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AS RAÍZES PORTUGUESAS DO EMBAIXADOR DA PAZ

Nas pedras de Alvações do Corgo esconde-se a história de uma família e de uma filha da terra que emigrou para o Brasil. A mesma que chocou o mundo com as lágrimas que derramou sobre o caixão do filho, Sérgio Vieira de Mello, morto no ataque ao Iraque às mãos de terroristas.
7 de Setembro de 2003 às 17:51
O resgate das recordações é feito de rua em rua, de porta em porta, no contacto directo com a população. A busca das lembranças de uma jovem rapariga que deixou Portugal, aos 17 anos, para dar alento aos seus sonhos, é uma missão marcada pela ‘borracha’ dos anos, pelo desgaste das memórias.
Perdida por entre os socalcos das vinhas e o verde intenso das montanhas, Alvações do Corgo, concelho de Santa Marta de Penaguião, revela-se uma testemunha imprescindível. E as memórias avivam-se, inevitavelmente, pela fatalidade dos últimos acontecimentos. Gilda dos Santos Vieira de Mello, mãe do alto-comissário para os direitos humanos da ONU, volta a ser lembrada. O filho, Sérgio Vieira de Mello, foi recentemente vítima de um ataque bombista à sede das Nações Unidas, no Iraque. O acontecimento trespassou barreiras e consternou o Mundo. E, apesar dos longos anos que distanciam Gilda da sua terra-natal (presentemente encontra-se no Brasil), ainda persistem vínculos familiares inolvidáveis.
José Joaquim Macedo (o pai não reconheceu o filho ilegítimo) é o único morador de Alvações do Corgo com um parentesco mais próximo da família que se procura. É sobrinho de Gilda.
Afirma nunca ter tido uma relação muito próxima com a tia, mas os laços familiares apelam ao sentimento: “Interessa-me entrar em contacto com ela, apesar, de nunca ter estabelecido qualquer contacto muito próximo”, explica Joaquim Macedo. Talvez por este ser um momento de dor. Talvez pelo percurso de vida ímpar de Sérgio. Isso desperta a atenção e interesse de todos.
Chegamos ao centro da localidade. Pelas ruas deambulam pessoas. Transportam no rosto as marcas inexoráveis dos anos. Por detrás da igreja, a casa de José Macedo, sobrinho de Gilda. De imediato prontificou-se a abrir o baú das memórias. Embora escassas, porque “quando ela se foi embora era muito jovem e, hoje, para dizer a verdade nem sei quantos anos é que ela terá”, justifica José Macedo. A memória atraiçoa-o e os relatos do passado já não têm a mesma exactidão. Episódios guarda nítidos, somente, alguns: “Vivi com os meus avós, que eram caseiros na Real Companhia Velha (Quinta no Douro), por onde ela também passava e onde nos cruzávamos de vez em quando ”.
“TRABALHADORA E DE BEM”
Gilda era a mais nova de quatro irmãos e viveu na rua do Eiró da aldeia de Alvações. A casa de família, essa, foi derrubada pela modernidade. Mas na povoação perduram reminiscências da família na memória de muitas pessoas da povoação, rotulando-a de “trabalhadora e de bem”.
De outrora até então a aldeia ganhou vida nova, pelo menos esteticamente. Mas, como nos antepassados, as formas de vida nesta terra ainda se processam segundo os moldes mais tradicionais: o campo ainda continua a ser o forte da subsistência.
Os dias desenrolam-se em comunhão com a natureza e a simplicidade característica das terras mais pequenas. Talvez por isso, a cada virar de esquina, há sempre um cumprimento, um ‘bom dia’ e até um sorriso. E, quando se fala no diplomata, as respostas são imediatas: “já não habitam cá familiares dele senão o meu sogro, o senhor José Macedo, mas se calhar ainda há quem se lembre dela (da mãe de Sérgio Vieira de Mello)” respondeu Baltazar Soares Teixeira, prontificando-se, de imediato, a percorrer connosco as recordações. “Eu cheguei a trabalhar com o José, irmão dela, de Gilda, nos anos de 61 e 62, altura em que ele era chefe da estação de caminhos-de-ferro de Chaves”, relembra Baltazar Teixeira.
Palmilhando as principais artérias da aldeia, deparam-se perante nós ruas cada vez mais estreitas. Ao fundo vive Olímpia. O marido, José Rodrigues, é o habitante mais velho da terra. “E ele orgulha-se disso “diz-nos. Mesmo não tendo uma imagem nítida, recorda a bondade e a cumplicidade da família: “eles eram boas pessoas e lidavam muito com a gente da terra. Gostavam bastante de conversar e saber as novidades cá das gentes ”, comenta.
“ERAM GENTE RICA”
Próximo do local onde, há vários anos atrás, viveu a mãe de Sérgio Vieira de Mello, os dois homens, e ainda António Gomes e o senhor Alves, descrevem como seria a moradia antes das obras a modernizaram. “Era uma casa típica. Tinha uma ramada, uma escada, uma cozinha da parte de fora e ainda tinham lagares. Eram gente rica... de posses”, relembraram em conjunto os vizinhos que completaram a ideia referindo que a família estava ligada à agricultura e sobretudo às vinhas.
