Bastidores do último concerto dos D’ZRT

Já passa da meia-noite que o sapato da Cinderela celebrizou, e centenas de adolescentes abandonam o Pavilhão Atlântico de unhas roídas e maquilhagem esborratada pelo choro. As mesmas que horas antes aguardavam na fila e à chuva a entrada no recinto, empunhando batons e sombras e espelhos em miniatura.
10.02.08
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Agora, no fim do concerto anunciado como a despedida, amparam-se umas às outras, resgatam de dentro das malas coloridas - onde também se encontram todos e mais alguns gadgets - pacotes de lenços de papel. Patrícia e Carolina estão inconsoláveis.
Têm doze anos e só queriam “que os D’ZRT dissessem que afinal não iam acabar”, confessam quase em coro. Expectativa gorada, as duas amigas arrastam-se pelo Pavilhão, como que na esperança que a banda subitamente regresse confessando uma qualquer partida de Carnaval.
“Vou continuar a ouvir os CD deles e tenho a certeza que um dia vão voltar”, acredita Patrícia Cavaco, sem perder o palco de vista e adiando o momento de entrar no carro dos pais que a foram buscar no fim da noite. Nos telemóveis e câmaras digitais que as adolescentes usaram até à exaustão, prometem permanecer as imagens marcantes da última festa, as tais que provocaram a torrente de lágrimas e desgosto.
“Não chores”, murmuram umas às outras sem que elas próprias – as que o dizem - consigam fazê-lo. O cenário poderia ser divertido se a tristeza não parecesse tão verdadeira.
Noutro plano, mas na mesma altura, Cifrão já chegou ao backstage. Encostado a uma das paredes em frente aos camarins, esta noite repletos de bananas, Redbull, refrigerantes com gás e muitas toalhas, emociona-se quando os Corvos (convidados especiais do espectáculo) passam por ele e lhe oferecem a pauta da música que tocaram pouco antes, em jeito de agradecimento pelo momento passado no palco.
Abraçam-se. Uma menina, com não mais de oito anos, puxa-o pelo braço, fá-lo baixar-se e confessa-lhe: “Sabes Cifrão, este é o meu primeiro concerto”, enquanto espera que a mãe registe o encontro para a posteridade. Os olhos de sono não enganam. Minutos depois, Ana, 32 anos, madeirense com paralisia cerebral, encosta-se a ele para uma fotografia. Faz-lhe uma festa carinhosa na nuca agora careca, como que a certificar-se do corte da crista feito durante a actuação. Ele sorri, embora envergonhado, com o simpático descaramento.
HORAS ANTES
Horas antes, Pedro Silva está, como agora - que o concerto já acabou e os fãs, famílias e amigos exigem atenção redobrada - por perto. Cumpre a função à risca, mesmo que pouco falte para a despir de vez e o estrangeiro lhe acene uma nova oportunidade.
Esteve assim a tarde toda. Presente, a vigiar os passos da banda. Mesmo quando o público não estava ainda autorizado a entrar no Atlântico e esperava à chuva, lá fora. Bem antes, quando os ensaios do ‘check sound’ ensurdeciam a equipa técnica presente no Pavilhão e um corajoso pendurado nas alturas do recinto puxava fio atrás de fio na direcção do palco. Pedro não saiu de cena.
Ali, com o relógio a bater as 17h00, não existia perigo aparente mas Pedro manteve-se alerta, como sempre esteve durante os três anos em que desempenhou funções de segurança pessoal da banda. “A minha função foi sempre não os perder de vista e proteger a sua integridade física”, explica quem acompanhou os D’ZRT em tudo o que foram aparições públicas desde o início: concertos, sessões de autógrafos, publicidades.
“Muitas horas de estrada que vão deixar muitas saudades: eles são divertidos, trabalhadores, porreiros”, conta sem esconder uma ligeira comoção. Porque, apesar de ter tudo acertado para rumar fora de portas e desempenhar papel idêntico com uma banda internacional, Pedro não encara de ânimo leve este fim. E nem podemos dizer que o peso se deva à falta de hábito. “Estive três anos com os Excesso e depois disso com os Milénio”. Bandas também meteóricas no que ao sucesso respeita, que acabaram por desaparecer com pouco aviso e, acima de tudo, sem qualquer volta na constelação da música portuguesa.
“Do que vou sentir mais falta, a partir de amanhã, é da amizade e camaradagem que, aqui, eram muito fortes”, diz o ainda jovem segurança que no âmbito internacional já trabalhou com os Boyzone e BB King. Sem adiantar a história mais complicada que enfrentou durante a era D’ZRT - “nesta profissão o segredo é muito importante” - deixa perceber que teve fãs à mistura.
