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Bacalhau no prato, solidariedade à mesa

Há 38 anos que as Academias do Bacalhau fazem bandeira da ajuda a terceiros. Só a do Estoril distribuiu 40 mil euros em mais um ano dedicado a reviver o espírito luso e a apoiar quem precisa.
17 de Dezembro de 2006 às 00:00
Garfada puxa garfada, conversa puxa conversa, e as memórias tornam-se mais fibrosas que o convidado de honra, o bacalhau. O fiel amigo, mascarado com puré de beringelas e gratinado balsâmico é puro pretexto para sentar em redor do mesmo tampo compadres de longa data que partilham um prato cheio de ajuda ao próximo.
Luís dos Reis e Vicente Lóios são apenas dois dos compadres que abatem as saudades dos anos em África em mais um jantar da Academia do Bacalhau da Costa do Estoril. Este, especial, assinala o décimo aniversário de uma associação que persegue o lema fundador: o da solidariedade e amizade. “A parte social é intensiva. Só a nossa Academia este ano dá 40 mil euros a várias instituições dos quatro concelhos onde estamos inseridos, Cascais, Sintra, Oeiras e Mafra. Hoje os donativos que vamos dar são todos iguais”.
O Centro Social e Paroquial Nossa Srª da Encarnação de Mafra é uma das quatro instituições beneficiadas com 2500 euros.”Também costumamos ter ofertas para necessidades pontuais”, adianta o presidente dos “cerca de 400 associados”, Henrique Paquete, desmistificando o foco da Academia.
“Não se come necessariamente bacalhau, embora o elo de ligação seja o fiel amigo. Muita gente pensa que somos uma cambada de barrigudos que só comem bacalhau e bebem vinho tinto. Não é verdade. Em países como Goa, por exemplo, o bacalhau é muito caro, e não o comem.”
O passado ganha corda, depois de um Gavião de Penacho, o tradicional brinde com vinho tinto anunciado pelo sino que o presidente faz soar. “Basta molhar o lábio. Ou a boca toda!”, brinca Vicente.
Acontece na mesa da Lituânia e em todas as outras. A sala de recepções do Hotel Palácio, no Estoril, foi mapeada com cantos de todo o Mundo, mas o que saboreiam é a portugalidade, reavivada pelos almoços quinzenais e outros convívios que deixam os títulos à porta. “Não há doutores ou engenheiros. Mesmo que fosse o Papa, era o compadre Ratzinger! Convidamos para compadres pessoas chegadas, de quem gostamos”, esclarece o presidente.
O espírito nascido na África do Sul continua vivo, em 48 casas. Foi em 1968 que um grupo de emigrantes portugueses se juntou em Joanesburgo para degustar bacalhau às sextas-feiras. Quando os pedidos de ajuda para outros portugueses começaram a fazer eco à mesa, surgiu a ideia de criar uma Academia solidária com a comunidade lusa. A ideia deu frutos e proliferou por África, Américas e Europa. Frutos com sabor ao prato que cimenta as pontes que unem a diáspora. Entrou em Portugal pela porta das ilhas. Primeiro a Madeira, em 1988. Seguiram-se Lisboa, Porto, Algarve, São Miguel, Estoril, Estremoz, Viseu, Aveiro, Braga, Terceira e Coimbra. Em 2004, nascia no Faial a mais recente em solo português. Lyon, Luxemburgo e Nova Iorque são as últimas aberturas lá fora.
AS MAIORES HONRAS
As maiores honras cabem aos fundadores. “Tenho muitas memórias de África do Sul onde vivi 30 anos. É um país excepcional em que a portugalidade era vivida com intensidade. O português fora do país tem um amor muito grande à pátria. Estou cá há 15 anos e tive que me adaptar”, conta Norberto Madeira, um dos dez compadres que importaram o conceito. A portugalidade resiste lá fora, como pode. Na toponímia, nos monumentos, nos esforços de ontem e hoje. “Não é um sentimento patético de saudosismo”, frisa Fernando Viana Mendes.
Não faltam preceitos que se vão desfiando com a progressão do menu. A carne chega de mansinho, sem desaguisados com o bacalhau. Menos tranquila é a posição das comadres. As senhoras têm lugar à mesa, mas o estatuto de igualdade perante os compadres só se reza na Academia de Lisboa, pioneira na abertura ao sexo feminino. “Não está fechado a mulheres, mas os almoços são feitos com homens. São comadres por afinidade. Participam em viagens e outros encontros.”
A maioria condescende, mas há quem rume à capital para ver o estatuto equiparado. “Tenho o diploma da Academia de Lisboa. A Amália foi a primeira comadre honorária. As mulheres têm uma grande participação”, desabafa Maria Teresa Gouveia, espreitando o filho Luís. “Foi dos compadres mais jovens, aos vinte anos. O meu outro filho de 14 tem que esperar pelos 18”.
A noite é atípica. A figura do carrasco tirou folga, as habituais anedotas não constam do menu. “Costumamos ter a carrasquice. Um dos compadres está atento aos pormenores e aplica multas. Também temos o leilão, com ofertas de compadres”. Motivos para engordar o pecúlio que promete continuar a crescer. Em 2007, o congresso anual das Academias tem reserva na Madeira. E os compadres voltam a partilhar a mesa com o peixe estrangeiro mais solidário em Portugal.
FIGURAS E SÍMBOLOS DA ACADEMIA
Gavião de Penacho: Brinde com vinho tinto – “De bico p’ra cima (eleva-se o copo bem alto), de bico p’ra baixo (baixa-se o copo), mais acima (eleva-se, de novo, o copo bem alto), mais abaixo (baixa-se o copo), vai ao centro (estende-se o braço para a frente e brinda-se), bota pr’a dentro”.
Emblema e bandeira: Apresentam o bacalhau sobre a esfera armilar.
Sino: Símbolo da autoridade do Presidente. Abre e encerra as actividades e faz-se soar sempre que aquele tem algo a comunicar. Os compadres devem manter-se em silêncio.
Diplomas: Entregues aos novos compadres, depois de estes, apresentados por um compadre activo, terem comparecido a três almoços sucessivos ou cinco almoços intervalados.
Carrasco: Tem como função multar os compadres, apanhando-os em faltas como falar inoportunamente ou não ostentar o emblema.
Bacalhoeiro: Compadre que traz muitos convidados para a Academia.
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