As sete vidas do Gato Negro

A mãe tratava-o por Vitinho. Os fãs do rock'n'roll da década de 60 chamaram-lhe Rei e Elvis. Aos 65 anos, o líder dos saudosos Gatos Negros já não incendeia plateias mas continua rebelde. Ontem voltou a cantar. Ainda não esgotou as suas sete vidas.
06.11.05
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As sete vidas do Gato Negro
Foto Sérgio Lemos
Um grupo de turistas francesas de meia-idade entra curioso no salão principal da Casa do Alentejo, em Lisboa. Há cadeiras e mesas desalinhadas, garrafas de plástico pelo chão, beatas a abarrotarem os cinzeiros. Duas empregadas da limpeza desunham-se para restituir o brilho ao local, apagar as marcas da festa de arromba da noite anterior.
Em cima do palco, Vítor Gomes faz uma pausa na actuação para a fotografia, ajeitando o esqueleto antes de exclamar num francês bem treinado: “Desculpem não ser o Johnny Halliday. Mas também não estou mal, pois não?” Elas, espantadas com o cenário, trocam sorrisinhos cúmplices, coram de vergonha. Esquivam-se a responder.
Vítor não é, de facto, Johnny Halliday. Mas já foi. Pelo menos na versão lusitana, quando há 41 anos subiu as escadinhas daquele mesmo palco e, os mesmos trejeitos, as mesmas manias, presenteou a plateia com um rock’n’roll desregrado.
Estava no auge da fama, arrastava multidões, levava as fãs à histeria. Na década de 60 era Rei com direito a trono. Primeiro do estilo copiado a Elvis Presley, mais tarde do twist, por fim do yé-yé. “Aquilo era uma loucura. Eu partia tudo. Todas as casas onde actuava abarrotavam de pessoas desejosas de me tocarem. Muitas vezes fui para o camarim todo rasgado, e até em cuecas.”
O talento para a música revelara-se no dia em que entrou pequenino, franzino, para o coro do Instituto Mouzinho de Albuquerque, pertença dos Salesianos, junto à fronteira com a Suazilândia. Tinha sete anos, vivia em Moçambique há três quando a família o abandonou ali, entregue à sua sorte.
Habituado à liberdade, sofreu muito. O pai, a trabalhar em Quelimane, não conseguia ir visitá-lo. “Eu era um puto, estava na idade em que precisava de amor, e nem sequer conseguia ver os meus pais. Era triste. Tive de enfrentar a vida com coragem.”
Além de soltar a voz no coro da igreja, o miúdo passava boa parte do tempo entretido nas lições de clarinete e jogatanas de hóquei em patins, escapes encontrados para se soltar amiúde de um colete de forças quase a sufocá-lo.
Estava no 4.º ano da escola industrial, que nunca chegaria a acabar, quando o pai assinou os papéis do divórcio e voltou a Lourenço Marques – actual Maputo –, devolvendo-lhe a soltura. Vítor sentia-se pardalito a escapar da gaiola que o prendera durante oito longos anos. “Disse logo que a mim nunca mais ninguém apanhava. Ia voar.”
Voou alto. Começou a sustentar-se de biscates, o primeiro dos quais enquanto inspector de um cargueiro. À custa disso deambulou pelas margens do mundo, conheceu Goa “antes dos indianos lhe darem a palmada”, esteve nas ilhas do Índico, pisou o Quénia. A labuta dava para tomar pulso a outras terras, gentes e culturas.
Às tantas fartou-se. Haveria de arranjar coisa melhor, pensou para com os seus botões. De regresso à cidade amada, Lourenço Marques, passou a habitar com insistência os bares junto ao cais, ‘dancings’ onde marinheiros afogavam as mágoas em amores a crédito. Ele estava mais preocupado em arranjar tabaco americano e ouvir os sons da moda saídos das ‘jukebox’. Rock’n’roll no seu melhor: Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry, Bill Haley & His Comets. “Aquela era a nossa música, e eu dançava muito bem o rock, uma coisa instintiva que aprendi nos filmes.”
Na altura em que o fenómeno do ‘som do diabo’ despontou entre a população, até então habituada a ritmos calmos, o Rádio Clube de Moçambique organizava já o concurso ‘A Hora do Caloiro’. Vítor inscreveu-se porque a sua ‘malta’ – miúdos armados em rebeldes sem causa, gingões, doses industriais de brilhantina no cabelo – achava que tinha jeito para a coisa. Ganhou “com a maior das facilidades” e recebeu o primeiro ‘cachet’: cinco contos, uma verdadeira fortuna para a altura.