ÚLTIMA NOITE
Nesta última noite não houve histórias complicadas. Só lágrimas. Os muitos fãs que encheram os bastidores no fim da festa não foram difíceis de domar. Edmundo, ainda vermelho da emoção, cumprimenta família e amigos que vieram de propósito do Algarve, de onde é natural. “Quando desliguei o micro é que caiu a ficha, fui invadido por uma nostalgia difícil de explicar”, garante o cantor, entre um beijo e outro. Não tem mãos a medir.
Uma menina envergonhada esconde-se atrás da mãe, espreitando o músico de soslaio por entre as pernas da progenitora, quem sabe percebendo ali um traço semelhante de personalidade entre os dois: uma grande timidez.
“Oh filha, gostas tanto do Edmundo, o que é que se passa para não lhe quereres dar um beijinho?”, pergunta a mãe a incentivar a coragem. Do lado oposto do corredor, outra mãe, a de Paulo Vintém, Maria Jacinta, abraça-o emocionada. Cobre-o de beijos e afaga-lhe o rosto. “Sou uma mãe orgulhosa”, garante-nos, algures entre as lágrimas e o riso. Três adolescentes olham a cena embevecidas, à espera de um autógrafo que ainda não deu tempo de pedir.
A DESILUSÃO
“Não dá para acreditar que acabou”. Robson Viana verbaliza o que a maioria ali presente pensa mas não diz. Transpira desilusão quando chega aos camarins depois do último concerto da banda que acompanhou na estrada durante três anos. O ‘road manager’ dos D’ZRT tem, aos 38 anos, uma missão espinhosa: encontrar novo emprego. A despedida custa mais do que o dinheiro.
Já tirou a camisa azul e branca que lhe cobria os movimentos durante a tarde de ensaios, agora a t-shirt preta basta-lhe perante o calor que se faz sentir atrás do palco, onde os cumprimentos têm forma de abraços e apertos. Também vai ter saudades. “Estou com eles desde Agosto de 2005, são quatro pessoas muito diferentes mas, por incrível que pareça, nunca discutiram a sério.
Às vezes chateiam-se mas logo a seguir entendem-se e fica tudo bem”, conta antes de descrever um por um os elementos da banda que aprendeu a conhecer ao longo do tempo. “O Edmundo é tímido até ganhar confiança, o Angélico é o ‘tá-se bem’, o criativo, o Vintém é o certo, o correcto, sempre o primeiro a chegar aos ensaios e o mais organizado e o Cifrão era como o guia financeiro deles, o que indicava o caminho, além de ser extremamente exigente.”
A descrição tem pronúncia brasileira, a terra natal de Robson, e uma pitada de saudosismo do que já passou: o avião que foi desviado da rota para os ir buscar a uma das ilhas dos Açores para conseguirem estar à noite em Bragança, as fãs que dormiam na rua à espera pelo melhor lugar nos concertos, os almoços em equipa.
“Cheguei a arranjar quartos de hotel para as miúdas passarem a noite”, recorda. Rita Ferreira, 18 anos, e Inês Santos, 21, nunca quiseram. Dormiram nos Bombeiros, na Polícia, ao relento, correram “Norte a Sul do País”, mas fazia tudo parte da emoção dos concertos. Conheceram-se numa das primeiras actuações dos D’ZRT e a partir daí não mais deixaram de ir juntas.
“Só no último concerto é que ganhei juízo e dormi na cama”, graceja Rita, natural de Lisboa. A amiga Inês, de Coimbra, também. “Fiquei em casa da Rita”, conta, enquanto puxa o namorado e o gaba à frente de todos. “É tão giro não é? É o primo do Angélico (dos D’ZRT) e é a cara dele, não acham? Também nos conhecemos num concerto”, explica orgulhosa da conquista. As duas jovens, que a loucura pela banda juntou, não pouparam as lágrimas em noite de festa.
“Que choradeira que foi”, desabafa Inês, aperaltada na fatiota vermelha e preta que só é ameaçada pela toilette da amiga Rita, enquanto compõe a maquilhagem e pisca o olho ao namorado.
Ana Tomás está a menos de um metro das duas amigas. Mais discreta, partilha no entanto a mesma tristeza pelo fim da banda que começou nos ‘Morangos com Açúcar’. Deitou os 15 anos à porta do Pavilhão Atlântico na noite anterior ao concerto, para guardar vez. “Consegui dormir a maior parte da noite, trouxe umas mantas e vim com o meu grupo de amigos, somos cinco”. E jantar?
“Esqueci-me das sandes mas o meu irmão (de 21 anos) veio cá trazer-me para eu não passar fome.” Curiosa é a paixão de Ana. “Gosto dos D’ZRT mas o meu preferido é o baixista deles, o João Matos”, confessa enquanto mostra uma tatuagem no braço com a inicial ‘J’. Lá fora, aguarda-a o irmão, anjo-da-guarda da adolescência.
