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Correio da Manhã

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Bate bate coração

O coração de Hala Ketnani, uma bebé palestiniana, nasceu com defeito. A operação à cavidade cardíaca realizou-se a 28 de Novembro num hospital em Israel. O nome da organização israelita que tratou de mais um caso humanitário vem a propósito: Save a Child’s Heart.
17 de Dezembro de 2006 às 00:00
A distância que separa Gaza de Israel demora o tempo de um espirro. Mas a proximidade física posiciona-se longe de representar livre-trânsito. Por razões que atraem a pólvora naquele renhido ponto do Médio Oriente, e sem esquecer a Intifada de 2000 que recrutou bombistas prontos a agarrar o céu, a portela da fronteira que dá acesso ao território israelita só levanta em conjunturas excepcionais. As poucas dúzias de palestinianos que ainda possuem a licença atribuída nos meados dos anos 80, escassos comerciantes, homens de negócios encontrados à lupa, representam a partícula da população que, após passar por um rotineiro e rigoroso ‘check’, pode entrar em Israel.
Crianças que requerem cuidados médicos são bem-vindas sem um dedo de vistoria. O caso difere nos adultos, que têm de enfrentar um procedimento de segurança. Uma das explicações para o pé ficar atrás fotocopia o que aconteceu em Julho, bem no queixo da barreira fronteiriça. Shlomo Dror, porta-voz do ministro da Defesa israelita, atira um exemplo entre dezenas: “Uma mulher que assegurava necessitar de tratamento hospitalar tinha um senão; trazia um engenho explosivo no vestuário.” Contudo, nem todos transportam detonadores.
Uma frase do talmud, se levada à letra, dá que fazer. Quem salva uma vida é como se tivesse salvo a Humanidade inteira. A palestiniana Raisa Ketnani tem 65 anos, um lenço que lhe esconde a curva da cara e a neta ao colo. A bebé de dez meses, Hala Ketnani, não chora. Brinca com os dedinhos. A senhora de idade e meia não vai vender nada, as suas algibeiras não chegam para arroz, quanto mais para negociatas, e a extinta anuência de entrada nunca teve. O pano escuro abafa-lhe a cor dos cabelos, mas não lhe camufla a felicidade. “Obrigada deus! Isto é um caso humanitário.” Escusada a lembrança divina.
Motivos evidentes que envolvem risco de vida ultrapassam reservas políticas. Mahmud, um residente de Gaza nascido no Cairo, fumega o fim do cigarro e tranquiliza-a. Garante que um país, ou alguém, que não socorre seres humanos na aflição, em breve, perderá a independência e a alma. Em Fevereiro, o corpo recém-nascido de Hala, mal abriu os pulmões para dar as boas-vindas à vida, arroxeou os lábios que glaciaram. Os dedinhos eram, diz a mãe, invernos. A medicina desenrasca nomes para tudo, sobretudo para doenças. Defeito do septo ventricular é a tradução clínica que decifra o gelo e o violeta da pele.
Em contraste com esse frio que se não for corrigido provoca morte na adolescência, o soldado israelita cumpre as ordens do governo de Ehud Ohmert num instante do sol forte de Novembro. Um sorriso militar. Outro menos protocolar. Raisa encosta a cabeça da petiz no ombro. Depois, sorri de abençoada e do nervoso. Enquanto dá cinco passos e já anda em chão vizinho, olha para trás e despede-se da sua terra: “Disseram-nos que a operação era hoje. E deixaram-nos passar! Agradeço a deus e a eles.”
No dia 28 e àquela hora, David Human, voluntário da organização privada israelita ‘Save a Child’s Heart’ (SACH), cuja exclusiva finalidade é oferecer, a nível mundial, um serviço médico especializado a crianças que padeçam de enfermidades do foro cardíaco, simboliza ‘eles’. O jovem recebe-as com um abraço e uma garrafa de água. Não é a primeira vez que para aquela instituição salvar o coração de uma criança deixou de ser utopia e uma frase embelezada. “Nós viemos dar esperança e vida em condições que, infelizmente, estas pessoas não têm.”