Subitamente, lembraram-se que na “casa do portão vermelho”, assim designada a moradia, habitava uma senhora de idade centenária. Mas, nem os mais velhos reúnem lembranças vivas. As gerações renovam-se, as caras modificam-se. Uns ficam fiéis às origens, outros como Gilda, emigram. No caso da mãe do diplomata as memórias desvanecem-se com o tempo. O facto de nunca mais ter regressado às origens faz com que a restante população não recorde esta filha da terra. Na mesma casa habitam, também, Aninha e de Joaquim Augusto. A contar pelos dedos, recordam o nome dos outros primos de Sérgio Vieira de Mello. “O Manuel sei que está em Coimbra e vem cá muitas vezes à festa, o Toninho morreu, não sei se o Zé continua vivo mas, ele estava em Lisboa, e do Rufino não sabemos nada”, disse Joaquim Augusto, sublinhando que talvez o único que seria capaz de ter os ter vivos na memória seria mesmo José Macedo, “o primo direito que ainda vive na terra”.
“Não tenho o nome do meu pai mas tenho o bilhete de identidade a comprovar a paternidade” garante José Macedo que, com 82 anos, pouco sabe da tia Gilda. Mal podia sonhar que o diplomata da ONU, de sobrenome Vieira de Mello, de quem já tinha ouvido falar através da televisão, fosse seu parente: “Vieiras há muitos”, afirma.
Nas palavras sobressai tristeza. José Macedo está constrangido com os últimos acontecimentos: “quando surgiu a notícia chegaram a vir a minha casa perguntar se realmente era familiar do Sérgio”. Muitas pessoas reclamaram por um grau de parentesco que na verdade não tinham. Cenas dessas, ao que parece, aconteceram repetidamente. Mas, pela proximidade de parentesco, José Macedo revela-se o principal elo de ligação às raízes da família portuguesa de Vieira de Mello.
“OH, VIEIRA PASSA A SALGADEIRA”
Pelas ruelas atravessavam camponeses. Atarefada com as lides diárias, Maria Emília, relata o que sabe: “o meu António conhecia muito bem o senhor Vieira (avô de Sérgio Vieira de Mello). Mas, eu não me recordo da sua filha mais nova, a que foi para o Brasil”. Já sobre a família, Maria Emília lembra-se e conta: “naquela altura era tempo da guerra. Quem tinha as senhas do pão era o senhor Vieira…”. E quando Maria ia buscar o pão costumava cantar-lhe uma canção, tal como o resto da população: “oh, Vieira passa a senha a quem tem a salgadeira”, o que significava que tinha as senhas apenas quem as pudesse pagar.
E por que as raízes não se devem esquecer, António Liberato, presidente da junta de Alvações do Corgo, está empenhado em fazer uma homenagem a Sérgio Vieira de Mello e à sua família que, pelos dados apurados até então, tudo indica que sejam realmente naturais daquela localidade. “A senhora (Gilda Vieira de Mello) nunca se pronunciou sobre a sua naturalidade, pois não?”, questionou António Liberato, referindo que gostava que a senhora confirmasse as suas raízes, sob pena de se estar a “fazer uma homenagem a alguém que se calhar não quer que se conheça a sua naturalidade”, confessa.
Embora nos confirme que tenha já reflectido no tipo de homenagem que gostaria de levar a efeito, António Liberato prefere não falar da ideia sem que antes a coloque à consideração da população. No entanto, garante, “é uma iniciativa que espero levar a efeito a curto prazo”.
O facto de Alvações do Corgo estar nas origens de um homem como Sérgio Vieira de Mello, que tanto lutou pela paz mundial, desempenhando papéis muito activos como, por exemplo, a independência de Timor, orgulha a população.
Passo-a-passo, de porta em porta, de baú em baú de recordações, tentou-se encontrar uma vida que em Portugal foi curta e cujos registos foram apagados pelo tempo, pela idade, pelo esquecimento. Mas, apesar de pouco ou nada se lembrarem do carácter e personalidade da mãe do embaixador, todos são unânimes ao afirmarem que no mínimo, a jovem de 17 anos trazia no corpo a coragem que a fez emigrar sozinha e não mais regressar. E a ideia da família “boa” continua a persistir intacta e intrínseca no carácter, conhecido mundialmente, do sempre Sérgio Vieira de Mello.
A MÃE DO DIPLOMATA
Gilda dos Santos Vieira de Mello nasceu há 83 anos em Alvações do Corgo, Santa Marta de Penaguião, numa família com algumas posses em terra de gente pobre (ver texto principal). Aos 17 anos acabou por emigrar para o Brasil, onde se casou com o embaixador Arnaldo Vieira de Mello, de quem teve dois filhos – Sónia e Sérgio. Viúva há 30 anos, Gilda sobreviveu ‘ao menino do seus olhos’. A sua preocupação com a colocação de Sérgio Viera de Mello, no Iraque, fez com que pusesse o nome do filho dentro de uma Bíblia. O mau pressentimento, ajudado pelo facto do embaixador ter dito que não estava muito contente com a missão e que esta seria a última, tinha razão de ser. Gilda foi medicamentada para receber a notícia da sua morte, a dia 19 de Agosto, no seu apartamento de Copacabana, no Rio de Janeiro. A irmã tinha dado a Sérgio um livro de Vargas Llosa, enviado via postal para Nova Iorque. (O embaixador estava naquela cidade para entregar à ONU um relatório sobre o Iraque.) O título? ‘O Paraíso é na Outra Esquina’. Mau agoiro.
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