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Correio da Manhã

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Balança ou automática?

‘Ruína Azul’ narra a história de uma vingança numa sociedade desestruturada e decadente em que o mais inofensivo é capaz da maior violência.
8 de Junho de 2014 às 15:00
Joana Amaral Dias, Escolhas, Gravidade, Sandra Bullock, Alfonso Cuáron, George Clooney, Vítor Rua, Hannah Arendt, Reino Animal

Imagine um homem de trinta anos a viver num carro velho perto da praia. Chama-se Dwight, apanha garrafas no areal para ganhar umas moedas com a tara, coisas no lixo, peixe no mar e, ocasionalmente, entra pelas traseiras de uma casa para tomar duche de água doce. E nada mais. Agora, imagine esse homem a envolver-se numa matança desenfreada, uma sangria que faria Tarantino ou os Coen roerem-se de inveja.

É a vingança, o prato que se serve frio sem nunca arrefecer, que o transmuta – de um sem-abrigo inofensivo a um homicida em série. Quando Dwight descobre que o assassino dos seus pais saiu da prisão decide fazer justiça pelas suas mãos. O espectador fica estupefacto com o anti-herói que nem é o típico vingador artilhado até aos dentes de armas e charme, nem o psicopata alienado que mata tudo o que mexe. Já o sem-abrigo fica estupefacto com as consequências da sua veia sanguinária.

PISTOLAS

A relação dos EUA com as armas parece estafada no cinema. Mas Jeremy Saulnier consegue transformar as notícias diárias dos tiroteios, mortes por armas de fogo e massacres numa ficção.

E a história que ‘Ruína Azul’ conta é a de como o desamparo se pode transformar no ódio. Dwight é alguém que ficou órfão, sem a proteção ‘natural’ da família, e que, de seguida, perdeu também a proteção do Estado, da justiça. Só, entregue a si mesmo e, assim, sem capacidade de transformar a sua dor e o seu luto, fica aprisionado na perda que vai levedando até resultar em vendeta.

A história de Dwight é, afinal, a história das más sociedades ou das sociedades que não conseguiram passar a comunidades. Isto é, as sociedades abandónicas, incapazes de conter ou transformar dor, medo, frustração, promovendo o olho por olho, dente por dente. Sociedades que alimentam o poder-sobre, onde se evita sentir qualquer vulnerabilidade, no limite, aplicando dor e fragilidade no outro e promovendo a autossuficiência. O desafio é fazer desse poder-sobre um poder-para, onde se recusa a vitimização, se tolera a dor (não se projeta sobre o outro), promove-se a emancipação, a reparação e empatia. Ou seja, o caminho é passar de uma posição omnipotente para uma posição que tolere a vulnerabilidade, de uma posição centrada na sobrevivência do eu (medo/aversão) para outra centrada na relação com o outro (desejo/perda). Como enuncia a filósofa Martha Nussbaum, "todas as sociedades precisam então de algo como espírito da tragédia e o espírito da comédia – o primeiro modelando a compaixão e o sentimento de perda, o último indicando formas de elevar-se acima da aversão". A questão é que, para essa transição, a comunidade necessita de relações precoces de qualidade e, claro, de justiça, a começar pela justiça social. Difícil, muito difícil, quando a balança foi substituída pela pistola automática.

Resumo: O mendigo Dwight sabe que Will Cleland foi libertado após ter cumprido pena de 20 anos por homicídio. Movido pela vingança, segue para a casa onde nasceu e onde pretende reencontrar Cleland. Filme de Jeremy Saulnier, autor da comédia de terror ‘Murder Party’ (2007).

De: Jeremy Saulnier

Intérpretes: Macon Blair, Devin Ratray, Amy Hargreaves

Em exibição: Cinemas


LIVRO

Conservadorismo’

O mais interessante deste livro nem é a exposição clara sobre o que são e para que servem as ideias conservadoras. O melhor é que o autor, ele próprio um conservador assumido, o faz com inovação e frescura, arrasando assim os piores estereótipos sobre o conservadorismo.

Resumo: Professor universitário, comentador, colaborador do ‘Correio da Manhã’ e do ‘Folha de São Paulo’, João Pereira Coutinho é também autor dos livros ‘Porque Virei à Direita’ ou ‘Avenida Paulista.’


Autor: João Pereira Coutinho (Editora D. Quixote)

FILME

‘A Lancheira’

Trata-se de um filme simples que parte de uma realidade genial, os dabbawalas de Mumbai (estafetas que entregam nos escritórios refeições caseiras), que fazem a proeza de apenas se enganarem uma vez em cada quatro milhões. E o erro pode ser um pequeno milagre.

Resumo: Filme escrito e realizado pelo estreante Ritesh Batra, foi apresentado na Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes

Realizador: Ritesh Batra

Intérpretes: Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui

Em exibição: Cinemas

FILME

Matraquilhos’

Vale bem uma ida ao cinema e eis um excelente revezamento ao fastio do mundial de futebol, tal como os matrecos são uma boa opção ao jogo no ecrã e o grupo que se junta uma ainda melhor alternativa à solidão eletrónica.

Resumo: Juan José Campanella (Buenos Aires, 19 de julho de 1959) é um diretor de cinema argentino que realizou ‘O segredo dos teus Olhos’, premiado pela Academia com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Realização e argumento: Juan José Campanella

Género: Animação (vozes de Ana Guiomar, Diogo Valsassina, Nuno Gomes, Pedro Ribeiro)

Em exibição: cinemas

FUGIR DE

FILME

‘Só os Amantes Sobrevivem’

Parece que Jarmusch queria filmar uma parábola sobre o envelhecimento, a dependência, a criatividade e fazer de Detroit uma cidade atraente. Mas a coisa é patética, com um humor idiota e zero ação. Sendo um filme de vampiros, ficou anémico. Podem afirmar-lhe que se destina a audiências maduras e que não é necessária história quando há sensibilidade. Não vá nessa. Não deixe que lhe mordam o pescoço.

Em exibição: cinemas

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