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As memórias do ídolo da arena

José Mestre Baptista revolucionou o toureio com o seu carisma e a sua forma peculiar de cravar ferros
Vanessa Fidalgo 5 de Julho de 2015 às 16:30
Emeletina e José Mestre Baptista conheceram-se no Picadeiro de Oeiras
Emeletina e José Mestre Baptista conheceram-se no Picadeiro de Oeiras FOTO: Mariline Alves

De mestre nasceu só com o nome, mas a vida fez-lhe jus e tornou-o efetivamente exemplo e mentor de muitos aficionados da lide. José Mestre Baptista morreu há 30 anos e foi considerado o mais revolucionário cavaleiro tauromáquico português. Levou a vida "a olhar de frente para o perigo e a adversidade". Homem de "fé e riso fácil, vivia intensamente cada momento", segundo a mulher com quem se casou em segredo, em dia de corrida. Quinta-feira, no Campo Pequeno, na Grande Corrida Correio da Manhã, o mestre será homenageado.


Nascido a 30 de maio de 1940 no Monte do Bonical, freguesia de São Marcos do Campo (Reguengos de Monsaraz), demonstrou desde criança o grande desejo de vir a ser cavaleiro, mas começou por montar um burro, com o qual fazia as maiores traquinices, desde simular faenas até subir as escadas da igreja.


Depois da instrução primária feita em São Marcos do Campo, passou a frequentar um colégio em Évora, de onde as fugas eram constantes. Os cavalos eram o seu fascínio e os livros pouco ou nada lhe interessavam. Mais tarde, porém, viria a ser um amante da arte antiga e até as colunas do seu tentadero em Vila Franca eram de inspiração grega, para que a sabedoria ali habitasse também.


Depois de abandonar definitivamente  a escola, regressou então a São Marcos do Campo para ajudar os pais na lavoura e aos doze anos, mesmo sem ter na família tradições equestres, começou a tourear.  


Assim seguiu em frente, como amador durante quatro anos. Recebeu a alternativa de cavaleiro tauromáquico profissional a 15 de setembro de 1958. Mas foi só à segunda tentativa, coisa inédita na história do toureio português. Três meses antes, vira o testemunho para a profissionalização ser-lhe recusado pelos seus pares. "Uma malandrice que lhe fizeram", reconhece o crítico tauromáquico Maurício do Vale. "Talvez os outros se sentissem desafiados…", diz Emeletina Baptista, a viúva do Mestre. E não andarão, nem um nem outro, longe da verdade.


PAIXÃO EM SEGREDO

Emeletina e José Mestre Baptista conheceram-se no Picadeiro de Oeiras, onde o cavaleiro guardava os seus cavalos e ela praticava equitação. Não foi logo amor à primeira vista. "Até porque pouco tempo depois de o conhecer fui estudar para fora", recorda. Passaram-se anos até regressar a Portugal. Um dia, foi ver uma tourada e José, mesmo do meio da arena, reconheceu-a. Namoraram apenas alguns meses e casaram-se em segredo, na casa do apoderado do Mestre Baptista, num apartamento no Campo Pequeno.


Em segredo porque nessa mesma noite ele tinha de tourear em Vila Franca de Xira e achava-se à época que isso prejudicaria a sua carreira. Mestre Baptista cumpriu o destino. Deixou a noiva momentos depois da troca das alianças e foi enfrentar os touros. Saiu vitorioso da corrida. A cerimónia religiosa aconteceria alguns dias mais tarde, na Igreja de Santo António, em Pádua, Itália, na presença dos pais dela. "Eles achavam que o casamento era nosso e, portanto, só a nós nos dizia respeito. Por outro lado, foi uma forma de não interromper a temporada", justifica.


O mesmo local onde encontrou a mulher da sua vida ficou também marcado pela tragédia. Em 1967, o mar subia e a ribeira de Belas transbordou as margens na Baixa de Oeiras. A fúria das águas levou tudo à frente, incluindo os cavalos com que costumava tourear. "O José não era um homem de posses, ao contrário da maioria dos cavaleiros tauromáquicos. Era filho de lavradores, começou por montar um burro e só mais tarde comprou o seu primeiro cavalo, o ‘Ideal’. Uma casaca tinha de durar vários anos e, nesse mesma lógica, quando ele perdeu todos os cavalos com os quais trabalhava teve de recomeçar tudo do zero", recorda a viúva, que todos conhecem no meio tauromáquico por Dona Tina.


José não esmoreceu. Foi para a sua casa no Monte Gordo, Vila Franca de Xira, e começou a experimentar cavalos que as gentes das cercanias generosamente lhe traziam. Ficava naquilo até às duas ou três da manhã, se fosse preciso. "Ele gostava de descobrir o cavalo certo. Chamavam-lhe a atenção quando murchavam a orelhinha, ou seja, quando olhavam para baixo para prestar atenção a tudo o que se passa em seu redor. Uma vez arranjou um cavalo assim numa feira... Chamou-lhe a atenção porque era atento", recorda.