O número é redondo e oficial: 100 crianças de Gaza e do West Bank já passaram por idêntica travessia. A situação dos territórios atingiu o degrau lastimoso resumido na impossibilidade dos habitantes usufruírem direitos básicos e legítimos. Os hospitais funcionam para dois singulares efeitos: tratar de feridos e fazer partos. Os pais de Hala estavam conscientes que a maleita congénita que a magoa somente podia ser resolvida a minutos de casa, curiosamente no país que não é reconhecido pelo seu governo. A vida vale muito mais do que guerras frias e afogueadas.
Em consequência da conclusão instintiva, não hesitaram em contactar a Save a Child’s Heart e pediram ajuda para que a imperfeição cardíaca da filha fosse corrigida. Por decisão unânime o apelo foi de imediato aceite. Hala seria operada no Wolfson Hospital. A custo zero. A factura da humanidade dispensa factura. A condição financeira da esmagadora maioria dos palestinianos nunca conheceu o luxo e é uma incógnita quando fará parte da classe média baixa. “Acreditamos que todas as crianças merecem o melhor tratamento médico”, afirmou Simon Fisher, o director da SACH. E Hala mereceu, tal como todas.
A operação constituiu um êxito. O ventrículo direito e o esquerdo foram ao lugar. Numa cama dos cuidados intensivos envolta numa manta de oxigénio, os lábios de dez meses já não fazem esforço para respirar. A matiz da derme de Hala é rosa feliz. O corpo pequeno já poderá ser adulto sem contar com a espada da morte. Da cirurgia de cinco horas resultou a perícia da cura. “Estou tão feliz por ver que a minha neta está curada.” O lenço negro com que atravessou a fronteira, descai de emoção, mas rapidamente retoma a posição dos cabelos. As mãos são asas que vão em direcção ao céu para agradecer ao médico e ao mesmo deus que exclamou ao soldado. “A medicina é o lógico denominador que ajuda a unir as diferenças entre israelitas e palestinianos”, disse-lhe Fisher antes do abraço.
A IDEIA
A ideia de criar a instituição surgiu durante o tempo em que Amir Cohen, nascido nos Estados Unidos da América, cumpria o serviço militar na península da Coreia. O facto de verificar que crianças órfãs e indigentes eram enviadas para outros países pela impossibilidade de ali serem tratadas, sensibilizou-o. E foi desta sensibilização que nasceu a acção.
Em 1992 o médico Amior Cohen emigra para Israel e integra a equipa do Wolfson Medical Center. Chefe de serviço da unidade de cirurgia cardiovascular e o responsável da cirurgia pediátrica cardíaca, Cohen recebe um pedido de um colega da Etiópia: era preciso operar com a máxima urgência duas crianças daquele país africano.
O gesto humanitário não parou em 2001 aquando da sua morte. O staff de 70 elementos continua a praticar a mensagem que a assaltou na Coreia: salvar crianças não importa raça, cor, sexo e religiões.
Em onze anos, mil crianças, oriundas de vários países de África, Médio Oriente e Ásia, inclusivamente alguns nunca tiveram relações diplomáticas e, muito menos de amizade com Israel, foram operadas a coração aberto no Wolfson Hospital, o centro médico, em Holon, nas imediações da capital, Telavive, onde a Save a Child’s Heart (SACH) tem a sua base clínica móvel. Uma boa ideia naquela conturbada região do mundo.
SAVE A CHILD'S HEART
A tradução literal da sigla não deixa dúvidas – Salve o Coração de uma Criança. Trata-se de uma organização privada israelita, fundada no ano de 1995 pelo cirurgião e cardiologista Amir Cohen, um judeu de origem norte-americana, três anos depois de emigrar para a Terra Prometida. Tem como objectivo a intervenção clínica de crianças que padecem de doenças cardíacas. Vive de donativos de particulares e conta com o apoio da União Europeia.
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