Num abrir e fechar de olhos o país dava de caras com o novo ídolo da juventude: um miúdo de 17 anos, “cabelo meio despenteado caído sobre a testa”, como se lê num artigo do jornal ‘Notícias’ de 16 de Fevereiro de 1957. Luís Guilherme de Melo, que assinava o texto, estendia-se no elogio: “O rapaz é um espectáculo e um bom espectáculo em qualquer parte do mundo, mesmo em Nova Iorque, Chicago ou S. Francisco.”
Orgulhoso com a façanha, o Elvis daquela antiga colónia ultramarina coleccionava namoradas, destruía corações, dizia que só casaria lá para os 40 ou 50 anos. Na melhor das hipóteses. Enganou-se em grande estilo. À entrada na idade adulta estava a dar o nó, ainda por cima contrariado – Glória Jean, a noiva de origem sul-africana, ficara de embaraços após uma tarde mais tórrida no areal. Não havia como escapar.
Com uma filha prestes a vir ao mundo, Vítor pôs a guitarra no saco e partiu para Nampula, onde comprou espingardas e se armou em atirador. “Eu era meio selvagem, gostava do ar livre, e fui caçador profissional. Matei búfalos, zebras e trinta por uma linha, cuja carne vendia já seca nas ‘cantinas’.”
Aventureiro, cansou-se depressa dos tiros. Voltou a Lourenço Marques, onde iniciou o périplo de boite em boite, em concertos para desenferrujar a voz. Foi num desses espectáculos que o actor Humberto Madeira o aconselhou a rumar a Lisboa. No entanto ele congelou o destino com uma paragem em Angola.
Em três tempos transformar-se-ia no ‘Rei do Rock’ de Luanda. Entre 1961 e 63 ganhou calo, tornou-se profissional das cantigas, correu o país de lés a lés.
Quando se sentiu preparado fez as malas e aterrou finalmente em Lisboa. No bolso, apenas um pedaço de papel com a morada de uma residencial junto ao ‘Café Lisboa’, local de eleição para quem tentava a sorte na vida artística.
Certo dia, João Maria Tudela, que o ouvira nas colónias, disse: “Vítor, estive há umas semanas a cantar na Trafaria e há lá uns putos que têm o teu estilo. Se queres encontrar uma banda é melhor ires lá vê-los. Acho que se chamam Gatos Selvagens ou Gatos Negros.”
Vítor pôs-se a caminho, apanhou o barco e foi ver os ensaios. Ia a subir as escadinhas dos bombeiros quando começou a ouvir as guitarras. Gostou, sentiu-se entusiasmado, perguntou se podia cantar. “Olá, boa noite, gostava de falar com o chefe da banda”, disse antes de ser convidado a subir ao palco. “Eu sou o Vítor Gomes, sou cantor, venho de Moçambique e já fui o Rei do rock’n’roll lá e em Angola. Ando à procura de uma banda e o Tudela falou-me em vocês”, continuou sem falsas modéstias.
Foi amor à primeira vista. “Os gajos ficaram malucos. A malta que estava a assistir ao ensaio começou toda a dançar. Casámos logo ali”, sublinha Vítor ao regressar ao passado, antes de explicar que num instante pegou nos tarecos e na família e mudou-se para a margem sul do Tejo. Ensaiavam todos os dias, não só a música como a coreografia, sempre sob a sua batuta. O cabedal negro passou a vesti-los da cabeça aos pés.
Quando já estavam afinadinhos, Vítor dirigiu-se ao escritório de Vasco Morgado, a perguntar se ele tinha uma vaga para a sua banda no Teatro Monumental. O empresário falou noutros nomes, sublinhou que talvez um dia se arranjasse qualquer coisa. “Fiquei triste e disse: ‘não se esqueça, Vasco Morgado, o senhor ainda vai chamar por mim’.”
No mesmo dia deu corda aos sapatos, desceu a Avenida da Liberdade e só parou no Parque Mayer, onde viu uns cartazes a anunciar a festa de beneficência ao bailarino Fred, apanhado pela tuberculose e a caminho do hospital. Participava a elite: António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias.