DIFERENTE DOS DEMAIS

Mas Mestre Baptista distinguia-se muito mais na arena, onde até no traje era original. Foi o primeiro a usar casaca curta e a dispensar as entretelas. "Ele, que já era asmático, dizia-me muitas vezes: ‘Ó Tina, tu não sabes o que é tourear no 15 de agosto em Reguengos com este peso todo em cima. Eu não aguento!"

Então, Tina, que durante muitos anos desenhou as casacas que depois eram bordadas por uma tia, começou a despojá-las de tudo o que na verdade não fazia falta. Tirou-lhe as forras de lona, encurtou o tamanho e logo isso foi considerado revolução nas arenas. Também toureava de manga curta, coisa até ali nunca vista. Tinha o cabelo comprido, numa espécie de Beatlemania levada para o tentadero, a que os conservadores franziam o sobrolho mas que agradava e muito às gerações mais jovens.


"Ele afirmou-se na forma e no conteúdo", frisa o crítico tauromáquico Maurício do Vale, que com ele travou uma longa amizade e que viria até a compor um fado em homenagem a Mestre Baptista, mais tarde gravado pelo fadista João Braza.


"Emprestou um conceito à lide a cavalo revolucionário, que consistia em fitar os touros de frente, deixá-los avançar, deixar o cavalo meter-se à frente do touro para então depois fazer o tal píton contrário e meter os tais ferros à Baptista. Tinha um carisma muito forte na vida e na maneira de tourear. Aquilo eram ferros que deixavam as bancadas assustadas e claro que, tal e qual uma estrela do rock, começou a emocionar as pessoas e a arrastar multidões. Tinha claques de apoio, mas também tinha anticlaques, mas a essas ele fazia questão de dar uma volta na arena no fim e de agradecer com um sorriso. Desafiava tudo o que porventura se colocasse no seu caminho. Era uma questão de personalidade." 


Um caráter que rapidamente granjeou seguidores, como o cavaleiro Joaquim Bastinhas, seu afilhado de alternativa. "Desde miúdo, ainda não sonhava ser toureiro, mas como já tinha cavalos e era filho de gente aficionada, gostava muito de tourada e já sonhava me imaginava a receber a alternativa das mãos do Mestre Baptista. Ele era o ídolo da minha geração e de outras que se seguiram. Toda a gente queria imitar os ferros à Baptista. Realmente esse dia chegou e se há palavras que guardarei para sempre na memória são as que ele me disse nesse dia. De que, acima de tudo, deveria ter respeito ao meu público", recorda o cavaleiro, que na quinta-feira também participará na homenagem.

Mas o coração ao rubro de uns era a aflição de outros, como o de Tina. "Sofria muito quando o via na arena. Aquilo eram uns ferros que nos deixavam com o peito preso. Mas nunca senti que ele fosse morrer na arena… Achei que fosse na estrada. Ele conduzia com a mesma loucura com que toureava. Tinha uma noção das distâncias incrível, mas um dia podia ter uma surpresa… Mas não foi uma coisa nem outra."


José Mestre Baptista morreu em 1985, vítima de um ataque de asma que o conduziu a uma paragem cardíaca, nos braços da mulher e à frente do filho único, num hotel em Zafra, Espanha. Tinha apenas 45 anos. Emeletina não foi a única a ficar em choque. Embora já se tivesse praticamente retirado das arenas porque a sua condição física se agravara nos últimos anos ("muitas vezes quando ia às trincheiras buscar as bandarilhas já tinha de parar para respirar", recorda Maurício do Vale), milhares de fãs demoraram a recompor-se.


No museu em sua homenagem, inaugurado no ano passado em Reguengos de Monsaraz, há milhares de cartas enviadas por aqueles que o idolatravam. Uma esmagadora maioria tem caligrafia e remetente feminino. "Ele era um ídolo e com aquele carisma… as mulheres rendiam-se. Na praça havia cenas de autêntica histeria", recorda o crítico.


Já Emeletina encarava a concorrência com fair-play. "A culpa não era dele, certo? Sinceramente, as cartas nunca me incomodaram, apenas a atitude de certas no cara a cara, que às vezes ultrapassava todos os limites do bom senso." Na enorme braçada de postais e telegramas, há mensagens que só por força da popularidade do mestre chegaram ao destino. "Havia cartas que vinham lá de fora e que apenas diziam ‘Mestre Baptista - Portugal’. Não sei como é que os CTT faziam aquilo, mas a verdade é que lá iam perguntando e as cartas chegaram sempre ao destino, apesar de termos mudado diversas vezes de casa", recorda a mulher.

Em casa era um homem de fé, embora não gostasse de o demonstrar em público. Devoto de Nossa Senhora d’Aires, foi suplicando-lhe que se despediu da vida. Ria muito e aqueles que o amavam só o viram chorar duas vezes: no funeral da mãe e numa homenagem que lhe foi prestada pelos 25 anos da alternativa na sua terra natal.

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