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Atchim! Chegou a primavera

O aumento da concentração de pólen no ar põe 20 por cento dos portugueses a espirrar
Vanessa Fidalgo 1 de Maio de 2016 às 14:03
Chegou a primavera e, com ela, os espirros, a tosse e os olhos a lacrimejar por causa da famosa alergia. Os principais culpados são os pólenes, mas há muitos outros fatores que podem agudizar ou desencadear as crises de polinose que afetam mais de 20 por cento da população nacional.

"Em Portugal, e devido a várias condicionantes ambientais, o problema da alergia é ainda mais premente, pois muitos doentes encontram-se polissensibilizados, isto é, são múltiplos os alergénios que lhes desencadeiam sintomas: ácaros, pólenes, animais domésticos, fungos ou insetos. Nestes casos, a primavera é apenas mais uma época do ano em que ocorrem sintomas, com muito maior intensidade, pois é a estação polínica predominante e as elevadas concentrações dos pólenes na atmosfera desencadeiam sintomas muito perturbadores da qualidade de vida. Mas não nos podemos esquecer de que outros alergénios continuam presentes e contribuem para o impacto destas doenças", afirma Mário Morais de Almeida, presidente da Associação Portuguesa de Asmáticos e presidente-cessante da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

As más notícias é que as polinoses manifestam-se cada vez mais precocemente, muitas vezes ainda em idade pediátrica, e a sua gravidade aumenta de ano para ano. "E também progride, de sintomas nasais e oculares (rinoconjuntivite), pode evoluir para sintomas pulmonares (asma)", acrescenta o especialista.

Quem são os culpados
A culpa é dos pólenes libertados pelas múltiplas espécies vegetais existentes no nosso país e que polinizam por ação do vento, como as gramíneas (fenos), sobretudo "se não houver chuva, a temperatura estiver alta e existir vento", fatores meteorológicos que determinam maiores ou menores concentrações de pólenes no ar.

Mas, por incrível que pareça, alguns estudos epidemiológicos têm demonstrado que residir numa área poluída, em particular com muito tráfego automóvel, duplica o risco para nos tornarmos alérgicos aos pólenes.

"Há um efeito aditivo, potenciando-se mutuamente: os poluentes interagem com os pólenes, alteram a sua conformação, aumentando a sua "agressividade", tornando-os com maior capacidade para desencadear manifestações alérgicas; ao mesmo tempo, os pólenes desidratam-se e, ficando mais pequenos, conseguem penetrar mais profundamente nas vias aéreas. As partículas dos poluentes, atuam ainda como transportadoras dos pólenes na atmosfera. Por outro lado, os poluentes são capazes de agir diretamente sobre as vias aéreas dos indivíduos, funcionando como irritantes, agredindo a mucosa, levando a processos de inflamação, aumentando a permeabilidade e o efeito dos pólenes", garante o alergologista Mário Morais de Almeida.

Nesta altura do ano, mesmo em áreas urbanas, os níveis de pólenes encontram-se em concentrações elevadas, uma vez que os grãos transportados pela ação do vento podem facilmente deslocar-se em grandes distâncias, ou seja, até aos 100 km.

O estilo de vida nas urbes também não ajuda, segundo o especialista: "O facto de a população passar mais tempo dentro de casa (expondo- -se mais a alergénios e poluentes), menor prática de exercício físico, o aumento do fumo do tabaco, as alterações dos regimes alimentares, uso e abuso de antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos, a obesidade, entre outros, são apenas alguns dos fatores que se sabem ter predisposto para a quase "epidemia" de doenças alérgicas que tem ocorrido nas últimas décadas".

Mas entre nós é também muito frequente a alergia à erva parietária, muitas vezes conhecida por alfavaca de cobra. "De entre o grupo das chamadas ervas daninhas é a que motiva mais alergias. No que diz respeito às árvores, a oliveira é, no nosso país, a principal causa de alergia. O seu período de polinização é também na primavera. Mas existem outras, como o cipreste, que poliniza no inverno, embora os sintomas possam não ser tão percetíveis por via das condições climatéricas. Já para não dizer que, no inverno, as alergias são muitas vezes confundidas com constipações…"

Abate de árvores
E uma palavra deve ser dita sobre a confusão gerada pelos conhecidos "algodões brancos" que vão andar no ar nas próximas semanas e que uma grande parte da população identifica como origem de sintomas. "Mas, na verdade, não são causa de doença, pois correspondem a sementes das árvores de grande porte, como choupos e plátanos, que já polinizaram nos meses anteriores (podendo esses pólenes ter provocado queixas que foram identificadas como "constipações", pois ainda estávamos no final do inverno) e que não têm capacidade para desencadear alergias. E os verdadeiros agentes de doença (os pólenes de fenos, ervas e de árvores) estão por perto, mas como não se veem à vista desarmada lá se culpam os inocentes algodões", avisa Mário Morais de Almeida, que no entanto realça o esforço que as autarquias têm feito para escolher as árvores mais adequadas para ornamentar os seus espaços verdes, em estreita colaboração com a Sociedade Portuguesa de Alergologia.

No entanto, à conta das queixas, já muitas árvores inocentes foram abatidas. "E em alguns casos, as alergias podem ser apenas uma desculpa", avisa o ambientalista Francisco Ferreira, especialista em qualidade do ar, ex- -dirigente da Quercus e atual presidente da ONG Zero. "Muitas vezes, as câmaras optam por espécies de crescimento rápido, mas que não são as mais apropriadas, podendo causar desde maiores concentrações de pólen ao desgaste dos solos. Há que saber fazer escolhas… optar por espécies autóctones, de folha persistente em vez de folha caduca, que consumam menos água e sem dúvida que a questão das alergias também pode e deve ser pensada no planeamento das cidades".
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