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Brancos, castanhos e com uma bolinha preta

“(...) e só uma criança com quatro anos e meio consegue ainda olhar para os olhos de alguém e ver aquilo que realmente lá está”.
5 de Dezembro de 2010 às 00:00
Brancos, castanhos e com uma bolinha preta
Brancos, castanhos e com uma bolinha preta FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

O Tomás anunciou que tinha uma nova namorada. "Chama-se Francisca." Como há uma dúzia de raparigas na turma do Tomás, nem eu nem a minha excelentíssima esposa estávamos a ver lá muito bem quem era a Francisca. "Ela tem os olhos azuis?", perguntou a Teresa, tentando juntar o nome a uma cara. "Não", respondeu o Tomás. "Ela tem os olhos brancos, castanhos e com uma bolinha preta."

É uma daquelas respostas maravilhosas que despertam sorrisos e orgulham os fornecedores do património genético da criancinha. "Estamos a criar um Cyrano de Bergerac", pensei. Um Cyrano esperto, perspicaz e romântico, como convém. E sem o nariz grande. Para o Tomás, os olhos da Francisca não são azuis nem castanhos. São castanhos e brancos e com uma bolinha preta. E é verdade, são isso mesmo, e só uma criança de quatro anos e meio consegue ainda olhar para os olhos de alguém e ver aquilo que realmente lá está.

Ser pai não é a alegria celeste que tantas vezes se quer vender. Os filhos roubam-nos as noites, trituram-nos a paciência e testam diariamente os alicerces de um casamento. Não há progenitor que não se tenha questionado pelo menos uma vez de como seria a sua vida se a cegonha tivesse ficado retida em Paris. Mas depois há momentos como este, que felizmente se vão acumulando à medida que eles ficam mais inteligentes e articulados, em que um pai tem o privilégio de voltar a descobrir o mundo pela mão dos seus filhos.

Voltar a descobrir o que é um olho e como nós, os adultos, nos esquecemos de dois terços das suas cores. Voltar a descobrir o que é uma nota de dez euros – "uma folhinha de papel cor-de-rosa", como lhe chamou um dia a Carolina. Voltar a descobrir as formas que as árvores têm, como quando um deles perguntou, durante uma viagem de carro: "Papá, por que é que as árvores têm buraquinhos?", referindo-se à luz que atravessava a folhagem.

Isso é, de facto, um privilégio. Um privilégio que recentra as nossas atenções e nos traz de volta ao essencial. Pela mão dos nossos filhos, regressamos a uma espécie de origem do mundo, quando o olhar e a linguagem possuem ainda uma frescura que os anos vão erodindo. Dizem-nos muitas vezes que é preciso ver para além do óbvio. No entanto, por causa da cor dos olhos da Francisca, o Tomás ensinou-me que nem o óbvio muitas vezes conseguimos ver.

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