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Augusto Cid: "Pedi a Eanes para não levarem um cão com problemas de barriga"

O autor que teve livros apreendidos depois do 25 de Abril fala de uma vida marcada pelos cartoons e pela investigação de Camarate.
14 de Outubro de 2012 às 15:00
Augusto Cid com alguns dos milhares de cartoons que publicou na imprensa portuguesa
Augusto Cid com alguns dos milhares de cartoons que publicou na imprensa portuguesa FOTO: Sérgio Lemos

Correio da Manhã - Depois de décadas a desenhar figuras como Sá Carneiro, Soares e Cunhal, ter Passos Coelho e Paulo Portas no seu último cartoon publicado na imprensa não lhe sabe a pouco?

Augusto Cid - Foram as circunstâncias da actualidade. Até podiam ser secretários de Estado...

- Terminar a carreira de cartoonista político era algo que tinha planeado ou aconteceu alguma coisa que o fez decidir?

- Estava há algum tempo a pensar nisso. Já tinha havido um desconto substancial no meu ordenado, mas como gosto de lutar pelas causas em que acredito, continuei no 'Sol'. Quando me tiraram outra fatia grande, vi-me impossibilitado de o continuar a fazer. Um cartoon tanto pode demorar uma hora como cinco a ser feito e as pessoas pensam que é bem pago. Esquecem-se de todo o material que precisei de armazenar na cabeça, as revistas e jornais que tive de comprar, os programas que tive de ver... Agora estou virado para a escultura e a preparar um livro sobre a minha comissão militar em Angola.

- Quantas ideias para cartoons teve desde que tomou esta decisão?

- Não muitas, porque tentei desligar-me. Pensei que esta história do António Borges [quando pôs em causa a inteligência dos empresários portugueses] dava um bom cartoon, mas fiz um esforço para não pegar nisso.

- Quantos cartoons publicou em jornais ao longo destas décadas?

- Não tenho isso contabilizado, mas foram uns milhares.

- Qual foi o primeiro?

- Não é fácil dizer. Comecei antes do 25 de Abril, mas já tinha desenhado e publicado cartoons nos EUA, no ano em que lá estive a estudar. Eram sobre política americana e tinham muito pouca repercussão, pois saíam num jornalinho local de Laguna Beach.

- Quais eram os seus alvos nessa altura?

- Era o Nixon. Abri os olhos para o cartoon político nos EUA.

- Mudou alguma vez a forma de fazer os cartoons?

- Usei sempre as mesmas técnicas, mas nos primeiros jornais eram cartoons a preto e branco, pelo que usava tinta da china. Quando se abriu a possibilidade de passar para cor passei a usar guache e a tratá-lo como se fosse aguarela.

- Nunca pôs a hipótese de fazer o trabalho em computador?

- Tentei duas vezes e o cartoon não me pareceu genuíno. Entendo que o desenho e a pintura devem mostrar o traço e o toque de pincel que estão na origem dessa intervenção.


- Nasceu no Faial em 1941, quando os Açores tinham uma importância estratégica na II Guerra Mundial. Guarda recordações desses tempos?

- O meu pai foi destacado como tenente de artilharia para o Faial e a minha mãe foi ter com ele. Nasci lá por acaso. Não tenho ninguém de família nos Açores. Aos sete ou oito meses tive uma infecção intestinal bastante grave e disseram que não havia nada a fazer. O meu avô, que era médico, mandou que me enviassem imediatamente para Lisboa e vim num avião militar. Julgo que ainda guardo recordações do voo, mas se calhar é tudo imaginação.

- Como é que foi parar aos EUA?

- Estava no Colégio Moderno e descobri o intercâmbio de estudantes. Falei com o meu pai e ele, convencido de que não seria apurado, disse-me para ir à entrevista na embaixada nos EUA. Arranjaram-me uma família com um engenheiro civil, como o meu pai. Fiquei bem instalado e foi uma mudança radical na minha vida.

- Que ideia tinha de Salazar e do regime?