Vítor procurou o organizador, repetiu o número da apresentação que falhara horas antes, a implorar que lhe desse uma oportunidade de mostrar a valia dos Gatos Negros. À segunda a sorte sorriu-lhe.
Na noite do espectáculo os Gatos afiaram as garras e prepararam-se para atacar. Após o repasto numa tasca das redondezas, o vocalista comprou uma garrafa de aguardente e distribuiu o néctar, tipo bomba, pelos companheiros. Estavam todos quentes quando subiram ao palco. Tão quentes que começaram em grande, numa coreografia digna de um concerto americano. Em 20 minutos passaram de desconhecidos a ídolos.
No final da actuação, Bernardino, secretário de Vasco Morgado, estava à espera dele à porta do teatro, pronto para o levar num ‘Boca de Sapo’ ao escritório do patrão. “Ó puto, amanhã estás aqui”, disse-lhe o empresário ao estender o contrato válido por cinco anos.
Vítor tinha cumprido o que afirmara meses antes.
Voltou ao Teatro Monumental, onde os Gatos Negros se estrearam com pompa e circunstância na revista ‘Boa Noite, Lisboa’. A partir daí somaram sucessos, casas cheias, concertos em todo o país. Certa noite cometeram mesmo a ousadia de encher a praça do Saldanha com milhares de pessoas loucas para verem algo inédito. Numa altura em que cinco indivíduos eram um ajuntamento, a graça deu que falar. Havia elementos da PIDE por todo o lado, não fosse o diabo tecê-las, mas acabou por correr tudo bem. “Isso foi só um exemplo. Eu cheguei a ter a PSP em frente ao palco, para não deixar a malta subir lá acima, principalmente no Sá da Bandeira, no Porto. Costumava partir o pé do microfone, a malta mandava-se ao ar.”
Noctívago dos sete costados, boémio regular, parava todas as noites no ‘Cantinho dos Artistas’, de onde saía muitas vezes às seis e sete da manhã. Famoso, nunca foi apanhado pelas ‘Ramonas’, as carrinhas da polícia que andavam a controlar as gentes da noite. Era intocável.
Em 1964, Vítor decidiu alargar a veia artística a outros horizontes. Tornou-se actor ao entrar no filme ‘A Canção da Saudade’, com o qual destapou uma faceta até então encoberta. “O Henrique Campos não perdia tempo comigo. As expressões eram minhas, estava sempre à vontade. Ele só tinha de me dizer o que queria. Logo a seguir fiz mais dois filmes, entre eles ‘A Caçada de Malhadeiro’, que não tem nada de música. E a crítica falava bem de mim.”
Transformado em estrela de cinema, Vítor Gomes entusiasmou-se. Estava a safar-se bem no grande ecrã mas o contrato obrigava-o a ir a África e a Espanha cantar temas do filme nos chamados fins de festa.
Em Angola e, principalmente, Moçambique, voltou a apaixonar-se pelo continente da sua meninice. E mais apaixonado ficou quando a Cruz Vermelha e o extinto Movimento Nacional Feminino lhe pediram para cantar para as tropas. A partir de então andou no mato denso, arriscou a vida para mostrar uma nova faceta: a de cantor romântico, ‘crooner’ à portuguesa.
O sucesso ‘Juntos Outra Vez’ era a sua bandeira, o tema que deixava os soldados lavados em lágrimas. Na guerra, já sem os Gatos, transformara-se num mensageiro da saudade, o ombro amigo que todos queriam encontrar. Nem que fosse por uma hora e meia. “Nessa altura cantava muitas canções do Roberto Carlos, de quem eu gosto imenso, do Frank Sinatra. Estava num género mais cool, como aconteceu ao Elvis, que começou no rock e entrou nas baladas. E depois tenho umas maneiras, uns truques para deixar a rapaziada embevecida”, dispara orgulhoso.
Na Rodésia, hoje Zimbabué, souberam das actuações de um português armado em Tom Jones e não hesitaram em contactá-lo. Queriam que actuasse por lá. Ele não se fez rogado porque ganharia bem, seria tratado como um Rei.
Nas nuvens, aproveitou o estatuto para sentir o perfume do paraíso, saltando para a África do Sul a convite da cadeia Holiday Inn, desejosa de vê-lo cantar nos melhores hotéis do país.
