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BENDADA: UMA ALDEIA POUCO CATÓLICA

Os cristãos de Bendada andam divididos há quatro anos por causa do pároco. Não falam uns com os outros, frequentam cafés diferentes e praticam a fé em separado e como podem… e alguns fazem-no através de um televisor instalado numa capela. E tudo começou por causa de uma antena.
27 de Abril de 2003 às 00:00
As celebrações e festividades religiosas em Bendada, no Sabugal, não têm hoje o significado de outros tempos, quando a paz e a harmonia reinavam na aldeia. Devido a um conflito surgido há cerca de quatro anos, e que envolve o padre Manuel Janela, os populares dividiram-se e o mal-estar é agora o dia-a-
dia da localidade.
A tensão tornou-se praticamente incontrolável e chegou ao ponto dos defensores e opositores do padre se envolverem em confrontos físicos. Hoje, quem é solicitado a comentar a situação fá-lo, apenas, sob anonimato porque tem “medo” de possíveis represálias.
A freguesia, onde vivem 400 pessoas, está dividida em dois grupos. As pessoas não se falam, frequentam cafés diferentes e praticam a fé em separado. Uns defendem Manuel Janela e os outros estão contra ele, e ambas as partes envolvidas dizem estar em maioria.
Na aldeia beirã, o ambiente é “de cortar à faca”, como mostram os graffitis contra o padre: “padre rua”, “padre lixo”, “padre ladrão rua” e “padre vampiro rua”. Estas frases estão pintadas em locais de grande visibilidade, como no alcatrão da estrada, nos caixotes do lixo, em paredes e muros. Uma situação que já sentou dois habitantes no banco dos réus, acusados pelo pároco dos crimes de difamação e injúria, porque foram apanhados em flagrante delito a escrever algumas das tão faladas mensagens.
Os fiéis que continuam no “rebanho” do sacerdote assistem à celebração da missa dominical nas capelas anexas da freguesia e os que exigem o seu afastamento reúnem-se na Capela de São Sebastião onde, todos os domingos, assistem à missa pela televisão.
MISSA GRAVADA
“Um senhor grava, em vídeo, a missa do canal da RTP todos os domingos e depois, às 13h30, vemos a cassete na televisão que colocámos em cima do altar, no local onde devia estar o padre”, esclareceu uma habitante, sob anonimato.
Os populares que “não podem encarar o padre” lembram que tudo começou “há quatro anos por causa de uma antena da Optimus, que era para ser colocada num monte junto à capela da Senhora do Castelo, no ponto mais alto da freguesia”. “Nessa altura, o padre e um grupo de pessoas que estavam contra a sua instalação apresentaram o caso ao Instituto do Património Arqueológico da Covilhã, considerando que no local se encontravam vestígios arqueológicos.”
A antena que deu origem à “guerra” esteve para ser colocada noutro sítio mas, conta uma moradora, “mais tarde, os arqueólogos disseram que, afinal, não havia nada de importante no cimo da serra”. Foi instalada mas num local afastado do inicialmente previsto.
“A freguesia passou a ganhar 1500 euros por ano, mas ninguém perdoou o que aconteceu. Ao contrário do previsto, não foi posta luz na capela da Senhora do Castelo. Foi uma vitória do povo e o padre nunca a ‘engoliu’”, dizem os contestatários de Manuel Janela.
A divisão instalou-se na freguesia e as situações de conflito agudizaram-se, causando confrontos físicos entre elementos das duas facções rivais e vários processos no Tribunal do Sabugal.
Um habitante, que contou os casos entregues à Justiça, afirma que entre arguidos e testemunhas, os vários processos levantados pelo sacerdote “já envolveram pelo menos 73 pessoas, só da Bendada”. “Oitenta por cento da população está contra ele e qualquer dia toda a gente passa pelo Tribunal.”