- Não era metido em nada de política, mas estive para ser preso em 1964. Entendi que tinha qualificações para o curso de oficiais, mas disseram-me que tinha que ter o diploma do liceu americano autentificado pela embaixada dos EUA. Achei justo, mas nunca passei para o curso de oficiais milicianos e só depois percebi a razão. Quando estava à espera que isso se resolvesse alguém me perguntou quando passava para oficial e eu disse: "Não faz mal. Quando chegar a África passo para o inimigo e vou logo para coronel em vez de ser um simples alferes." O tipo que me ouviu era informador e a PIDE destacou dois elementos para irem buscar-me a Tavira, onde estava a fazer a recruta. Não tiveram sorte porque o comandante tinha muita coragem e deu dez segundos para desaparecerem dali.

- Como se chamava esse comandante?

- Já não me lembro do nome dele. Sei que veio a morrer mais tarde na Guiné, em combate. Era um homem excepcional. Chamou-me e disse: "Ó Cid, vamos lá parar com as graças!" Lá se foram os meus créditos de lutador antifascista...

- Teve a hipótese de escapar à Guerra Colonial?

- O meu avô era um republicano dos quatro costados e não achava graça nenhuma que fosse para o Ultramar, por todas as razões. Arranjou-me um iate em Portimão que me iria levar para Marselha. Daí iria para Paris, para estudar Belas-Artes. Convenhamos que era convidativo...

- Mas não aceitou.

- Pensei no assunto, mas deu-se um incidente curioso. Tive uma gripezeca quando estava em Tavira e fui parar à enfermaria. Havia lá um camarada que não aparentava ter nada. Perguntei-lhe o que é que ele tinha e ele fez assim (faz círculos com o dedo à volta da testa). "Este tipo não regula bem da cabeça", pensei eu. Fiquei um bocado embaraçado e ele disse-me: "Estás a pensar que sou maluco? Olha melhor." Ele não tinha parte do osso da testa. Teve um acidente e ficou em coma durante seis meses, mas foi apurado na inspecção. "Não vêem que tenho isto na cabeça? Qualquer pessoa pode matar-me com um dedo." Responderam-lhe: "O senhor não sabe que distribuímos capacetes?" Decidi naquele momento que iria para o Ultramar. Não conseguia, em consciência, sair dali e deixar as outras pessoas naquela situação.


- Quando embarcou para Angola levava a ideia de que poderia nunca mais voltar?

- Não sou assim tão dramático. Alimentei a ideia de que ia fazer uma reportagem e era um dos poucos que levava máquina fotográfica. Podia ter sido alferes, mas como furriel miliciano acabei a comandar um grupo de combate, porque fomos parar ao Leste de Angola e a minha unidade dividiu-se, uma vez que a minha companhia tinha que cobrir uma área maior do que o Alentejo.

- Chegou a matar alguém durante os combates?

- Julgo que não. No Leste o MPLA criou uma táctica de emboscada que demorava segundos. Eram emboscadas dirigidas à primeira viatura. Durante 15 segundos havia fogo muito cerrado e depois fugiam, com medo de que a cauda da coluna fizesse um envolvimento. Mas eram muito eficientes e faziam muitos estragos.

- Como é que o mudou ver camaradas feridos ou mortos?

- Tive a sorte de não ter nenhum morto no meu pelotão, mas morreram pessoas que estavam no aquartelamento. Tive um amigo oficial que estava a fazer implantação de minas e caiu ele próprio na armadilha. Chamámos o helicóptero, mas quando chegou já era tarde. Um cãozinho pequeno que ele tinha ficou a lamber-lhe o sangue enquanto agonizava. Nem tive coragem para tirar fotografias.

- Mantém contacto com os soldados do seu pelotão?

- Fazemos almoços do batalhão. Normalmente é em Outubro, que foi o mês de embarque. Este ano até vamos passear para a Madeira três ou quatro dias.

- Como será o livro de memórias que vai escrever?

- Vai-se chamar 'Salazar não está Cá'. Arranjei este título porque, durante um ataque muito violento ao destacamento de Caripande, eles faziam intervalos para gritarem slogans. E um dos slogans foi 'Morte ao Salazar!' Nisto fez-se um grande silêncio, levanta-se um soldadinho da trincheira e diz, com voz de falsete: "O Salazar não está cá!..." Não era para fazer graça - decidiu informá-los de que tinham vindo ao engano. Dá-se uma gargalhada que passa pelos soldados todos e pouco depois os tipos recuam e vão embora.

- Onde estava no 25 de Abril?