Durante três anos amealhou o suficiente para aquilo que julgava ser a sua reforma dourada: “tinha muito papel, e ainda era puto com 32 anos.” Sentiu-se então assaltado pela dúvida: voltar para Portugal ou continuar a viajar por África? Escolheu a segunda opção, naturalizou-se rodesiano “por interesse” e ali ficou, sustentado pelo negócio de engordar gado numa quinta que entretanto comprara. Com a guerra na Rodésia, Vítor Gomes viu-se obrigado a pegar na espingarda. Escapou à morte, safou-se apenas com uma mão aleijada, começou a viver o pesadelo. Quando Robert Mugabe tomou conta do país que baptizou como Zimbabué, ele, branco, aspecto fino, acreditou nas promessas de que não seria maltratado.
Durante quatro anos a vida ainda correu mais ou menos. Depois foi perseguido, forçado a sair do país. Teimoso, resistiu. Tinha ali o ganha pão, tinha empatado o dinheiro dos anos de microfone em riste. Não podia fugir assim.
Catalogado espião sul-africano, acabou preso durante dois meses, sentiu a vida fugir-lhe pelas grades. A salvação apareceu pela mão de Tina, uma britânica com a qual se juntara, que conseguiu o apoio da embaixada inglesa e fê-lo sair da cela. Numa questão de horas Vítor estava a telefonar para a secção consular da Embaixada de Portugal em Harare, a pedir um passaporte que o empurrasse dali para fora.
À chegada à Portela, respirou de alívio. Com uma mão à frente e outra atrás, mostrava-se disposto a recomeçar do zero, com 40 contos no bolso e “umas esmeraldas puras, verdinhas” guardadas à socapa no cinto. Mas aguentou pouco tempo por cá. Com a filha mais velha em França, partiu para junto dela, instalando-se como soldador. Trabalhava por contratos, corria a Europa e nos meses de Agosto aproveitava o calor para vir a Portugal.
As saudades trouxeram-no de volta em 1992. Apostado em regressar ao mundo artístico, contou com os seus Gatos Negros – José Alberto e Manuel Eixa eram os resistentes da formação antiga, já sem o rock’n’roll nas veias. Numa questão de meses tornou-se no menino bonito do T Clube. “Eram quatro noites por semana, sempre com casa cheia. E também tocava no Du Arte Garden e no Xafarix.”
Definitivamente romântico, tinha casa montada e carrito para as deslocações, muitas delas ao Algarve, por onde o coração voltou a ficar agarrado. A paixão levou a instalar-se em São Brás de Alportel. Apesar de os espectáculos terem começado bem, a certa altura Vítor viu-se traído pela revolução do karaoke. “No meio da crise apareceram também as brasileiradas, batuques que acabaram por roubar o espaço aos mais velhos. Mas eu não sou velho para cantar. Se não o que é que vou dizer de um fulano com muito mais idade do que eu que quer ser Presidente novamente?”, graceja com aquele humor que o ajudou a ultrapassar as maiores dificuldades.
Especialista na arte do desenrasca, deu a volta por cima ao descobrir nova arte: trabalhos em pedra mármore, com as quais fazia decoração em bares e casas de particulares. Uma inspiração que não dava para devaneios financeiros mas ajudava a pagar as contas.
Em Maio do ano passado, Vítor, que nunca tinha ido à cama por motivos de doença, sentiu-se mal, começou a cuspir sangue em barda. No hospital de Faro, onde esteve internado, disseram-lhe que estava entupido de tanta poeira libertada pelo polimento das pedras. “Trabalhava muitas vezes sem máscara e paguei a factura. Nunca mais pude voltar a desempenhar aquela actividade porque os médicos avisaram-me que tinha de optar entre o dinheiro e a saúde. Decidi ficar com saúde.”
Hoje, a maleita faz parte do passado. Ele só quer afiar as garras e voltar a pegar no microfone e inspirar fundo antes de soltar ‘My Way’, de Frank Sinatra.De regresso à Lisboa que o viu nascer, aguarda pelo subsídio de mérito cultural, para o qual entregou a papelada em 2004. Aos 65 anos, Vítor só pede um tecto a que possa chamar de lar. Isso e, já agora, a festa de homenagem que tarda em chegar, ou uma autocaravana que o deixe partir para novas aventuras. Uma vez saltimbanco, sempre saltimbanco.
FAMOSO A SOLO...