Já o preferido da faladora Mariana, de sete anos, é outro. “O Angélico”, diz, enquanto abre um sorriso e olha de viés para o pai como que à espera de aprovação. Fernando já está habituado. Conta-nos orgulhoso que, numa festa da escola da filha, se mascarou de um dos D’ZRT, Cifrão, para uma peça de teatro. “Não fiz nada mal pois não filha? Ia mesmo parecido, com o cabelo todo em pé e uma camisola do Benfica”, descreve com entusiasmo.
Se o pai Fernando se tivesse mascarado de Angélico, Sheila Guerra poderia ter dado uma ajudinha. Foi a eleita para ‘trançar’ o cabelo do namorado da actriz Rita Pereira para o último concerto da banda. Em noite de festa, juntou o dever do trabalho ao prazer de estar perto dos D’ZRT, uma banda que gosta muito. “Não é costume ser eu a fazer-lhe as tranças, mas eu trançava um amigo dele e o Angélico pediu-me”, conta a jovem de 18 anos, que passou a tarde atrás do músico entre um ensaio e outro.
“No cabelo dele não demora muito, ao todo não passa dos 45 minutos, mas hoje estou a fazer aos bocadinhos.” Talvez porque Angélico apareça e desapareça de cena. Cada vez que aparece, não raramente, está de telemóvel no ouvido, a falar, ou na mão, a mandar sms. Já passava das 18h00 quando apareceu para ensaiar - muito depois de Vintém, Edmundo e Cifrão terem chegado ao palco.
No fim do concerto, o cantor que se encontra a gravar uma telenovela no Brasil, é brindado pelos fãs com flashes e sorrisos. Horas antes, Diana, 13 anos e irmã de Sheila, já tinha aproveitado para ‘cravar’ um beijinho ao Angélico, ídolo que vem do tempo dos ‘Morangos’.
A namorada dele, Rita, quase podia rivalizar com tanta atenção mesmo na noite que é. Brinca com as sobrinhas do namorado em frente aos camarins, entre uma assinatura e outra que lhe pedem para fazer nos blocos abonecados que os mais novos estendem, envergonhados.
Já perto de terminar no Atlântico, a noite prometia seguir para uma pista de dança. Rita Colaço, 17 anos, ‘despachou’ os pais para a Ericeira e convidou a Catarina e a Madalena para uma “pijama party” depois do concerto, mas bem que estava disposta a abdicar da festa em casa se soubesse para onde ia a banda festejar depois de abalar do Pavilhão. Catarina Pinto, a amiga, mais do que dançar “preferia ver o piercing secreto do Angélico.”
Nos bastidores, a preferência dos ex-D’ZRT - agora, mais do que nunca, quatro pessoas distintas - ia para o festejo. Cifrão garantiu. “Não tenho a certeza se há champanhe, mas espero bem que sim. Prometo não conduzir”.
"SÃO MUITO ACESSÍVEIS"
A banda impressionou nos bastidores do concerto pela simpatia e humildade. Nádia Conceição, 19 anos e empregada do catering, e Pedro Mendes, chefe de cozinha, gabaram a forma de estar dos D’ZRT. “Tive sorte com este trabalho porque sou fã deles: têm músicas boas para dançar e muito fáceis de decorar e hoje percebi que são também muito simpáticos”, disse Nádia.
Já Pedro Mendes, 32 anos, ficou bastante satisfeito com os elogios da banda ao almoço e ao jantar -“foram eles que escolheram o menu e disseram que estava bom depois de provar.” Ao almoço, no dia do último concerto, Vintém, Edmundo, Cifrão e Angélico deliciaram-se com um consumé de legumes, bacalhau espiritual e lombo assado à padeiro. Do menu do jantar constava arroz de pato e salmão com molho de manteiga e limão.
HORAS ANTES DO CONCERTO
Durante a tarde estiveram no interior do Pavilhão Atlântico à volta de cinquenta pessoas, entre técnicos de som, luz, bailarinos e convidados especiais. Durante o concerto estiveram dentro do recinto entre 30 a 40 seguranças. Henrique Alves, um deles, só teve pena que o filho mais novo, o Pedro, não estivesse a assistir. Os preços do concerto variavam entre 12,50 e 25 euros.
PAIS ACOMPANHAM MAS SEM SACRIFÍCIO
Muitos pais quiseram fazer a vontade aos filhos mais pequenos e acompanhá-los ao concerto. A mãe da Marta, de oito anos, não estava nada contrariada: “Já que cá estou vou-me divertir com ela”, garantiu. Os pais do João, de seis anos, concordam.
NÚMEROS DA BANDA EM REVISTA
206 Mil discos vendidos com apenas dois álbuns de originais - ‘D’ZRT’ (2005) e ‘Original’ (2006).
>200 Concertos de Norte a Sul do País, passando pelas Ilhas. Para a história também ficam os 13 galardões de platina.
2005 Em Abril foi a data do primeiro concerto dos D’ZRT, que não resistiram a mais de 3 anos de carreira.
>8000 Pessoas assistiram ao último concerto da banda que esteve 50 semanas no top e fez um registo ao vivo no Coliseu de Lisboa.

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