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Banca com vista sobre a história

Há mais de trinta anos que vende flores na Praça do Comércio. Entre as imagens que guarda na memória está o 25 de Abril de 1974. Mais do que a liberdade, a revolução dos cravos deu-lhe a possibilidade de fazer o que mais lhe dá prazer.
3 de Abril de 2005 às 00:00
Maria de Lurdes vende flores na Praça do Comércio há mais de 30 anos.
Maria de Lurdes vende flores na Praça do Comércio há mais de 30 anos. FOTO: Tiago Sousa Dias
Naquela manhã, como em todas as outras, Maria de Lurdes, 65 anos, saiu bem cedo da sua casa, nos Olivais. Naquela manhã, como em todas as outras, subiu despreocupada para o autocarro que habitualmente a levava até ao local de trabalho – a Praça do Comércio. “Ia para a venda e ouvia as pessoas comentarem que o País estava sob prevenção e que tinham alertado toda a gente para não sair de casa”, recorda. Mesmo assim, Maria de Lurdes fez-se à vida. “Arrisquei. Precisava de dinheiro para comer. Cheguei ali acima e tive que voltar para trás. Estava tudo cercado de tropas. Não me deixaram vender nada. Nem uma flor”, sublinha com o filme daquele dia ainda bem vivo na memória. Pouco depois, Maria de Lurdes, apanhava outro autocarro, desta vez de regresso a casa. Seguiu triste, de bolsos vazios. Longe de imaginar que nos dias seguintes não iria precisar mais de andar às escondidas, de flores em punho, para conseguir o ganha-pão para a família. Longe de imaginar que no dia a seguir seria uma mulher livre. Num País livre.
Maria de Lurdes nasceu e viveu parte da sua infância em Vila Real. Era rapariga nova quando partiu, em 1958, para Lisboa. Tinha 18 anos e foi em busca de uma vida melhor, servindo em casa de famílias nobres. Três anos depois casou-se. Por essa altura, começou também a dedicar-se à venda de flores. “Como eram raras, vendiam-se que era uma categoria.” O único senão era o facto de o País viver sob a alçada de um regime político – a ditadura de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano – que perseguia e punia com multas avultadas a venda ambulante. “Tinha de andar por aí fugida. Apanharam-me muitas vezes. Graças a Deus, nunca fui vitima de agressões ou males maiores” desabafa a florista. Mas nem por isso escapava às multas pesadas. “Os polícias da esquadra ou da câmara andavam à paisana pelas ruas e apanhavam-nos de surpresa. Depois, que remédio tínhamos senão pagar. Chamávamo-la a multa dos oitenta mil e quinhentos”, conta com um sorriso aberto que lhe realça as rugas no rosto, vincadas por anos de história.
Depois de, naquele dia, se ver obrigada a voltar para casa, a primeira coisa que Maria de Lurdes fez foi ligar a televisão para tentar perceber o que se passava no País. Só nesse momento é que tomou consciência da dimensão dos acontecimentos. Nas horas que se seguiram não arredou pé de frente do ecrã, ansiosa por saber o resultado das negociações entre o Governo e os elementos do Movimento das Forças Armadas. “Não tive medo nenhum. Aquilo foi uma revolução sem grandes complicações, nem houve mortes nem nada. Foi até muito giro. Eles renderam-se logo e o País transformou-se numa festa”, recorda Maria de Lurdes, que um dia depois retomava a sua vida normal. “Aquilo foi de uma quarta-feira para uma quinta. Na sexta-feira já estava aqui de novo a vender flores.” O negócio nunca tinha visto tanto lucro. Não fosse esta a revolução dos cravos. “Foi uma loucura. Mas pior ainda foi no 1.º de Maio, Dia do Trabalhador. Era só cravos a sair”, revela.