BISPO CRITICADO
Os opositores do pároco afirmam que “não se compreende que o Bispo ainda não tenha tomado uma decisão”. “Nas outras terras, os padres são substituídos ao mínimo problema mas aqui não, porque será? O senhor Bispo está a tentar castigar o povo da Bendada. Os problemas já se arrastam há quatro anos e nunca fez nada”, desabafam.
Os opositores do sacerdote também criticam o presidente da Junta de Freguesia por “deixar fugir” negócios relacionados com a instalação de uma outra antena, da TMN, e um parque eólico. “Dizem que a TMN estava interessada em dar três mil euros e que da energia eólica pagariam 7500 euros por ano. O que verificamos é que se trata de uma riqueza que não é aproveitada”, referiu uma moradora.
Quanto à posição do padre Manuel Janela sobre este problema, a sua empregada respondeu ao Domingo Magazine que “o senhor padre não quer falar com nenhum jornalista, seja ele quem for”, e minimizou o conflito.
Alguns opositores ao padre deslocaram-se duas vezes à Diocese da Guarda para pedirem a substituição do sacerdote mas, até agora, não viram satisfeita a sua pretensão. O vigário-geral da Diocese apenas referiu que o assunto da Bendada “está a ser acompanhado”. N
ELE É UM SANTO
Os apoiantes de Manuel Janela são cáusticos quanto ao conflito. Uma mulher de 80 anos responde de imediato: “Não estou de nenhum lado, nem quero saber de tal m.…”. Esta paroquiana considera que o padre “nunca fez mal a ninguém”. “É uma vergonha o que andam a fazer”, desabafa, acrescentando: “Ele aqui nunca mais disse missa e aos domingos temos que ir assistir às celebrações nas Quintas de Santo António e nos Trigais. Mas só lá vai quem tem carro”.
Inconformada, a mesma paroquiana diz que todo o caso “é uma vergonha”. “Dizem que isto começou com a antena, mas não foi. Nunca pensei que houvesse uma coisa destas na minha terra: estar a igreja fechada e com o Santíssimo Sacramento encerrado no seu interior. O senhor Bispo deveria pôr mão nisto porque o senhor padre não faz mal a ninguém.”
Outra mulher justifica porque está ao lado de Manuel Janela: “Então não havia de ser a favor! Ele nunca fez mal a ninguém. Só é contra quem é doido”.
Maria da Conceição, de 85 anos, mostra-se revoltada com o que se está a passar. “Estamos sem missa por causa deles (opositores). Este homem é um santo, não lhe devo favores mas é uma alma caridosa, não merecia que lhe fizessem isto. Estou a seu lado porque vejo quem tem razão. Por causa disto, até já me partiram o telhado com pedradas”.
JUNTOS SÓ NO CEMITÉRIO
Há quatro anos que os cristãos da aldeia de Bendada, na sua maioria pessoas idosas, não participam em festividades e celebrações religiosas, apenas com uma excepção: os funerais. No Natal, na Páscoa e na Festa de Nossa Senhora do Castelo – a padroeira da aldeia –, não se realiza qualquer cerimónia na Igreja Matriz, pelo que os paroquianos vão à missa nas aldeias vizinhas, onde celebra o padre Manuel Janela, ou limitam-se a assistir à missa gravada na televisão.
A última celebração na Igreja Matriz ocorreu no Natal de 2000 e acabou à facada e com quatro feridos. No final da Missa do Galo, as partes em conflito envolveram-se em agressões físicas e a igreja nunca mais foi aberta, a não ser para funerais, mas até já houve um cortejo fúnebre sem a presença de padre. Para alguns populares, “a Páscoa e o Natal não voltaram a ser como eram”.
Apesar da situação, “a fé ninguém a perdeu”. “O povo tem fé, só queremos outro padre para praticarmos a nossa religião e o Bispo da Guarda não nos ouve”, adiantam. “Este homem (padre) pode estar cá muitos anos, mas se eu morrer hoje, ele não me faz o funeral”, garantiu uma moradora, de 71 anos, acrescentando: “Já se fez cá um funeral sem padre”.
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