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As escolhas de Maria Filomena Mónica: Orwell, sempre

Seleção de ensaios do autor de ‘A quinta dos animais’ revelam pensamento de um homem que tinha algo de ‘decente’ no sentido anglo-saxónico do termo
12 de Junho de 2016 às 12:35

Se estiver a guiar, pare; se estiver a dormir, acorde; se estiver a falar, interrompa a conversa. Porque nada é mais urgente do que comprar o livro de George Orwell, ‘Ensaios Escolhidos’, que acaba de ser editado pela Relógio d’Água.

Como o título indica, trata-se de uma selecção feita entre as dezenas de ensaios que Orwell escreveu.

Dir-me-ão que estes escritos conjunturais estão ultrapassados e que os seus livros – de que os mais famosos são os ‘Mil Novecentos e Oitenta e Quatro’ e ‘A Quinta dos Animais’ – são melhores. Não é verdade. Nem sequer o meu favorito, ‘O Caminho para Wigan Pier’, consegue ultrapassar os ensaios.

Lidos, pela primeira vez na edição, em quatro volumes, da Penguin, foi agradável reencontrar estes escritos numa edição portuguesa (em 2008, a editora Antígona já tinha publicado alguns). A capa, belíssima, reproduz uma fotografia de Orwell, sentado numa cadeira de bambu, a escrever diante de uma janela.

Comecei por reler o peculiar ‘Matar um Elefante’ (de 1936), com que abre a colectânea, prosseguindo devagarinho até chegar aos ensaios que mais me marcaram, ‘A Política e a Língua Inglesa’ (1946) e ‘Porque Escrevo’ (1946).

Eis o que Orwell diz no primeiro texto: "O inglês moderno, sobretudo o inglês escrito, está cheio de péssimos hábitos, que se propagam por imitação, mas que podem ser evitados se estivermos dispostos a fazer um esforço nesse sentido. Se nos livrarmos desse hábito, poderemos pensar de forma mais clara, e pensar com clareza é um necessário primeiro passo para a regeneração política (páginas 241 e 242). E no segundo: "Quando me sento a escrever um livro, não digo para mim mesmo ‘Vou produzir uma obra de arte’; se escrevo é para denunciar alguma mentira, para chamar a atenção para algum facto, e a minha preocupação inicial é fazer com que me ouçam" (página 331).

Além dos rótulos

O pensamento de Orwell não é simples, o que permite interpretações variadas. Segundo ele, o passado, o presente e o futuro continham coisas boas e más, ou seja, nem o passado era uma noite escura, nem o futuro um paraíso luminoso. Além de não acreditar no Progresso, amava a Natureza. Possuía um forte sentido patriótico. Preferia o campo à cidade. Desprezava as burocracias. Suspeitava da bondade dos governos.

No que dizia respeito aos costumes, era conservador, mas alimentou sempre a esperança de que os socialistas fossem capazes de dar prioridade à liberdade em detrimento do autoritarismo.

Independentemente dos rótulos políticos que se lhe queiram aplicar, há, neste homem que nos fala da resistência à opressão, das virtudes da fraternidade e do prazer de pensar livremente, qualquer coisa de ‘decente’, no senti-do anglo-saxónico do termo.

Eric Blair, o seu verdadeiro nome, era um indivíduo moralmente íntegro. Gostaria de o ter conhecido.lD

 

Título ‘ensaios escolhidos’
Autor george orwell
Editora relógio d’água

Local

Igreja da Memória 

Não sendo crente, gosto de visitar igrejas. A mais recente descoberta foi a Igreja da Memória. Se procurava água benta saí defraudada, mas a ida não foi em vão: deparei-me com a imponente urna onde estão guardados os restos mortais do Marquês de Pombal. Se a certa altura lhe aparecer um velhote (um guarda, um cicerone, um espontâneo?) proibindo-o de ali estar, não lhe preste atenção.  

 

Morada: largo da memória, na Ajuda Cidade: lisboa  

Livro

‘Esquerda e Direita: Guia Histórico para o Século XXI

Imagino que exista um abismo entre as minhas ideias e as ideias de Rui Tavares, mas do que desejo falar é deste seu livro. Hoje, é usual dizer-se que estamos todos situados ao centro, que as ideologias desapareceram e que os partidos são todos iguais. Sem necessidade de exibir erudição, Rui Tavares explica-nos que isso não é verdade.

 

autor rui tavares
livro ‘esquerda e direita: guia histórico para o século xxi’

editora tinta da china  

Iguaria

Bolo lêvedo  

Não vou falar das paisagens nem da arquitectura dos Açores, mas do ‘bolo lêvedo’, tão diferente das horríveis carcaças que se fabricam no Continente. De formato redondo, é feito à base de farinha, ovos, açúcar, manteiga, leite, fermento e sal. Oriundo das Furnas, na ilha de S. Miguel, cedo se espalhou pelo arquipélago e hoje pode ser comprado em Lisboa, no El Corte Inglés.

 

morada: Av. antónio augusto de aguiar n.º 31 Cidade lisboa  

Fugir de:

Gravuras de Vila Nova de Foz Côa  

Em 1996, um grupo de gente estranha montou uma campanha contra a construção de uma barragem no Vale do Côa, com o argumento de que tal facto iria tornar invisível um núcleo de arte paleolítica, a que, até à data, ninguém dera a menor atenção. Sob o slogan ‘As gravuras não sabem nadar’, criou-se um ‘Parque Arqueológico’, hoje em decadência. Afinal a ‘Humanidade’, tão ciosa do seu património, desinteressou-se da coisa.



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