- Na minha casa, em Belém, muito perto do regimento de Cavalaria 7, pelo qual fui mobilizado para o Ultramar. Tendo experiência de combate e de guerra, decidi que devia apresentar-me. Mas aquilo parecia a guerra do Solnado. O portão estava fechado, fartei-me de bater e lá apareceu um soldado. Disse-lhe: "Há uma revoluçào e com certeza já aderiram." Mandou-me esperar um bocado e depois veio um oficial e eu fiz-lhe a mesma pergunta. "Ainda não está nada decidido", respondeu.

- Que horas eram?

- Nove e pouco da manhã. E eu também fui pensar para a cama. Mais tarde saí com a máquina fotográfica para fazer a reportagem.

- Durante quanto tempo viu o que tinha acontecido como uma festa?

- Fiquei muito mal impressionado com o 1.º de Maio. E todas aquelas promessas, sobretudo as relativas ao Ultramar... Suspeitei daquilo tudo e depois assistimos ao desastre que foi a 'descolonização exemplar'. Há responsáveis que nunca foram chamados à pedra.


- Tornou-se logo militante do então PPD?

- Além de militante desde Maio de 1974, sou o autor das famosas setas. Ingressei no jornal do partido, o 'Povo Livre', onde fazia cartoons, e estive lá até a AD ir para o Governo. Quando isso aconteceu, fui ter com o Sá Carneiro, de quem era bastante amigo e disse-lhe: "O sr. dr. vai desculpar, mas uma coisa é fazer desenhos num órgão de um partido que está na oposição e outra é o partido chegar ao poder e eu passar a ter que fazer desenhos que o apoiem. Não contem mais comigo."

- Tem a firme crença de que um cartoonista tem que ser um contrapoder...

- Absolutamente. Houve quem nunca entendeu porque é que atacava com violência as pessoas que eram do partido. Esperava mais deles e a desilusão foi maior.

- Mas tinha e tem uma grande admiração por Sá Carneiro...

- Isso é inultrapassável. Se calhar ele não teve tempo para me desiludir, pois só esteve um ano no poder. Era um homem excepcional e foi por isso também que morreu. Fiz vários cartoons de Sá Carneiro quando ele era poder. Não eram tão mauzinhos quanto outros, mas não deixei de o criticar quando era poder. E o verdadeiro poder dessa altura era o Conselho da Revolução.

- Quais foram os maiores dissabores que teve naquela época?

- Para não falar dos livros apreendidos, invadiram a minha casa e remexeram tudo sem levar nada. Os poucos pertences de valor foram deixados no corredor para mostrarem que podiam levar tudo e não só o passaporte. O quarto das minhas filhas foi virado ao contrário, o que as deixou traumatizadas... Isso foram aspectos que eu não desculpo.

- Já encontrou alguém que tenha admitido que lhe fez essas coisas?

- Não. Tentei encarar isto com humor... Uma vez cheguei a casa, vi a porta arrombada e reparei que o tapete da porta tinha uma ondulação. Levantei-o e vi uma bosta enorme, que tinha de ser de cão. Levaram um pastor alemão para fazer segurança enquanto faziam as coisas lá dentro. Publiquei uma carta dirigida ao general Ramalho Eanes a pedir-lhe que da próxima vez não levassem um cão com problemas de barriga, porque foi uma chatice ter de limpar a escada.

- Obteve resposta?

- Nenhuma. A pessoa que recebeu a carta no Palácio de Belém 'encaixou'.

- Desiludiu-se com Ramalho Eanes ou nunca chegou a ter ilusões?

- Ele nunca devia ter sido Presidente da República. Aquela hipótese foi apresentada ao Sá Carneiro por outras pessoas e ele também se arrependeu. Não vou dizer que fosse má pessoa, mas era impreparado. Tinha algum poder sobre as chefias militares, mas não era a pessoa indicada para governar o país. Foram dez anos de atraso que este país teve. Ele nunca percebeu a minha crítica e levou a mal quando inventei aquela história do 'Superman'. Achou que era um ataque pessoal e à sua família, mas não era o caso.

- Ficou surpreendido com a apreensão dos livros?

- Inicialmente sim. Depois fui-me habituando. Apreenderam-me três: 'Superman', 'Eanito el Estático' e 'O Último Tarzan'. No primeiro processo, relativo ao 'Superman', o Ministério Público nomeou um acusador e ele fez a minha defesa de tal maneira que o José Miguel Júdice, que era meu advogado, disse que não sabia o que estava a fazer ali. Mesmo assim o juiz condenou-me a pagar 200 contos ao general Ramalho Eanes. Não cheguei a fazê-lo porque depois houve uma amnistia para crimes de abuso de liberdade de imprensa.


