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Boas Decisões

‘360’ de Fernando Meirelles, que já realizou ‘Ensaio Sobre a Cegueira e ‘O Fiel Jardineiro’, tem naquele filme o melhor da sua carreira
9 de Setembro de 2012 às 15:00
João Pereira Coutinho, 360, Fernando Meirelles, As Escolhas de
João Pereira Coutinho, 360, Fernando Meirelles, As Escolhas de

O cinema gosta de lidar com os grandes temas da condição humana: a violência;  o sofrimento; o sentido da vida e a inescapabilidade da morte.

Infelizmente, um tema crucial parecia arredado dos ecrãs: a inevitabilidade das escolhas. O que não deixa de ser estranho: quando lemos filosofia antiga, a começar pela estóica, encontramos meditações abundantes sobre o assunto. As escolhas não são apenas inevitáveis para seres racionais; elas são necessárias para evitar paralisias agónicas.

Eis o tema de ‘360’, o último filme do brasileiro Fernando Meirelles, que começa com citação apropriada: “sempre que chegares a uma encruzilhada, toma-a”, diz uma voz em “off”. Por outras palavras: uma decisão, mesmo uma má decisão, é melhor do que uma indecisão contínua. Séneca, nas “Cartas a Lucílio”, já o tinha ensinado.

Os personagens do filme seguem esta filosofia – e, com ela, seguem com as suas vidas também. E nós com eles.

As personagens

Temos duas irmãs que optam por caminhos distintos: a primeira pela prostituição de luxo; a segunda por um homem que mal conhece mas com quem parte para um destino seguramente diferente.

Temos o dentista parisiense (e muçulmano) que se apaixona pela assistente (casada) mas que, dilacerado pelo ordálio,  escolhe o afastamento e o silêncio sobre  o que sente. 

Temos o antigo presidiário, com cadastro de abusos sexuais, que na sua saída condicional é obrigado a escolher entre o tortuoso instinto e o igualmente tortuoso autocontrolo.

Temos o pai que procura a filha desaparecida – um Anthony Hopkins sempre irretocável  e que oferece o melhor monólogo de todo o filme: uma apologia da vida, e da imperiosa necessidade de a viver, apesar dos reveses terríveis que esta por vezes nos reserva.

Temos, no fundo, várias histórias, em várias cidades, que se cruzam, aprofundam e enriquecem.

E Meirelles, que sempre mostrou um dedo pesado nos temperos visuais (lembrar a histeria formal de “O Fiel Jardineiro” ou “Ensaio Sobre a Cegueira”), desta vez vai seguindo cada personagem com elegância e fluidez, a que não é estranho o argumento subtil de Peter Morgan inspirado na peça clássica  de Arthur Schnitzler,  ‘La Ronde’. Um “puzzle” perfeito.

Moral da história? Vivemos num mundo que a tecnologia encolheu e tornou mas pequeno e interligado. Mas esse admirável mundo novo não alterou a matéria de que somos feitos e os dilemas que temos de enfrentar, independentemente de nacionalidades, credos ou classes sociais: ser fiéis ou não; arriscar ou não; tomar um dos caminhos da encruzilhada e ver para onde ele acabará por nos levar.

Em tempos de vacas cinematográficas bem magras, ‘360’ é o melhor filme de Fernando Meirelles e uma colheita que merece ser saboreada. lD 

RESUMO: Inspirado em ‘La Ronde’, de Arthur Schnitzler, ‘360’  conta as histórias de diversas pessoas. De Viena aos EUA.

De Fernando Meirelles

Intérpretes Rachel Weisz, Jude Law e Anthony Hopkins,

Em exibição  nos cinemas

 

Filme

‘Habemus Papam’

E se um dia o Papa eleito em conclave tivesse uma crise de pânico e recusasse tamanha graça e responsabilidade? Eis a pergunta de Nanni Moretti, que a crítica considerou blasfema. 

Não sei porquê. ‘Habemus Papam’ é um retrato sobre a fragilidade de um homem (Michel Piccoli) que sente sobre os ombros o peso de uma missão sobre-humana. Haverá tema mais cristão do que este?

Realizador: Nanni Moretti

Em DVD 

 

Llivro

‘Um Ensaio sobre a Constituição da Europa’

O ensaio de Habermas sobre o futuro da Europa merece ser lido para perceber como funciona a cabeça utópica de alguém que se apresenta como antiutópico: a União Europeia vive uma “crise de confiança”? Sem dúvida. Mas isso não se resolve, ao contrário do que defende o autor, pela construção “artificial” de uma democracia transnacional europeia.

Autor: Jürgen Habermas

Editora: Edições 70 

 

Disco

‘Queen of Denmark’

Ninguém sabia quem era John Grant antes de ‘Queen of Denmark’: os seus anos como vocalista da banda The Czars não deixaram marcas. Essa indiferença terminou em

2010, quando a Mojo elegeu este disco como o Melhor Álbum a Solo do ano. Justíssimo. Grant é um notável compositor e intérprete – e uma das vozes mais impressionantes do moderno pop americano.

Autor: John Grant

 

Fugir de

‘O Exótico Hotel Marigold’

O filme tinha tudo para dar certo.  A começar pelos actores (Judi Dench, Maggie Smith, Penelope  Wilton, etc.).  Infelizmente, fica-se pelo postal ilustrado sobre um grupo de veteranos que parte para a Índia em busca de um ânimo final. Maior cliché, não há. E ainda está por aparecer um filme com igual cenário, mas onde este tipo de aventuras terminam mal e com disenteria à mistura.

Em DVD  

João Pereira Coutinho 360 Fernando Meirelles As Escolhas de
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