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Aula às três pancadas ou à lei da bala

Por mais que se brade pela autoridade, não se pode concluir que é melhor ensinar à pistola.
Joana Amaral Dias 25 de Outubro de 2009 às 00:00
Aula às três pancadas ou à lei da bala
Aula às três pancadas ou à lei da bala

Em 1670, Moliére (mais famoso pelas suas pancadas) apresentou ‘O Cavalheiro Burguês’, satirizando os alpinistas sociais que, na época, seguiam à risca a moda por tudo o que era oriundo do Império Otomano. A peça desenrola-se só na casa do protagonista que, sedento de ascensão, tenta aprender música e filosofia. Resultado? Ridiculariza-se totalmente, como no momento em que fica deliciado ao descobrir que falou em prosa toda a vida.

Num estabelecimento de ensino problemático, uma professora de teatro - vencida da vida e derrotada pelos alunos (Isabelle Adjani) - acaba a ensinar ‘O Cavalheiro Burguês’ de arma na mão. Mesmo assim, por mais que a justiceira diga que a escola é laica, ninguém a ouve. Os estudantes estão insonorizados numa bolha apelidada de identidade. É o caso dos que se autodefinem como árabes.

Essa delimitação tem consequências. Se é árabe, não gosta de judeus e inferioriza a mulher. Ou seja, essa identidade reduz a pessoa a um estereótipo de carne e osso. Por exemplo, esses mesmos alunos nunca leram o Corão. O resto é moda. Então, qual a perspectiva do filme sobre os problemas no ensino? Os alunos serão os tais novos-ricos? Por mais que se brade pela autoridade, não se poderá concluir que é melhor ensinar à pistola. E os outros modelos apresentados não são melhores...

Tal como muitas respostas para a escola de hoje permanecem incógnitas, ‘O Dia da Saia’ não apresenta alternativa. Realmente, as identidades (árabes, mulheres ou outras) aprisionaram o sujeito em vez de o libertar face às identidades dominantes como "ocidentais" ou "homens".

‘O Dia da Saia’ consegue tensão dramática quando se restringe à sala de aula. Quando foge desse cenário, supostamente para respirar, cola-se ao cinema de acção americano mas não ultrapassa os clichés que pretende ironizar. Isto é, o filme vale quando é teatro. Quando revela as prisões identitárias de cada um. Num palco claustrofóbico.

FICHA

Título: 'O Dia da Saia’

Realizador: Jean-Paul Lilienfeld

Intérpretes: Marc Citti, Denis Podalydès, Isabelle Adjani, Yann Collette

Em exibição

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