- Cunhal era outro dos seus alvos favoritos. Teve alguma reacção dele?

- Uma vez chegou-me um indivíduo a casa e disse-me que vinha da parte do Partido Comunista, pois precisava de uma boa caricatura de Álvaro Cunhal. Cedi-lhe duas ou três e o homem saiu de lá todo contente. É sinal de que, de certa forma, tinha alguns admiradores no PCP.

- Já o seu Mário Soares tendia a ser bonacheirão.

- Isso é o feitio dele. Um cartoonista deve conhecer bem quem desenha e também do ponto de vista psicológico.

- É mesmo verdade que Soares se queixou do tamanho das bochechas que lhe fazia?

- Queixou-se à Vera Lagoa, mas não estava ofendido. Foi sempre uma pessoa com 'fair play' e às vezes até me pedia cópias de cartoons. Isto, de certa forma, é desarmante.

- Como é que lhe surgiu a ideia de os desenhos de Pinto Balsemão não terem rosto?

- Ele pensa que o estava a atacar, mas não foi nada disso. A verdade é esta: tentei fazer várias vezes o rosto do Balsemão e não conseguia. Só quando apagava para recomeçar é que surgia a cara dele. Então resolvi prescindir do nariz e dos olhos.

- Ele veria os cartoons como uma traição de alguém da sua área política?

- A leitura que ele fez é que, ao não lhe desenhar rosto, estava a dizer que não tinha carácter. Quando foi primeiro-ministro publicou um livro chamado 'O Rosto', cuja capa é a cara dele em grande plano. Foi uma obra de humor imbatível, pois os assessores tornaram o personagem mais ridículo do que eu seria alguma vez capaz. Numa passagem lia-se que ele se levantava com o pôr-do-sol...

- Se calhar era vampiro...

- Um deputado socialista que leu passagens do livro no plenário explicou que já se percebia o estado do governo com um primeiro-ministro que se levantava ao pôr-do-sol (risos). E ele mandou retirar o livro.

- É abusivo dizer que não tinha Freitas do Amaral em grande conta?

- Nunca demonstrou, pelo menos até uma certa fase, a coragem e frontalidade que eu via no Sá Carneiro. Quando se deu Camarate, aceitou praticamente tudo o que o PSD quis fazer e a investigação foi mal feita de início, o que viria a ser usado como desculpa pelo governo da AD que se lhe seguiu. Depois redimiu-se.

- Quando?

- Em 1981 impediu o governo de Balsemão de dar por fechado a investigação de Camarate com o relatório da Polícia Judiciária. Aquilo era de tal forma absurdo e inacreditável que ele não aceitou. Foi preciso coragem para tomar aquela decisão solitária.


- Onde estava quando o avião caiu?

- Acabava de chegar a casa, cerca das oito e meia. Vi na RTP e não tive dúvidas sobre o que tinha acontecido. Fui para a sede do partido e dei com uma cena que nunca vou esquecer: a Conceição Monteiro estava a despachar, como secretária, e a contactar o Freitas como se não se tivesse passado nada. As pessoas abraçavam-se-lhe a chorar e ela dizia: "Não vêem que estou a trabalhar? Não vêem que estou ocupada?" Achei aquilo estranhíssimo e depois percebi as razões desse comportamento, que guardo para mim.

- Nunca irá escrever sobre essas razões?

- Posso dizer que em 1982 andei pelo país todo a fazer sessões de esclarecimento sobre o que já tinha conseguido apurar e o único sítio onde fui impedido de o fazer foi na secção do PSD onde a Conceição Monteiro residia: a secção do PSD na 'Voz do Operário'.

- Pôs alguma vez a hipótese de Camarate ter sido um acidente?

- Comecei por explorar todas as hipóteses ao longo de meses. Fui aos EUA de propósito para comprar livros sobre acidentes com aviões ligeiros e não havia caso algum de uma queda após descolagem por falta de gasolina. Nem um. Está hoje provado que a tese de acidente foi pura invenção. Mas repare que o PSD emitiu um comunicado na noite de 4 de Dezembro, já era madrugada de dia 5, no qual dava como completamente excluída a hipótese de acto criminoso. Diga-me lá: abriu-se um inquérito para apurar o quê? Só podiam concluir que era um acidente.

