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Breve história de amor

“Ela vai à livraria perto de casa e repara nele, absorto, a folhear um livro”
Tiago Rebelo 6 de Junho de 2010 às 00:00
Breve história de amor
Breve história de amor

Ele conhece-a em casa de amigos. Vê-a sozinha lá fora, no pátio. Tem um prato equilibrado nos joelhos e uma expressão introspectiva. Ele aproxima-se e pergunta-lhe se se pode sentar ao seu lado. Ela mostra-lhe um sorriso aberto. Apresentam-se, começam a falar de assuntos mundanos, descobrem interesses comuns, gostam um do outro. Mais tarde, o namorado dela aproxima-se e diz já é tarde, vamos? Ela despede-se, vai-se embora. A namorada dele vem sentar--se no lugar onde ela estava e pergunta-lhe quem era. Ele não dá importância, alguém que conheci agora. Mas fica a pensar nela.

Passa uma semana. Ela vai à livraria perto de casa e repara nele, absorto, a folhear um livro. O coração ganha vida. Aproxima-se. Encontrou alguma coisa interessante? Oh, olá! Exclama ele, encantado por revê-la. Não, nada de especial, e você? Acabo de chegar, responde.

Tomam um café. Falam dos livros que leram, de outras coisas, de tudo e de nada. Riem-se, sentem-se bem juntos e voltam a encontrar-se no dia seguinte, e nos outros dias todos. Agora já não se podem ignorar. Encontram-se em ruas secretas nos intervalos dos dias, a cada oportunidade da vida.

Estão em casa dela a meio da tarde, a meio da semana. Beijam-se, querem-se, fazem amor. O dia acabou, o quarto caiu na penumbra, estão abraçados, felizes, e decidem que vão ficar juntos, aconteça o que acontecer. Mas dois meses mais tarde ela diz-lhe acabou, vou-me embora, não é isto que eu quero. O que é que tu queres, pergunta-lhe ele, com a respiração suspensa. Uma vida normal, sem segredos. Imóveis, frente a frente na rua, no meio do passeio, ligados pelas mãos, olhos nos olhos. Não me amas, pergunta-lhe ele. Eu quero-te, mas é demasiado complicado, responde ela, e tu és só para as coisas boas. As coisas boas não valem muito, diz ele, as coisas más são as que contam. Estou triste, murmura ela, se fosse uma situação diferente... quem sabe? Talvez um dia. Não há um dia, só há agora, ficas ao meu lado nos momentos difíceis e eu faço o mesmo por ti, é isso o amor. Mas eu não posso, diz ela, não consigo... não me odeies, pede-lhe. Não te odeio, responde-lhe, desolado. Compreende que chegou a altura de a deixar ir, larga-lhe as mãos, separam-se, ela recua alguns passos, gente de passagem atravessa-se entre eles. Adeus, murmura ele sem palavras. Adeus, responde ela, igualmente sem palavras, depois volta-se e parte, misturando-se entre a multidão. Ele acende um cigarro e fica a vê-la afastar-se. Fica ali até a perder de vista. Atira fora o cigarro e, quando começa a andar no sentido contrário, sente-se gelado até à alma.

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