Cabo Costa: O serial killer que queria sexo

Foi de respeitado membro da comunidade de Santa Comba Dão a homicida pervertido. A rejeição sexual foi pretexto.
Por Carlos Anjos|22.03.15
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Cabo Costa: O serial killer que queria sexo
Cabo António Costa, casado e com filhos, acabou condenado a 25 anos Foto Paulo Cunha/Lusa

António Costa era um militar da GNR, na reserva. Homem conhecido em Santa Comba Dão, onde residia numa moradia em Cabecinha de Rei. Pessoa bem vista socialmente, pela sua profissão e pelas atividades de caráter social, associativo e religioso em que estava envolvido. Mas o impensável acabou por acontecer.

A PRIMEIRA VÍTIMA

Isabel Cristina de Sousa Isidoro, nascida a 12 de janeiro de 1988, foi morta quando tinha 17 anos.

No dia 24 de maio de 2005, cerca das 12h00, António Costa conduzia a sua viatura perto da sua casa quando avistou Isabel Cristina. Parou o carro e começou a conversar com a rapariga e ofereceu-lhe boleia para casa dela. A jovem aceitou e entrou no carro de António Costa.

Durante o percurso, Costa perguntou-lhe quando é que ela lhe pagava os 25 euros que ele lhe emprestara na véspera. A jovem respondeu-lhe que não tinha como lhe pagar, mas que estava disposta a fazer sexo com ele. Costa anuiu e de imediato conduziu a sua viatura até um pinhal próximo, onde rebateu o banco traseiro para ficar com mais espaço na bagageira, onde ambos se instalaram e tiveram relações sexuais.

Findo o ato sexual, Isabel Cristina disse-lhe que iria fazer queixa dele à GNR, por violação. António Costa, irritado com a ameaça, gritou com a jovem. Durante a discussão, agrediu Isabel, tendo-lhe dado um empurrão que a projetou contra um dos painéis interiores do carro, onde esta bateu violentamente com a cabeça. A força do embate foi tal que Isabel começou de imediato a sangrar da cabeça e a espumar da boca. Em vez de socorrer a rapariga, António Costa decidiu asfixiá-la, largando-a apenas quando pensou que estava morta. Decidiu então desfazer-se do corpo.

Como conhecia bem a zona da Figueira da Foz, onde tinha um apartamento de férias, decidiu levar o corpo para lá e atirá-lo ao mar. Fechou o corpo de Isabel na mala do carro e dirigiu-se à Figueira da Foz. Antes, parou em sua casa, onde arranjou sacos de serapilheira e fio de nylon.

Já na Figueira, dirigiu-se para o cabo do Mondego e parou o carro. Abriu a mala e colocou o corpo de Isabel nos sacos que levava de casa, tendo-os atado com o fio de nylon. Colocou ainda dentro do saco um pedaço de uma viga de cimento que encontrou no local, para que o saco se afundasse imediatamente. Carregou depois o saco até ao alto da falésia, de onde o atirou para o mar, com a certeza de que Isabel estava morta e convicto de que o corpo não mais seria encontrado. O que não era verdade. Segundo o relatório da autópsia, entre outras lesões, foi detetada a presença de material estranho nas vias respiratórias profundas, resultado da entrada de água nas vias respiratórias, pois Isabel ainda respirava quanto caiu no mar. A causa da morte acabou por ser asfixia por afogamento. Depois de se ter desfeito do corpo, o arguido regressou à sua residência, onde chegou ao final da tarde, continuado a sua vida como se nada se tivesse passado.

O cadáver de Isabel acabou por dar à costa a 31 de maio. Foi encontrado por um pescador perto da praia do Cabedelo, na Figueira da Foz. O cadáver estava ainda dentro do saco.

A SEGUNDA VÍTIMA

Mariana Gonçalves Lourenço, nascida a 29 de abril de 1987, foi morta aos 18 anos.

No dia 14 de outubro de 2005, cerca das 11h00, António Costa estava no quintal da sua casa quando viu Mariana na rua e meteu conversa com ela. A jovem, como o conhecia há muito tempo, não teve problema algum em falar com o seu vizinho. Costa convidou-a a acompanhá-lo a um terreno contíguo, onde existia um barracão, dizendo-lhe que lhe queria mostrar uma coisa.

Percorreram alguns metros a pé, ainda na estrada principal, e tomaram um caminho de terra batida que dava acesso ao local onde estaria o que ele dizia que lhe queria mostrar. Chegados ao local, Costa fez com a Mariana entrasse no barracão e no interior do espaço revelou-lhe a sua intenção. Disse-lhe que ela era muito bonita e avançou para a beijar. Surpreendida, Mariana rejeitou-o, empurrou-o, impedindo-o de a beijar. Gritou e chamou-lhe nomes e disse-lhe que ia contar aos pais e, de seguida, à GNR. António Costa reagiu, agarrando-a com força, com vista a manietá-la e a conseguir beijá-la, como era sua intenção. Como Mariana continuou a debater-se, ele, irritado pela rejeição da jovem, passou o seu braço direito à volta do pescoço de Mariana, fazendo-lhe uma gravata e sufocando-a. Manteve aquela pressão até ela deixar de respirar.

António Costa provocou a morte da jovem. Depois de lhe tirar a vida, viu-se obrigado a desfazer-se do corpo para esconder o crime. Foi a sua casa buscar o carro.

Regressou ao local com sacos de serapilheira e fio de nylon para ensacar, atar e transportar o corpo da jovem. Desta vez, decidiu que o atiraria para dentro da barragem do Coiço, em Penacova. Atirou o corpo para água doce porque acreditava que as hipóteses de ele aparecer eram menores.

