Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

As tábuas de Jamie Oliver são portuguesas

Cozinheiro inglês manda vir de Pernes as tábuas com que cozinha. Raul Violante agradece.
28 de Janeiro de 2014 às 10:18
Quatrocentos mil euros é o negócio estimado para este ano
Quatrocentos mil euros é o negócio estimado para este ano FOTO: Diogo Ribeiro

O chef inglês Jamie Oliver não sabe, mas conseguiu salvar uma empresa de Pernes, uma vila do concelho de Santarém, onde em tempos existiram mais de 30 indústrias ligadas à madeira e hoje já só restam três. Pernes, onde os grandes ‘monstros’ empresariais de outros tempos estão reduzidos ao vazio, a vidros partidos e silvas, é um pouco o espelho do que aconteceu pelo País, com as indústrias de portas fechadas e os operários nas filas do centro de emprego.

Mas o famoso chef de cozinha britânico descobriu que naquela vila com tradição de madeiras – que há vinte anos significava 600 postos de trabalho – se faziam tábuas de cozinha que podiam fazer a diferença nos seus pratos. O trisavô de Raul Violante fundou uma indústria que há pouco menos de uma década entrou em insolvência e fechou portas. "Exportávamos para todos os cantos do Mundo, mas a invasão chinesa e o exagero da ASAE na aplicação da legislação comunitária fizeram com que quer os restaurantes quer o cidadão comum começassem a repudiar a tábua de madeira, os rolos da massa de madeira, as colheres de pau na cozinha". Mas Raul, agora com 64 anos, recusou-se a fracassar num negócio que deu de comer a cinco gerações da família e que lhe estava nas raízes, e pouco depois abriu outra empresa, mais pequena, a Gradirripas, por "teimosia", num investimento inicial de 5 mil euros. Se alguém achou que a ideia era louca, o empresário mostrou que a maior loucura é não tentar de novo. "Hoje em toda a Europa está-se a voltar aos produtos de madeira na cozinha e há neste momento um grande entusiasmo pelas nossas tábuas, por parte das pessoas e dos restaurantes, invertendo aquilo que se estava a passar", conta, orgulhoso.

VENDAS EM INGLATERRA  

Foi orgulhoso também que ficou quando, há pouco mais de um ano, foi contactado pelo fornecedor de Jamie Oliver – um importador inglês de cerâmicas – para fazer as tábuas, que hoje são usadas em todos os restaurantes do chef e ainda vendidas nesses espaços a quem as quiser comprar. "Primeiro fizemos algumas amostras, depois eles enviaram alguns modelos e começámos a trabalhar em força. Graças a isso, estamos a vender em largas quantidades para Inglaterra, um eco que já chegou a outros países, como a Holanda, o Canadá, os Estados Unidos e a Polónia, todos atrás das referências do Jamie Oliver". Raul não viu, mas contaram-lhe, que o conhecido chef já referiu num dos seus programas de televisão de onde vêm as tábuas de madeira. "Disse que eram portuguesas e que a empresa se chamava Gradirripas." A celebridade da culinária tem "oito modelos diferentes de tábuas, o que representa por ano uma quota de cinquenta a sessenta mil tábuas que lhe são vendidas". Graças ao cozinheiro, Raul Violante contratou sete funcionários, antigos trabalhadores da indústria que anos antes se tinham visto a braços com o desemprego numa altura da vida em que não se previa que alguma porta abrisse. A Gradirripas continua a investir: adquiriu novas instalações e equipamentos, num investimento de 50 mil euros. "Recentemente, uma pessoa esteve no Dubai, num restaurante do Oliver, e pôs na nossa página do Facebook fotos das nossas tábuas, que não só foram à mesa com as pizas como estavam a ser vendidas lá." Há poucos dias o dono da Gradirripas teve outra surpresa agradável. "Ligaram-me do Turismo de Lisboa a dizer que tinham lá um casal de australianos que não queria voltar para o seu país sem levar tábuas da Gradirripas. Disse onde se vendiam e levaram 5."

PRODUTO NACIONAL

Raul Violante já viu alguns programas de televisão com o chef Oliver: "Sabe fazer pratos rápidos, simples e baratos, o que também é muito importante nos tempos que correm." Mas não sabe como o descobriu a ele, perdido em Pernes, enquanto tentava pôr de pé um negócio tão antigo como a sua árvore genealógica. "Foi uma surpresa o contacto. Mas sei que não o dececionámos. As nossas tábuas são feitas de produto nacional, de madeira de pinheiro bravo, e nós damos-lhes um acabamento que realça as nodosidades da madeira e lhes dá um ar rústico. É uma tábua sólida que não é feita de madeiras prensadas nem contraplacados", defende Raul, que foi "durante muitos anos" delegado distrital da Proteção Civil em Santarém, apesar de sempre ter estado ligado à indústria da família. "Quando a outra empresa fechou, podia ter ido para casa e hoje passaria o dia no café a dar dois dedos de conversa. Mas agora não imagino o meu dia sem estar constantemente a ler mails, ver orçamentos, fazer contactos para o estrangeiro." Desde que Jamie Oliver entrou em cena, os dois filhos de Raul também se entusiasmaram com a empresa, que podia ser mais um caso triste de Pernes, mas é hoje sinal de esperança.

Jamie Oliver chef tábuas madeira cozinha culinária Pernes Gradirripas
Ver comentários