- A tese bondosa é que os dirigentes do PSD quiseram evitar a guerra civil...

- Esconderam-se por detrás desse argumento, que só poderia durar uns dias.

- Era plausível uma guerra civil naquela altura?

- Não. Houve uns telefonemas do Norte, de pessoas que estavam a ir buscar as suas espingardas e caçadeiras, mas estavam a fazê-lo porque não sabiam o que vinha a seguir. Era mais um acto de defesa do que querer matar alguém. Aqui em Lisboa fizeram uma leitura diferente, na qual o País estava em risco de se levantar aos tiros e haveria centenas de mortos.

- Quem mais o decepcionou no PSD nos dias a seguir à morte de Sá Carneiro?

- É muito difícil dar-lhe uma lista. Notei que inúmeros políticos se acomodaram com a nova situação e achavam que era preciso olhar em frente e continuar a vida. Mas a vida não continua da mesma maneira quando há uma coisa daquelas. Há acontecimentos que mudam a História e este é um deles.

- Como seria o país se Sá Carneiro e Amaro da Costa não tivessem morrido?

- Não sei, mas deixe-me dizer outra coisa. No início não tinha grandes elementos para contestar as versões oficiais e a minha guerra começa com cartoons, uns a seguir aos outros, sobretudo no 'Diabo'. Criticava e ridicularizava a investigação de tal maneira que as pessoas começaram a perceber que as coisas não batiam certo. Isto é uma coisa pouco vista neste país. O cartoon também serve para denunciar coisas que estão a ser mal feitas ou que ainda se vão passar. Gosto de pensar que algumas coisas não aconteceram porque foram denunciadas a tempo pelos cartoonistas.


- Que tipo de ameaças recebeu devido à investigação de Camarate?

- A ameaça que me doeu foi quando destacaram um indivíduo para apontar uma arma à cabeça da minha filha. Havia também pessoas muito preocupadas com a minha segurança a aconselhar-me a fugir imediatamente. Estariam à minha espera em Santa Apolónia e depois em Madrid pessoas para me darem protecção até as coisas acalmarem. Como não apareci, voltaram a telefonar a dizerem que estava a correr um enorme perigo. No fundo era uma forma de intimidação.

- Ou um sinal de que teria uma bala na cabeça à espera em Madrid...

- Exactamente. Ou em Santa Apolónia. Mas fiquei sem dúvidas nenhumas quando me foi proposto um emprego - não posso dizer onde foi, para não matar o mensageiro - em que teria de entrar às sete e meia da manhã e só podia sair às dez da noite.

- Imagino que seria um emprego extremamente bem pago...

- Teria os zeros que eu quisesse.

- De onde apareceria esse dinheiro todo?

- Da empresa que me quis contratar. Creio que neste país nunca foi feita uma oferta nestes moldes. E tive a sensação clara de que se dissesse não eles passariam à fase B e eu sofreria um acidente qualquer. Aceitei como part-time e eles, contrariados, mandaram- me para França fazer um curso que supostamente me iria ajudar. Estava a fazer tempo, porque nós tínhamos pedido a exumação dos corpos dos pilotos e sabia que dali sairiam dados importantes. Médicos radiologistas meus amigos não deixaram desaparecer as radiografias e publiquei-as no 'Diabo' com grande destaque. No mesmo dia fui expulso do meu emprego.

- E o que aconteceu depois?

- Sabia que estava a prazo e não é fácil viver assim. Podia acontecer um 'acidente' a qualquer momento. Mataram o José Moreira e fizeram disso um acidente, mas provei no Parlamento que o tinham morto. A ele e à amiga. Há testemunhas importantes de Camarate que tiveram acidentes muito estranhos, dos quais resultou a morte, ou desapareceram.

- Ganhou mais inimigos com Camarate do que todo o resto do seu trabalho?

- No PSD, de onde saí há muitos anos, sim. Diziam-me que estava a pôr em causa o regime, ao que respondia: "Se este regime mandou assassinar o Sá Carneiro, este regime não me serve." Estou convencido de que Camarate ajudou muito na actual descredibilização da classe política.

- Um dos ministros de Sá Carneiro era Cavaco Silva, que depois governou Portugal durante uma década e agora é o Chefe de Estado. Conhecia-o bem?