António Costa conduziu a viatura até ao IP3, seguindo em direção a Coimbra. Parou a viatura junto à confluência da ribeira de Mortágua com o rio Mondego, por baixo da ponte do IP3. Foi esse o local escolhido por ter águas profundas.

O corpo da jovem permaneceu submerso até ao dia 1 de junho de 2006, quando apareceram partes do cadáver junto à grelha da entrada do túnel de acesso de água às turbinas da mini-hídrica da zona. O corpo de Mariana estava já em avançado estado de decomposição, quando um funcionário que operava uma máquina de limpeza, tipo garra, o trouxe para a superfície, ao apanhá-lo a 14 metros de profundidade.

A TERCEIRA VÍTIMA

Joana Margarida Marques de Oliveira, nascida a 28 de dezembro de 1988, foi morta quando tinha 17 anos.

António Costa era vizinho de Joana. A família dela conhecia-o e estimava-o. Em fevereiro de 2006, Costa pediu uma opinião à jovem sobre um determinado pormenor do seu jardim. Joana anuiu a ajudá-lo. No dia 8 maio de 2006, a jovem saiu da escola cerca das 12h00, tendo seguido a pé para casa como fazia habitualmente. O caminho para casa passava junto à residência de António Costa, que nesse dia estava sozinho em casa, pois a mulher estava no seu local de trabalho – a escola secundária da vila.

Quando viu a jovem passar, meteu conversa. Tal como havia feito com Mariana, convidou Joana a acompanhá-lo ao já referido barracão – tinha de lhe mostrar uma coisa.

Joana Marques de Oliveira  acompanhou-o ao local. Tal como havia acontecido com Mariana, seguiram a pé pela estrada principal, após o que tomaram o caminho de terra batida, que dava acesso ao dito barracão. Desta vez, António Costa não esperou entrar no barracão. Ainda no caminho de terra batida atirou-se a Joana, pedindo-lhe um beijo. A jovem recusou e, indignada, disse-lhe que tivesse juízo, que era casado, que era vizinho dela, amigo dos seus pais e que devia estar maluco. Disse-lhe que iria contar tudo.

António Costa não se comoveu com a reação de Joana e tentou agarrá-la. A jovem atirou-lhe a mala da escola à cara dele. Mais uma vez, teve dificuldades em lidar com a rejeição e perante a recusa da jovem agarrou-a com força para a manietar. Joana não se rendeu e continuou a debater-se. Como mais uma vez não conseguiu os seus intentos, passou-lhe os braços à volta do pescoço, tal como havia já feito com Isabel e Mariana, apertou-o com força até ela sufocar, tirando-lhe a vida. Mas Joana deu luta e arranhou-lhe o braço direito. Os óculos da jovem caíram ao chão e partiram-se. Vieram mais tarde a ser encontrados no local pelos inspetores da PJ.

António Costa foi a casa buscar o carro e dois sacos de serapilheira e fio de nylon. Pegou no cadáver de Joana e colocou-o na bagageira do carro, sendo que, desta vez, deixou diversos vestígios de sangue na mala do carro, que foram mais tarde identificados como pertencentes a Joana. Dirigiu-se novamente à barragem do Coiço. Meteu o corpo nas duas sacas, atou-as com o fio de nylon a meio do corpo e meteu pedras para fazer peso e atirou o corpo à água da barragem.

O corpo de Joana permaneceu submerso até 24 de junho, altura em que, na sequência das buscas feitas para resgatar o cadáver – chegaram a esvaziar a barragem em cerca de quatro metos de altura –, veio a ser encontrado numa zona próxima do local onde o homicida o tinha lançado.

As investigações feitas pela PJ incidiram sobre a sua residência em Cabecinha de Rei, Santa Comba Dão, o apartamento que possuía em Tavarede, na Figueira da Foz, e a viatura, onde foi encontrado sangue na bagageira, identificado como sendo de Joana.

No dia 22 de junho, António Costa confessou à PJ ser ele o responsável pela morte das três jovens, bem como pelo destino dado aos seus corpos. Também perante o juiz de instrução, confessou todos os crimes, a forma detalhada como atuou, tendo sido ele quem indicou o local exato onde os crimes ocorreram. Referiu também o local onde se desfez dos corpos, bem como os percursos por si utilizados, tendo colaborado ativamente na reconstituição dos factos. Mais tarde terá reconsiderado, motivo pelo qual alterou a sua estratégia, tendo passado a declarar-se inocente. Mas era tarde, muito tarde mesmo. A prova estava recolhida e António Costa veio a ser condenado em audiência de julgamento a 25 anos de prisão.

Este caso remete-nos para a análise da dimensão psíquica: como explicar que um homem que durante 50 anos teve uma vida normal, uma carreira profissional bem-sucedida, bem integrado socialmente, se tenha transformado numa máquina de matar de um dia para o outro? O que é que terá passado na cabeça do cabo António Costa? Dos factos apurados, resulta que, depois do primeiro homicídio, a situação ficou pura e simplesmente incontrolável e que António Costa gostou do prazer de tirar a vida a alguém. Só assim se explica o comportamento subsequente, com a agravante de as vítimas serem todas elas pessoas que moravam perto de si, portanto das suas relações.

A questão que fica é o que teria acontecido se este homem não tivesse sido detido. Será que tinha parado de matar ou pelo contrário continuaria a praticar este tipo de crime, até que um dia mais tarde pudesse ser identificado e detido? Acredito sinceramente que se a PJ não o tem detido, António Costa tinha voltado a matar.

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