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AS MENINAS PASTORAS

Sónia, Eduarda e Ana Cláudia passam o dia no campo, a guardar o rebanho. De um total de 14 irmãos, as três perpetuam a história de uma família cujas raízes se misturam com as da terra.
23 de Março de 2003 às 16:18
António Joaquim Gonçalves Mateus, 66 anos, é o patriarca de uma família numerosa. Aos 30 casou com Gracinda Silva que, no espaço de 13 anos, lhe deu 14 filhos – com a particularidade de a senhora ter dado à luz duas vezes no mesmo ano, e manter a regularidade do parto uma vez por ano.

Os chefes da família são ambos analfabetos e sempre ganharam a vida a cuidar de gado. Vivem num dos picos mais altos do Parque Natural do Alvão, em Bobal, no concelho de Mondim de Basto.

Os filhos, sete rapazes e sete raparigas, com idades entre os 13 e os 35 anos, foram criados na modesta moradia onde ainda hoje habitam, sendo ensinados “que numa casa toda a gente tem de trabalhar”.

Destes, apenas quatro vivem na casa paterna. Espanha, Luxemburgo e Lisboa, são o paradeiro dos outros dez filhos, dos quais um “esteve desaparecido muitos anos sem dar notícias, aparecendo depois na Galiza, onde está casado com uma espanhola”, conta António Mateus, a quem a emigração nunca seduziu. “Toda a vida lidei com gado. Desde criança trabalhei como criado a guardar ovelhas. Mais tarde, juntei uns tostões, comprei as minhas primeiras cabras, casei-me, arranjámos, eu e a Gracinda, o nosso ‘rebanho’ de filhos, e hoje tenho 140 cabras e seis vacas leiteiras, tudo construído com muito sacrifício”, relata o patriarca, cuja viagem mais longa “foi uma vez a Lisboa, de excursão”. Mas “não fiquei abesado. É muito longe.

Prometi nunca mais voltar ”, remata, sem dúvidas.
Estudar nunca foi grande prática nesta família. Os dois filhos mais velhos não concluíram a quarta classe, nove atingiram essa meta, enquanto Sónia, de 16 anos, e Eduarda, de 15, concluíram o sexto ano. A Ana Cláudia, a mais nova, com 13 anos, frequentou as aulas do sexto ano até às férias da Páscoa, altura em que as cabras no monte falaram mais alto, e abandonou a escola.


“Tinha de me levantar muito cedo, 6h30, para apanhar a carreira para Mondim de Basto. Depois eram muitas horas de estudo, longe de todos os meus familiares, e não via progressos. Como sabia que não teria hipóteses de continuar, por dificuldades económicas da família, resolvi ficar em casa e ajudar nas lides do gado”, conta Ana Cláudia.

DE SOL A SOL

Às 11 horas da manhã, Maria Eduarda, de 15 anos saiu com o rebanho de 140 cabras para os pastos mais recônditos da Serra do Alvão, só regressando depois do sol se pôr. Para além do rebanho, a jovem vai acompanhada por seis fogosos cães de guarda, habituados a lidar com as cabras e com os lobos e raposas.

Os animais têm de ir todos os dias para o monte, já que não é possível alimentar tantas cabras e vacas num estábulo. Há dias em que a tarefa é feita pela mãe, Gracinda Silva, e as três filhas – Sónia 16 anos, Eduarda 15 e Ana Cláudia, 13 anos – revezam-se entre si nas saídas dos dias seguintes. No entanto, quem fica em casa tem de ajudar nas lides domésticas e na recolha das vacas que o pai, Joaquim Mateus, de 66 anos, leva de manhã, bem cedo, para o lameiro. “Toda a gente tem de ajudar. Toca a todas ir com o gado para o monte, coisa que elas fazem com naturalidade”, relata a mãe, atarefada com o almoço para a família.

“Estar todo o dia com as cabras no monte é engraçado. Às vezes encontramos colegas, com outros rebanhos, e passamos largas horas em convívio”, revela Ana Cláudia. Prosseguindo: “Quando, por qualquer razão nos desencontramos, passamos mais de dez horas sozinhos com as cabras e os cães, no meio da serra, e temos momentos de muita solidão”.

Lidar com raposas é uma coisa muito normal naquelas paragens da serra e esta menina/mulher diz que já viu lobos morderem cabras do seu rebanho e serem afugentados pelos cães. “Mas nunca tive medo”, assegura a Ana, do alto dos seus 13 anos, vividos em contacto com as feras e animais de defesa.

Ter cuidado com as cabras que estejam prestes a parir é uma das preocupações das pastoras. “Quando estão prestes a parir aninham-se, começam a berrar e a gente já sabe que vai acontecer ali. Há que procurar um sítio com erva fofa e ajudar no parto. Limpar o vitelo, procurar que a mãe lhes dê de mamar e andar com ele ao colo, no regresso a casa, são coisas que fazem parte do nosso dia-a-dia. Já tive dias de parirem três e quatro cabras e ter de trazer os vitelos no saco da comida, quando regresso a casa”, lembra Maria Eduarda.
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