- Conhecia-o muito mal e fiquei com má impressão dele, porque a certa altura tive uma ligação estreita com elementos da CIA da embaixada norte-americana. Se há uma CIA ligada a Camarate, existiu outra que se batia pelo esclarecimento da tragédia. Para tal era importante que Cavaco Silva, numa viagem que iria fazer aos EUA, explicasse ao presidente norte-americano a vontade do governo português em apurar de uma vez por todas as causas da tragédia. Fui informado de que ele não tocou no assunto. Perdeu-se uma grande oportunidade.

- Que explicação encontra para ele não ter dito nada?

- Não encontro nenhuma. Não digo que ele tenha alguma coisa a ver com o atentado, mas muita gente entendeu que lhe era útil conviver com isso. Talvez um dia tenhamos uma explicação na publicação das suas memórias.


- Mesmo assim vê-o como a principal figura da política nacional nos últimos 25 anos?

- É uma figura importante devido à sua presença constante. Estava no poder quando apareceu muito dinheiro lá de fora e fez-se muita coisa. Quis ser o bom aluno da Europa, mas tenho impressão que se esbanjou muito dinheiro e houve muita corrupção. Não estou a dizer que passasse por ele, mas foi por culpa da má gestão dos dinheiros, que depois continuou.

- Enquanto objecto de cartoon, Cavaco Silva tem algo de Ramalho Eanes?

- Eles, aliás, dão-se bem. Têm a cara fechada, a figura rígida, uma certa dificuldade em se expressarem... Depois têm em comum uma proveniência humilde e uns certos complexos por causa disso. São muito parecidos.

- A seguir vieram António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates e agora Passos Coelho. Sente um declínio das lideranças?

- Claramente que sim. Isto está a descer. Conhecia mal Passos Coelho e gostava do que conhecia. Pareceu-me uma pessoa honesta mas muito mal preparada. Veio-se a provar que é fácil exercer poder sobre ele e manipulá-lo.

- Sócrates era um sonho para um cartoonista?

- Era. Quando se foi embora perdeu-se um personagem, embora julgue que ele vai subir ao palco outra vez. Há uma sondagem que o dá muito à frente de António José Seguro entre os eleitores socialistas. Se houver uma reviravolta e o PS tiver a oportunidade de voltar ao poder, Sócrates entra por aí levado em ombros.

- Imagina um mundo em que tudo o que aconteceu seja esquecido?

- Já cá ando há tempo suficiente para perceber que os actores sobem ao palco, são apupados por fazerem asneiras, descem, fazem um retiro e passado pouco tempo estão de volta.

- Por falar em esquecer, há algum cartoon que gostasse de não ter publicado?

- Creio que não. Em alguns, cheguei à conclusão que o alvo do cartoon não tinha culpa. Posso emendar isso com um novo cartoon, mas o que está feito está feito.

PERFIL

AÇORIANO ACIDENTAL COMEÇOU COM NIXON

Augusto Cid nasceu no Faial em 1941, mas é um açoriano acidental, pois a sua mãe foi ter com o marido à ilha para onde o tenente de artilharia fora enviado. O futuro cartoonista podia ter morrido em bebé, com uma infecção intestinal grave, mas um avô pediatra conseguiu metê-lo num avião militar para Lisboa. Foi o primeiro da sua vida, como aqueles que lhe permitiram estudar um ano nos EUA – após ser expulso do Liceu Camões, por acertar num professor com um apagador –, onde o futuro presidente Nixon foi o primeiro alvo dos seus desenhos. Regressado a Portugal, foi combater para o Leste de Angola, sem ver morrer nenhum dos homens sob o seu comando e com quem mantém contacto. Tentou vários empregos antes de, na sequência do 25 de Abril, se tornar num ídolo para a Direita portuguesa graças aos seus cartoons. Primeiro no ‘Povo Livre’, órgão oficial do então PPD, no qual se filiara, e mais tarde em jornais como ‘O Diabo’, ‘Semanário’ e ‘O Independente’. Teve três livros apreendidos, sempre por queixa de Ramalho Eanes, mas o maior golpe foi a morte de Sá Carneiro. Investigar o que sempre disse ser o atentado de Camarate tornou-se no seu grande (e arriscado) objectivo de vida, apesar de ter continuado a fazer trabalhos para a TVI ou para o semanário ‘Sol’.

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