira com a Colômbia, o meu pai começou a atravessar a fronteira para ir até lá comprá-los, a preços exorbitantes.

Nos últimos tempos, como já conhecia bem o vendedor, ele enviava-lhos pelo correio. Esses medicamentos deveriam ser fornecidos pelo sistema de saúde venezuelano, mas as carências são enormes e, apesar da insistência com que nos dirigíamos aos serviços e implorávamos tratamento, este nunca chegou à minha mãe por essa via", revela. Valeu-lhes terem outra via, o sistema de saúde privado, no qual a mãe de Guadalupe era seguida.

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a pobreza aumentou significativamente na Venezuela, atingindo agora quase 90 por cento da população. A área da saúde está próxima do colapso, de acordo com aquela entidade, que confirma a inexistência de medicamentos em 90 por cento do território nacional. Os hospitais têm 50 por cento das enfermarias e 80 por cento dos serviços inativos.

Mas não são apenas os fármacos que faltam. "A comida atingiu preços exorbitantes. Mais uma vez, por morarmos perto da fronteira, tínhamos a possibilidade de ir comprar arroz, farinha e carne à Colômbia, mas pagava-se muito caro, como em toda a Venezuela. E em muitos sítios nem sequer havia para comprar", conta.

Antes, a família vivia próximo de Caracas, mas mudou-se para Mérida quando as coisas começaram a complicar-se. Ainda assim, Maria Guadalupe carrega na memória um longo historial de roubos e violência. "Fomos assaltados várias vezes, o meu pai e a minha mãe chegaram a ser baleados quando seguiam no carro com os meus irmãos. Tínhamos um mercado tipo loja do chinês, e o meu pai, que fazia muitas vezes o trajeto entre Caracas e Mérida para comprar mercadorias, chegou a ser perseguido pelos assaltantes e amarrado. O medo era constante."

Salvos pela internet
O ponto de viragem foi quando o marido conheceu pela internet Christian Hohn, ativista dos direitos humanos radicado em Portugal e responsável pela associação Venexos: "O meu marido é designer gráfico e o Christian arranjou-lhe trabalho aqui em Lisboa. Chegámos há cinco meses, conseguimos tratar dos papéis com facilidade."

Guadalupe, aproveitando o facto de ser bilingue, já esteve a trabalhar num call-center e agora aguarda nova colocação. "Não interessa no que vamos trabalhar ou se deixámos tudo para trás – casa, carro, um bom ordenado. A única coisa que importa é que, aqui, estamos seguros", congratula-se. Uma boa nova molda-lhe o sorriso no rosto: "Para o próximo mês chegam os meus pais. Já está tudo tratado. E a minha mãe, aqui, vai ficar bem certamente. Vamos ficar todos bem", espera.

Começou por ser apenas de forma "temporária" que Aura Rodrigues, 59 anos, voltou à terra onde nasceram os pais, a ilha da Madeira. O pai sofria de Alzheimer, que se somou a um cancro e a problemas de hipertensão. Em Caracas, o médico deu-
-lhe poucos meses de vida. Por isso, a professora de línguas do Instituto Camões na Venezuela e ex-despachante de voo na TAP trouxe o pai para morrer na terra natal, e também o filho de 13 anos.

"Apesar de achar que seria por pouco tempo, inscrevi o meu filho na escola para ele não ficar parado. Fez os exames e aceitaram-no no 5º ano. Só que o meu filho sentiu-se tão bem, pela liberdade de poder andar na rua e ir para a escola sozinho com os amigos, que quis ficar. Foi ele o primeiro a não querer voltar", recorda.

Já lá vão quase três anos e, por agora, até o pai de Aura continua vivo e com melhor saúde. No último Natal, o marido veio passar a quadra à Madeira e o filho implorou-lhe que ficassem definitivamente. Os três. Em família e em segurança.

"Ele, finalmente, ouviu as palavras do filho, que lhe fez ver que os perigos são cada vez maiores na Venezuela", conta. Antes, a família vivia em Santo Antonio de Los Altos, a 16 quilómetros de Caracas. Ali deixou "uma boa casa, um carro ao qual já roubaram uma série de peças e até uma carrinha". "Foi muito difícil deixar tudo para trás. A carrinha foi a única coisa que conseguimos vender, mas costumo dizer que foi ‘oferecida’… por 600 dólares (524 euros). Valia muito mais", lamenta.

Na Madeira, o marido vai fazendo alguns trabalhos de construção civil (na Venezuela trabalhava no mesmo ramo) e Aura dá aulas de português na paróquia aos refugiados que não param de chegar à ilha. O padre consegue pagar-lhe dez euros à hora. "Não é muito, mas por enquanto é o possível. Também faço algumas iguarias venezuelanas para fora quando me pedem", diz.