Vítor Gomes nunca foi homem para viver à sombra dos seus louros. Apesar de ter passado os seus anos mais gloriosos com os Gatos Negros, o vocalista também mostrou, por mais de uma vez, a sua faceta de lobo solitário. E destemido. Aconteceu, por exemplo, quando decidiu trocar os palcos pela tela e enveredou pela carreira na 7ª arte. Filmes como ‘A Canção da Saudade’ e ‘A Caçada de Malhadeiro’ fazem parte do seu currículo. Ou ainda na altura em que se tornou jogador de hóquei em patins da equipa de reservas do Clube Futebol Benfica. Talento para a modalidade, diziam na época, não lhe faltava. Afinal, Vítor Gomes viria a mostrar com o decorrer dos anos que estava destinado a ser um homem dos sete ofícios. Ao que parece, só o jeito gingão, o ar de rebelde sem causa e o blusão de cabedal preto nunca descolaram da sua pele.
E COM OS SEUS GATOS NEGROS
Destinados ao anonimato, os Gatos Negros nasceram na outra margem do Tejo, na Trafaria. Mas só se tornaram grandes quando o frenético Vítor Gomes se juntou à banda. Foi no longínquo ano de 1963 que começaram a registar um sucesso vertiginoso, que os levou mais tarde a encher as mais importantes salas de Norte a Sul do país.
É que nenhum outro grupo mexeu tanto com o rock’n’roll português como eles. Ironia do destino, não gravaram qualquer álbum. A razão é simples: Vítor jamais alinhou na maior exigência da Valentim de Carvalho – cantar os temas vindos dos Estados Unidos na língua de Camões. Versões só quando decidiu abrandar a pedalada e passar à fase de crooner. Nunca ninguém cortou as garras aos Gatos.
O HOMEM QUE DERRETIA CORAÇÕES FEMININOS
Habituado desde muito cedo a sentir o frenesim dos palcos e o calor das multidões, Vítor Gomes arrastou durante anos batalhões de fãs para os seus concertos. Entregou a voz mas sobretudo o coração a centenas de admiradoras. Muitas perdiam a cabeça, a pose e a compostura, não foram poucas as que chegaram mesmo a rasgar-lhe a roupa durante os espectáculos. Outras foram ainda mais longe: incendiaram-lhe a alma. Destas, poucas chegaram a ser conhecidas. Uma das poucas excepções foi a sul-africana Nicky Honey, sua companheira de cantilenas mil no duo 'The Blenders', formado em Maio de 1969. Mantiveram uma intensa relação amorosa, foi fogo que arde e não se vê, mas como muitas outras histórias na conturbada vida sentimental de Vítor também teve um final pouco feliz.
E cada um seguiu o seu caminho. "Foi pena. Ela era um pedaço de mulher, mas a vida é mesmo assim. Não dava para continuarmos, vínhamos de meios diferentes, com objectivos diferentes”, conta o músico, esquivo quando se lhe pergunta qual o segredo do seu sucesso enquanto Don Juan: "Não sei o que é que eu tinha, mas a verdade é que elas se apaixonavam por mim. Provavelmente, deve ser porque eu nunca lhes fiz mal nenhum. Quando estive doente foram três lá abaixo ver-me. Foram juntas e tudo. É porque eu nunca as tratei mal, senão jamais fariam isso."
UMA SEGURANÇA MUITO POUCO SOCIAL
Vítor Gomes não tem papas na língua. E quando dispara a artilharia pesada tem sobretudo por alvo a Segurança Social. "Eu dei alegria ao povo, as pessoas ficavam doidas com as minhas actuações, e estou mal na vida. O senhor Santana Lopes tem 49 anos e já está reformado, recebe 600 e tal contos por mês. O que é que ele fez a mais do que eu, que tenho uma reforma de 164 euros? O que é que um gajo faz com isso?", questiona Vítor Gomes de cada vez que a conversa vai parar à forma como tem sido tratado desde que se reformou.
Apostado em transformar-se na voz dos desfavorecidos, o 'Rei do rock'n'roll' prefere falar sobre as diversas tropelias de uma vida cheia de episódios curiosos, mas não esconde a mágoa de ter sido renegado pela Segurança Social: "O gabinete de São Brás de Alportel tratou-me muito mal. A directora mentiu-me, nunca fez nada para que eu ganhasse mais uns tostões. E merecia, pelo meu passado e, principalmente, porque nunca recusei uma acção de solidariedade. Pediam-me para cantar numa festarola qualquer e nunca fui capaz de negar. Em troca ganho uma miséria."

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