Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
1

Bom capital

Em ‘Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme’, a personagem ‘Gekko’ tem uma segunda oportunidade. Também o realizador do filme, Oliver Stone
João Pereira Coutinho 10 de Outubro de 2010 às 00:00
Bom capital
Bom capital

Oliver Stone está a ficar velho. Ou talvez seja eu a envelhecer. Mas gostei do novo ‘Wall Street’, provavelmente por ter na memória a mediocridade do antigo.

No ‘Wall Street’ original, Stone cedia ao seu pecado capital: o maniqueísmo ignaro e caricatural do esquerdismo infantil americano, que o cineasta igualmente exibe nos filmes sobre o Vietname (‘Platoon’, ‘Nascido a 4 de Julho’ e ‘Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar’), bem como na trilogia presidencial (‘JFK’, ‘Nixon’ e ‘W.’).

Nesse ‘Wall Street’ de 1987, o primitivismo de Stone estava concentrado na figura de ‘Bud Fox’ (Charlie Sheen) que, recusando a honradez telúrica e laboral do pai (primoroso Martin Sheen), procura subir depressa demais, e ilegalmente demais, na cadeia alimentar da riqueza americana. "Não há nada de nobre na pobreza", diz ele, com diabólica soberba.

Para tanto, ‘Bud’ conta com a ajuda de ‘Gordon Gekko’ (Michael Douglas), um milionário histriónico para quem a ganância é o verdadeiro mecanismo de "selecção natural" entre a espécie humana: a ganância separa os ambiciosos dos perdedores, e esse caridoso serviço deve ser reconhecido e até apoiado.

Na pena moralista de Oliver Stone, ‘Gekko’ e ‘Bud’ acabam mal e o dedo em riste do realizador parecia dizer-nos: "o capitalismo destrói almas; afastem-se dele!" Uma advertência grave que implicava uma pergunta necessariamente grave: mas se o capitalismo destrói almas, quais serão as alternativas?

Durante uns tempos, Oliver Stone procurou-as. Chegou até a ir a Cuba, filmar um dos documentários mais sabujos de que há memória sobre Fidel Castro e respectiva sabedoria colectivista.

REDENÇÃO

Felizmente para Cuba (e para Stone), o comunismo já nem para os cubanos serve (palavras de Fidel) e o novo ‘Wall Street’ abandona os tiques do primeiro: ‘Gordon Gekko’ continua o mesmo ganancioso de sempre, disposto até a atraiçoar a confiança dos mais próximos para regressar ao topo da pirâmide. Mas a condenação moralista de Stone já não se dirige para o sistema capitalista como um todo; apenas para os tubarões que se aproveitam dele e, no limite, o destroem. Tubarões bem piores do que ‘Gordon Gekko’.

Além disso, se no primeiro ‘Wall Street’ não há salvação para ‘Gekko’, neste segundo filme da série é-lhe concedida uma última oportunidade de redenção e até de sabedoria: acontece no final, quando ‘Gekko’ entende que a única riqueza que verdadeiramente possuímos é o tempo que nos resta.

Quem diria? Quem diria que, para Oliver Stone, mesmo na alta finança de Wall Street é possível encontrar "o leite da ternura humana"? 

RESUMO

‘Gordon Gekko’ sai da cadeia com uma dupla missão: refazer a fortuna e retomar a sua relação com a filha. Mas o mundo mudou: um mundo onde a ganância não apenas é boa como legal – e ilimitada.

REALIZADOR

Oliver Stone

INTÉRPRETE

Michael Douglas

Em exibição (M/12)

DVD: ‘LET’S GET LOST’

"No documentário sobre Chet Baker, um dos músicos que o acompanhou afirma que não é possível entender a arte de Chet sem olhar para o ambiente em que ele viveu: na Costa Oeste, rodeado pelo sol do Pacífico, pela beleza (feminina) e por um certo romantismo existencial, que o songbook americano apenas amplifica. Na Costa Leste nunca compraram esta ‘doçura de vida’. Eu compro".

Género: Documentário

Realizador: Bruce Weber

LIVRO: ‘ÁFRICA DENTRO’

"Converteu-se em cliché dizer que a Fundação Gulbenkian é um estado dentro do Estado: nas áreas da saúde, da educação, da ciência e das artes, a Gulbenkian rivaliza com qualquer ministério. Menos conhecido, porém, é o seu papel na "África portuguesa": na formação de elites e no serviço ao público. Os relatos de Maria João Avillez preenchem essa lacuna com a inteligência e a elegância habituais" .

Editora: Fundação Calouste Gulbenkian (Págs. 137)

LIVRO: ‘PORTUGAL, POVO DE SUICIDAS’

Miguel de Unamuno andou por cá nos inícios do século XX e viu um povo resignado e triste, com queda para o suicídio. E cita: Antero, Camilo, Laranjeira, Soares dos Reis. A "ânsia de martírio", nos portugueses, não se exerce sobre os outros, mas sobre os próprios, escrevia Unamuno. Pena que não tenha visto o que há de vaidade e megalomania num povo assim".

Tradução, selecção e apresentação de textos: Rui Caeiro

Editora: Bismo (págs. 98)

FUGIR DE...

‘TAMARA DREWE’

"A crítica britânica aplaudiu ‘Tamara Drewe’ porque o filme representava, com subtileza irónica, os dramas e dilemas da classe média britânica. Lamento. Prefiro mil vezes os proletários de Ken Loach ou Mike Leigh a esta comédia amarga e insípida sobre o ‘tédio de vida’ dos literatos rurais. Uma das grandes desilusões do ano".

Resumo: A jornalista ‘Tamara Drewe’ regressa à terra onde nasceu para alterar a vida dos que ficaram.

Realizador: Stephen Frears

Em exibição

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)