A idade, como acontece aos portugueses, não facilita a reentrada no mercado de trabalho. "Não podemos sequer pensar na reforma porque não descontámos para a segurança social portuguesa e, no entanto, somos velhos para trabalhar e muito novos para ficar sem fazer nada…", desabafa.

Pelo contrário, José Alves, de 22 anos, está encaminhado, para alívio dos pais. Chegou o ano passado ao Porto (a mãe é de Arcozelo e o pai de Espinho) e prossegue agora o seu percurso académico na Universidade do Porto, no curso de Línguas e Relações Empresariais. Na Venezuela estudava Direito e estava envolvido na luta política, ao lado de Juan Guaidó, o homem que está a liderar a oposição ao regime de Maduro.

"A maior parte das pessoas que estão nas ruas e nas manifestações são estudantes como eu. Jovens que representam todos os outros que não podem dizer ‘não’, que não têm voz", explica. À conta disso, José quase perdeu a liberdade. Foi perseguido, ameaçado, teve a polícia e o SEBIN (Serviço Bolivariano de Inteligência - a polícia política do regime, uma espécie de ‘PIDE’ local) à porta, "para pressionar".

Os pais de José temiam que fosse levado para a prisão de La Tumba ou para o Helicóide - projetado para ser o primeiro shopping center drive-thru do Mundo, com 300 lojas, mas que acabou por abrigar uma das prisões mais violentas da Venezuela. Lá dentro, em vez de luxo e entretenimento, o edifício icónico alberga milhares de celas e retrata o declínio de uma nação à beira do colapso. "Os presos políticos são torturados física e psicologicamente. Tenho muitos amigos lá. Mas isso não os faz perder a fé nos seus ideias", relata.

Nem José abdicou deles, mas acabou por aceder à vontade da família quando "o perigo estava no auge". Os venezuelanos, garante, estão todos no limite. O ordenado mínimo não chega para comprar um quilo de carne. "As pessoas estão a fugir sem nada, a atravessar montanhas a pé, porque não têm sequer dinheiro para comprar bilhete para uma camioneta que as ponha do outro lado da fronteira", conta.

José é do mesmo partido de Juan Guaidó. Conhece-o há vários anos. "Ele não se autoproclamou Presidente, como dizem. Os resultados das últimas presidenciais não foram reconhecidos pelos EUA, nem pela Europa, nem pela maioria dos países latino-americanos. Na ausência de um Presidente, a constituição da Venezuela diz que deve ser o presidente da Assembleia Nacional, que era Juan Guaidó, a assumir o cargo de Presidente interino até novas eleições", insiste em clarificar. É em Guaidó que deposita a esperança no futuro e de um dia regressar. "Aqui estou seguro, Portugal recebeu-me de braços abertos, mas eu quero terminar a minha formação e depois voltar. Quero ajudar a reconstruir o meu país."

Também no Porto está Alberto Silva, de 73 anos, e a mulher, Soledad, de 72. Ele é luso-venezuelano, filho de pais portuenses. O pai era empreiteiro na Venezuela e a mãe, doméstica, dedicou a vida inteira aos filhos. "Tive uma infância muito bonita, inesquecível. A Venezuela é um país lindíssimo, com uma paisagem e um clima maravilhosos. Quando tinha 13 anos, a minha mãe quis que eu e a minha irmã viéssemos estudar para cá. Mas não aguentámos: um ano depois voltámos para a Venezuela. Aqui fazia muito frio", recorda.

Alberto licenciou-se em Administração Pública e foi também professor. Por lá nasceram três filhos rapazes. Já tinham a vida feita: "Licenciados e com empregos muito bons", mas foram eles que o compeliram a fazer as malas e partir. "Os meus filhos até viviam em bons bairros, mas para se deslocarem para o trabalho, em Caracas, tinham de passar por zonas muito perigosas. Estávamos sempre em sobressalto. Tenho dois em Espanha e um aqui em Portugal. Foi para estar ao pé deles que viemos. Deixámos uma vida inteira. Mas temos os nossos rapazes, que são o mais importante."

Alberto e Soledade já não regressam à vida ativa. Chegaram em novembro ao Porto para viverem da ajuda dos filhos e da reforma dele.

Mais complicado foi tratar da papelada para chegar a Portugal: "Em Caracas, no consulado, não quiseram reconhecer o nosso casamento. Mas aqui em Portugal foi reconhecido e já estamos a tratar dos papéis para obter a nacionalidade da Soledad. Portugal recebeu-nos de braços abertos."
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