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"As escolas estão pior do que imaginava"

Investigadora revela fragilidade do sistema educativo nacional e critica Crato.
Ana Maria Ribeiro 21 de Dezembro de 2014 às 13:45
"Nunca pensei que os professores gastassem tanto tempo de forma tão desnecessária, em comunicações inúteis"
'Nunca pensei que os professores gastassem tanto tempo de forma tão desnecessária, em comunicações inúteis' FOTO: Marisa Cardoso

Maria Filomena Mónica quis saber como está a escola pública e pediu a oito professoras que lhe contassem o que realmente se passa, ao longo de um ano letivo, nas aulas. O projeto, apresentado a Nuno Crato quando este era responsável pelo pelouro de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, deu origem ao livro ‘A Sala de Aula’.

Ficou muito surpreendida com aquilo que as professoras revelaram?

Fiquei muito triste. A situação nas escolas é muito pior do que eu imaginava. Eu sabia que os testemunhos, sendo verídicos, não eram representativos da classe como um todo. Mas são factos...

O que a chocou mais?

Nunca pensei que os professores gastassem tanto tempo de forma tão desnecessária, em comunicações inúteis. A terem de dar contas ao ministério, a terem de escolher manuais idiotas. Nunca pensei que os exames fossem tão estúpidos, que a indisciplina fosse tão grande. E o ministério indiferente ao esforço que os professores fazem.

Nuno Crato, agora ministro da Educação, deu aval ao estudo. Porque não aplica as conclusões?

Foi uma das minhas desilusões. Eu achava que tínhamos ideias muito semelhantes no que diz respeito ao ensino, mas estava enganada. Tudo o que o Crato fez desde que entrou para o ministério me tem desiludido. Estou contra ele em tudo. Não só do ponto de vista das ações como ministro, mas também do ponto de vista pessoal.

Do ponto de vista pessoal?

Avança com uma ideia, depois recua, volta a avançar e a recuar. Não tem a firmeza suficiente para levar a sua avante. Faz política ao ziguezague. Às segundas, quartas e sextas, diz-se uma coisa; às quintas e sábados, outra completamente diferente. Para mim, foi uma desilusão total.

Nuno Crato terá indicação para reduzir custos...

E se for isso? Que vá à televisão e explique. Nós não somos estúpidos. Se eu fosse ministra, ia à televisão e dizia: Não posso despedir os velhos, por muito maus que sejam, porque são os direitos adquiridos; não posso admitir os novos porque não tenho dinheiro. O que ele está a fazer é liquidar os jovens. Os bons e os maus. E a proteger os velhos. Os bons e os maus.

É contra as provas dos professores?

As provas são ridículas, com perguntas que não lembra a ninguém. Eu sei que é difícil distinguir os bons dos maus professores, mas não é impossível. Já estive em muitos júris de doutoramento e de promoção de carreira...

Este livro decorre de uma obsessão sua, que é de longa data, com a educação. A educação como forma de promover a igualdade entre as pessoas?

É basicamente isso. Doutorei-me em Sociologia da Educação em Oxford. Escolhi sociologia pela razão adolescente de que o Salazar a tinha proibido em Portugal. Logo, para mim, teria de ser fascinante... Mas dentro da Sociologia o que mais me interessou foram as desigualdades sociais, que existem em todos os países, mas que eram muito gritantes em Portugal.

Mais desigualdades do que nos nossos dias?

Muito mais. Até aos 15 anos, nunca tinha visto um pobre, mas quando estava no colégio de freiras, levaram-nos a entregar alimentos nas barracas. Comecei a roubar comida de casa, de tal forma fiquei chocada com o que vi.

Pensa na escola pública como solução?

Haverá sempre desigualdades sociais. Não é possível ter uma sociedade completamente igualitária. Mas só há duas formas de diminuir a desigualdade: ou através dos impostos (em que os ricos pagam progressivamente mais) ou através da escola. E é por isso que ponho tanta ênfase na escola pública.

A tal ponto que pôs os seus filhos a frequentá-la?

Os meus filhos frequentaram o Liceu Pedro Nunes e conviveram com todas as classes. Acho que faz mal aos filhos dos ricos conviverem só com os filhos dos outros ricos. Não ficam a conhecer a vida. Depois casam-se todos entre si e acham, como o Ricardo Salgado, que o Mundo é aquele em que ele vive. E não é. O Mundo é muito mais variado. Aquela pateta da Espírito Santo que foi para a Comporta ‘brincar aos pobrezinhos’ não sabe o que são pobrezinhos. Felizmente, a Comporta vai ser vendida e ela vai brincar aos pobrezinhos para casa, com a mãe...

Hesitou na altura de decidir o que fazer?

Podia ter os meus filhos num colégio privado, eventualmente. Pu-los nas escolas públicas também por questões ideológicas. Mas fiquei com a dúvida: deve uma mãe de esquerda, como eu, sacrificar o sucesso académico dos filhos em nome das suas ideias? Até certo ponto.

Não correu mal?

Desigual. A rapariga sempre foi ótima aluna, o rapaz sempre foi mau aluno. Por mais esforços que eu fizesse. Houve um ano em que lhe quis pagar explicações de Matemática e ele achou que o dinheiro era para ele, para o compensar da maçada! Há miúdos que não têm predisposição para estudar.

O que faria enquanto ministra da Educação?

Punha uma bomba no computador. Proibia as comunicações entre o ministério e os professores via internet... Não, eu nunca aceitaria. Não tenho jeito para a política. Sou irascível, detesto reuniões e não trabalho em equipa. Em 74 ainda pensei que dava uma boa deputada da oposição. Do Governo, nunca.

Mas sabe o que faz falta?

Sei algumas coisas. O problema da escola pública não são os professores. É a organização – ou falta dela. Uma das minhas netas está no 12º ano e esteve sem professor de Matemática durante um mês e meio. Os diretores precisam de autonomia e os alunos precisam de regras claras.

Ainda está por fazer o modelo ideal de escola pública para Portugal?

Não há modelos perfeitos, mas há reformas a fazer e nisto sou reformista. É preciso mudar o que está mal, a começar pelo abuso de burocracia. Os professores têm de dar aulas como entendem.

"EM VEZ DE IR AO PSIQUIATRA, EU ESCREVO"

Maria Filomena Mónica está doente, mas diz que este não é o momento para falar do assunto. No recato do lar, tem escrito um diário da sua doença, como faz sempre que vive os períodos mais dramáticos da sua vida. Fê-lo durante a adolescência, depois nos anos 90, enquanto a mãe se afundava no progressivo desconhecimento de si mesma que é a doença de Alzheimer. Em 2011, publicou um ensaio chamado ‘A Morte’ em que defende o testamento vital, o suicídio assistido e a eutanásia. Diz agora que publicará o diário "se tiver algo a acrescentar". "Para já, é só para mim. Em vez de ir ao psiquiatra, eu escrevo."

entrevista Maria Filomena Mónica 'A Sala de Aula' Fundação Francisco Manuel dos Santos
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