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BANCÁRIOS E DANÇARINOS

De dia, são anónimos bancários de fato e gravata. Mas todas as sextas-feiras à noite, despem a farda, trajam-se a rigor e dançam folclore. Pela tradição, superam o cansaço, dores e até algumas pisadelas. De graça...
18 de Maio de 2003 às 00:00
“Durante o dia, não tenho um minuto de sossego. O meu trabalho é garantir que os serviços de comunicação do banco funcionem sem problemas. Como se diz na gíria, sou o ‘bombeiro’ de serviço”, explica Nuno Moita de Santos, 42 anos, um dos muitos bancários que à sexta-feira, pelas 22 horas, pode ser visto nas instalações do Grupo Cultural e Desportivo dos Trabalhadores do Banco Espírito Santo, trajado a rigor e preparado para dar ‘tudo por tudo’ no ensaio semanal de dança folclórica. “Foi a minha mulher que me trouxe para aqui. Eu odiava esta dança. Mas acompanhei-a porque ela ia precisar de um par. O mais curioso é que a minha mulher teve de abandonar a actividade e eu quis continuar. Hoje, não falto a um ensaio”, confessa o bancário, que durante três anos foi obrigado a parar devido a um acidente de percurso: levou uma pisadela do ensaiador e teve de ser submetido a várias microcirurgias.
Já com o pé curado, Nuno voltou em força para o Grupo de Danças e Cantares Besclore, e teve a oportunidade de acompanhar os seus colegas em várias deslocações pelo País. E no estrangeiro. No passado dia 22 de Abril, o Besclore voltou a arrebatar o primeiro lugar no Festival Mundial de Danças Folclóricas, em Palma de Maiorca. “Os prémios dão-nos mais força para continuarmos”, remata.
QUANDO O CHEFE VIRA SUBORDINADO
José dos Anjos, de 51 anos, bancário, partilha da mesma opinião. Os dois trabalham juntos, mas às sextas-feiras os papéis invertem-se. “O chefe aqui é ele. Mas durante a semana, sou eu quem lhe dá ordens’, brinca Nuno Moita de Santos.
Há 16 anos que José - juntamente com o presidente do grupo desportivo, Manuel Serras - tem contribuido para o sucesso do Besclore. “Esta é a minha segunda família. É um prazer vir para aqui, todas as semanas”, assegurao bancário, que aconselha todos os portugueses a aprenderem a dançar folclore. Mas deixa um aviso: “Depois de algumas lições, os alunos lembram-se de dançar à frente do espelho... como não gostam da figura que fazem, desistem. O truque é deixarem-se levar pela música”, acrescenta.
José Brito, 25 anos, é o ensaiador de serviço e não podia estar mais contente com a distinção em Palma de Maiorca.
“O prémio veio provar que o folclore português é reconhecido lá fora. Talvez por ser mais puro. Mas isso também é uma desvantagem. Por exemplo, os grupos da América Latina usam fatos justos, meias de rede e salto alto. São mais vistosos e ‘sexys’”, acrescenta este investigador em biotecnologia, natural do Minho.
É SÓ PÔ-LOS A DANÇAR
Desde miúdo que Brito não perdia a oportunidade de dar um ‘pezinho de dança’ nas festas populares da sua terra. Apesar de ter escolhido uma profissão ‘séria’, que exige bastante rigor, é nas noites de sexta-feira que o minhoto se sente nas suas ‘sete quintas’.
O jovem ensaiador até conseguiu a proeza de cativar vários adolescentes que, pelo folclore, deixam as saídas nocturnas para mais tarde. “Qual é o meu truque? O mais importante é pô-los a dançar”, explica José Brito, que nos últimos anos tem notado que o folclore tem vindo a ganhar prestígio. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. “Os mais novos julgam que isto é só para ‘velhos’. Como as saias são compridas e as chinelas são difíceis de usar, é natural que eles prefiram o tango, ou as sevilhanas. Mas, está a mudar...”
Lucília Jacó, 48 anos, natural de Angola, já não é nenhuma adolescente mas ainda se sente uma ‘miúda’ quando sobe ao palco. “Eu adoro dançar, mas agora tenho mais dificuldades. Como engordei, comecei a ter problemas em equilibrar-me naqueles sapatos. Por isso, fico-me só pela música”, confessa esta secretária que há 27 anos trabalha no sector da banca. Todas as sextas-feiras, vem do Cacém com a filha, o genro e o marido, uma família ‘viciada’ nesta dança.
A Manuel Serras, auditor e presidente do Grupo Desportivo do BES, não lhe foge o pé para a dança mas não é isso que o impede de compreender o que leva estes homens e mulheres, de todas as idades, a saírem de casa à noite – faça frio ou calor – para dançar folclore. “Tenho a certeza que todos vão continuar a trabalhar com convicção e, nos próximos 16 anos, mais trunfos virão”, garante o auditor.
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