Maria de Lurdes não guarda saudades dos tempos da outra senhora. Cerca de um ano após o histórico 25 de Abril, conseguiu finalmente a tão desejada licença. Por isso não é de estranhar que para ela os anos que se seguiram sejam recordados como os melhores da sua vida. “Em Portugal tudo mudou para melhor. Foi uma maravilha em termos de negócio. Era só lucrar.” Tanto é que até o marido abandonou o trabalho numa empresa de artes gráficas para se juntar a ela na venda de flores. “Dá sempre jeito quando um quer ir comer ou ir à casa de banho, ficar aqui alguém. E isto não está para confiar em ninguém.”
Desde essa altura que Maria de Lurdes e o marido montaram a banca numa esquina junto ao Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Debaixo de dois guarda-sóis, habitam cestas de rosas, margaridas, orquídeas, gerberas, antúrios, que enchem de cor aquela esquina junto ao rio. “Escolha à vontade menina, escolha à vontade”, repete simpática Maria de Lurdes para mais uma cliente que passa.
A PROMESSA DE BELEZA
A florista já é conhecida na zona e arredores. “Bom dia”, “Como está?” são cumprimentos que se ouvem constantemente. Por vezes, Maria de Lurdes é até surpreendida com visitas de figuras públicas. “Aquele das finanças, o Bagão Félix, já veio cumprimentar-me, o Vítor Constâncio, aquele que agora é presidente da Câmara de Coimbra, o Carlos Encarnação, o Laborinho Lúcio”, começa por enumerar. Algumas tornaram-se até clientes fiéis. “A Celeste Cardona vinha aqui muitas vezes. Penso que comprava flores para o escritório do ministério”, adianta, acrescentando que a ex-ministra da Justiça gostava de umas flores especiais. “As alstroemérias”, atira após largos minutos de silêncio para se lembrar do estranho nome.
A história que marcou mais esta florista passou-se, contudo, com Miguel Beleza, na altura em que o economista do PSD era ministro das Finanças. “Foi um bom freguês durante muito tempo. Vinha aí e pedia sempre onze rosas brancas ou encarnadas, algumas vezes com uma gerbera no meio. A gente calcula que aquilo devia ser para promessas”, revela. Depois seguiu-se uma longa ausência só quebrada muito recentemente. Maria de Lurdes aproveitou a oportunidade para trocar dois dedos de conversa. “Então, ó senhor doutor, não tem cá vindo, está chateado comigo?”, disse-lhe. E o economista respondeu: “Ó minha senhora, não me diga uma coisa dessas. Então a senhora trata-nos tão bem, ia eu chatear-me” relata a florista, ao mesmo tempo que enche o peito de orgulho. “Respeito muito os fregueses, tenho cuidado em servi-los bem, por isso é que todos me adoram”, justifica-se.
Recorrendo a um passado mais próximo, Maria de Lurdes refere ainda que Santana Lopes já passou ali para lhe dar um passou-bem. “Veio aqui e disse-me que eu já merecia ser condecorada pelos anos que aqui estou”, conta ao mesmo tempo que solta uma gargalhada sonora. Mas apesar da brincadeira do ex-primeiro-ministro, Maria de Lurdes admite não simpatizar com ele. “É um ‘playboy’”, começa por justificar. “Se não correm com ele depressa o partido vai todo por água abaixo”, acrescenta. E, visivelmente alterada, continua a desafiar o seu rosário de críticas: “Olhe, não me lembro de assistir nestes anos todos que estou aqui, a um governo tão mau como o que saiu agora de lá”, diz embrulhando-se no xaile castanho da cor da terra.
Sem querer desviar-se das questões políticas, a florista partilha ainda a sua opinião relativamente ao novo primeiro-ministro. “O Sócrates tem mais garra, mais até que o Guterres, que apesar de bom homem, era muito mole.” E deixando escapar o facto de motoristas e secretárias do ministério lhe colocarem muita coisa nos ouvidos, afirma: “Esses boatos, esses boatos, dizem muita coisa”, atira. E apercebendo-se que já estava a falar para além da conta, disfarça: “Mas com as vidas privadas ninguém tem nada a ver. O que me dizem é que ele tem muita força e que vai conseguir pôr o País para a frente”. Para que conste.
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