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As primeiras eleições livres

O País foi a votos, nas primeiras eleições livres da nossa História, para a Assembleia Constituinte. Ganhou o Partido Socialista, de Mário Soares.
24 de Abril de 2005 às 00:00
As primeiras eleições livres
As primeiras eleições livres FOTO: d.r.
Num encontro com Henry Kissinger, na Casa Branca, em finais de 1975, Mário Soares recebeu um conselho a que não deu ouvidos: o secretário de Estado norte-americano disse-lhe para não regressar a Portugal – porque o Partido Comunista iria sair vencedor da batalha política que se travava no nosso país. Mário Soares, apesar do aviso, não ficou no estrangeiro: desembarcou em Lisboa para liderar o contra-ataque ao Governo, chefiado por Vasco Gonçalves, e ao Movimento das Forças Armadas.
A campanha arrancou em 2 de Abril com 12 partidos. À cabeça dos boletins de voto, a União Democrática Popular (UDP). Seguiam-se, por esta ordem, o Partido de Unidade Popular (PUP), o Movimento de Esquerda Socialista (MES), o Partido Popular Democrático (PPD), o Movimento Democrático Português/Centro Democrático Eleitoral (MDP/CDE), o Centro Democrático Social (CDS), o Partido Comunista Português (PCP), a Liga Comunista Internacionalista (LCI), o Partido Socialista (PS), a Frente Eleitoral de Comunistas Marxistas-Leninistas (FEC - ML), a Frente Socialista Popular (FSP) e o Partido Popular Monárquico (PPM).
A grande batalha eleitoral travou-se entre o PCP e o PS. O secretário-geral do PPD, Francisco Sá Carneiro, estava ausente, por doença, em Londres: partira de Lisboa em 29 de Março, regressou para votar, e voltou para Inglaterra. O PPD fez a campanha liderado pelo secretário-geral-adjunto, Rui Machete. Apenas em finais de Maio, Sá Carneiro, já então em convalescença no Sul de Espanha, pediu ao conselho nacional do partido a nomeação de um secretário-geral interino - Emídio Guerreiro, que só abandonou a liderança em Setembro, quando Sá Carneiro se encontrava completamente restabelecido.
O CDS, presidido por Freitas do Amaral, entrou mal na campanha. O ‘Diário de Notícias’, na edição de 4 de Abril, dava conta da paralisação da ‘máquina’ centrista: “No terceiro dia da campanha eleitoral, apenas um partido não realizou nem anunciou quaisquer comícios ou outras sessões públicas”. O CDS era um partido acossado. Os comícios que tentou fazer na Grande Lisboa eram interrompidos – alguns a tiro. Apenas no Norte tinha alguma liberdade. Ainda assim, um comício no Teatro Jordão, em Guimarães, foi atacado com cocktails Molotov (bombas incendiárias de fabrico artesanal). A intervenção de uma companhia do Regimento de Infantaria de Braga evitou um banho de sangue. Os dirigentes do CDS só conseguiam ‘passar a mensagem’ através da televisão. Não havia, nesse tempo, tempos de antena trabalhados. Os dirigentes dos partidos iam todos os dias aos estúdios da RTP, no Lumiar, e falavam para as câmaras durante 10 minutos. A estrela do CDS nestas intervenções televisivas era Adelino Amaro da Costa: aliava aos dotes de oratória o treino a que se submetera em Londres com especialistas do Partido Conservador.
As eleições destinavam-se a eleger uma Assembleia Constituinte – que tinha como única e suprema missão fazer aprovar a Constituição. O partido mais votado, como acontece nos regimes parlamentares, não seria convidado pelo Presidente da República a formar Governo. O Movimento das Forças Armadas decidira que o chefe do Executivo devia ser um militar. O Governo em funções, o IV Provisório, era chefiado por Vasco Gonçalves, próximo do PCP - e assim devia continuar, qualquer que fosse o resultado das eleições.
Os números seguros das eleições só foram conhecidos cerca das cinco da manhã de segunda-feira, dia 26: o Partido Socialista, de Mário Soares, era o grande vencedor. O segundo partido mais votada – talvez a grande surpresa destas eleições – foi o PPD. Em terceiro lugar ficou o PCP, imediatamente seguido pelo CDS.
Os comunistas nunca perdoaram ao Presidente da República estes resultados. Culparam Costa Gomes de ter influenciado a votação quando, no dia de reflexão, sábado, se dirigiu aos portugueses pela televisão: o chefe do Estado falou tanto em socialismo, que o povo foi levado a votar no Partido Socialista – acusou o Partido Comunista. Quem conheceu o general Costa Gomes, um cerebral de inteligência superior, não acredita que as incontáveis referências ao socialismo na véspera das eleições tivesse sido inocente. Nos meses que se seguiram, o Presidente ganhou a alcunha de ‘Rolha’ – que lhe assenta como uma luva: o general conseguiu manter-se sempre à tona, evitando, com sabedoria, deixar-se afundar com uma das famílias políticas em disputa. Abriu caminho à vitória eleitoral do PS, mas manteve Vasco Gonçalves no cargo de primeiro-ministro – e nem hesitou quando Mário Soares, empolgado pelos resultados eleitorais, exigiu para o seu partido maior representatividade no Executivo: o Presidente demitiu o Governo, mas convidou Vasco Gonçalves a escolher novos ministros, o que deu origem ao V Governo Provisório.
A REVOLUÇÃO DIA-A-DIA
24 de Abril - O escritor Virgílio Ferreira publica no ‘Jornal Novo’ violento artigo sobre o PREC; Discurso ao país do Presidente Costa Gomes.
25 de Abril - Eleições para a Assembleia Constituinte.
27 de Abril - O primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, declara que é objectivo do Governo uma economia de transição para o socialismo.
28 de Abril - Congresso da Intersindical.
30 de Abril - O Conselho da Revolução reconhece a Intersindical.
MÁRIO SOARES
Foi o primeiro líder político a regressar do exílio. Desembarcou do comboio vindo de França na Estação de Santa Apolónia, em Lisboa, no dia 28 de Abril de 1974. Mário Soares teve nesse dia o primeiro banho de multidão: saudou os milhares de portugueses que o esperavam e discursou na varanda principal da estação.
Dois dias depois, foi esperar Álvaro Cunhal, que chegou de avião ao Aeroporto da Portela. Estes dois homens haviam de protagonizar a mais intensa e duradoura batalha política de que há memória em Portugal. Soares saiu vencedor.
RESULTADOS PARTIDO A PARTIDO
Nas eleições de 25 de Abril de 1975, foram eleitos 250 deputados:
PS - 2.162.972 votos (37,9 por cento) - 116 deputados
PPD - 1.507.282 votos (26,4 por cento) - 81 deputados
PCP - 711.935 votos (12,5 por cento) - 30 deputados
CDS - 434.879 votos (7,6 por cento) - 16 deputados
MDP/CDE - 236.318 votos (4,1 por cento) - 5 deputados
FSP - 66.307 votos (1,1 por cento)
UDP - 44.877 votos (0,79 por cento) - os votos concentrados no círculo de Lisboa valeram à UDP a eleição de um deputado
FEC - 33.185 votos (0,58 por cento)
PPM - 32.526 (0,57 por cento)
PUP - 13.138 votos (0,23 por cento)
LCI - 10.835 votos (0,19 por cento)
A Associação de Defesa dos Interesses de Macau, que concorreu no território sob administração portuguesa, conseguiu eleger um deputado.
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