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Cada vez mais jovens e dependentes

Os telemóveis são o novo melhor amigo, mas, em excesso, causam transtornos.
Vanessa Fidalgo 26 de Maio de 2019 às 12:00
FOTO: Direitos Reservados

Os telemóveis vieram para ficar na vida das famílias portuguesas e o estar constantemente ligado é uma realidade à qual já nem os mais pequenos escapam. O aparelhinho de uso pessoal com mil e uma utilizações divide opiniões mas, sobretudo, tem tendência para fugir ao controlo paternal e às recomendações dos pediatras.

Segundo um estudo da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), uma em cada cinco crianças portuguesas entre os três e os oito anos têm telemóvel e metade são smartphones. Mas subindo um pouco a fasquia da idade, o telemóvel mostra-se incontornável. Segundo o Barómetro de Telecomunicações da Marktest, no primeiro trimestre de 2018 83% das crianças portuguesas entre os 10 e os 12 anos tinham telemóvel, número que passa para os 97% se considerarmos os jovens entre os 13 e os 17 anos.

De acordo com o estudo ‘Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças’, publicado pela Universidade Católica Portuguesa no ano passado, os pais são os primeiros a passar os dispositivos eletrónicos para as mãos dos filhos, tornando-os uma espécie de babysitter eletrónica para quando é preciso ‘trabalhar em casa’ ou manter ‘os miúdos calmos no restaurante’ – foram as principais razões apontadas. E os que mais usam aplicações são os que têm entre zero e os dois anos.

Berta Pinto Ferreira, pedopsiquiatra, lembra que a Sociedade Portuguesa de Pediatria não recomenda o uso de telemóveis por crianças com menos de 2 a 3 anos, mas o que lhe chega ao consultório é bem diferente. "Começam mais cedo e passam cada vez tempo a mais a brincar com eles nessa ou em idades mais avançadas, segundo nos dizem as consultas e os estudos mais recentes". Por um lado porque as próprios pais "estão agarrados ao telemóvel", por outro pela própria "necessidade de os manterem mais sossegados porque estão cansados, porque têm de trabalhar, fazer coisas, etc".

Mas as consequências não se fazem demorar e manifestam a vários níveis. "Há estudos que apontam para trasos no desenvolvimento da linguagem, que se desenvolve em contacto com o outro e os telemóveis, obviamente, não nos respondem. Depois tem impacto na empatia (que também se desenvolve com o outro), no sono, na obesidade porque é uma atividade sedentária e, por último, a consequência final é a dependência", avisa. A

Mas os telemóveis são "muito mais apelativos que um livro, atrativos e, se forem usados de forma acompanhada, como ferramenta de aprendizagem, recorrendo a alguns jogos educativos, até podem desenvolver algumas capacidades cognitivas e contribuir para a aprendizagem", reconhece. E até mesmo em termos de socialização também têm as suas vantagens: "muitos miúdos levam-nos para a escola para ouvir a mesma música juntos. Isso é bom".

O problema é o tempo que se passa a interagir só com eles. Segundo um estudo exploratório feito pelo Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas publicado em Março deste ano pela revista ‘Acta Médica Portuguesa’: 3,9% das crianças inquiridas revelaram comportamentos típicos de dependência e um terço (33,3%) foram consideradas em risco. 

"Chegam-nos adolescentes com sinais claros de dependência, que muitas vezes estão até às duas ou três da manhã no telemóvel, com claro impacto psicológico: além de cansaço, trazem perturbações de ansiedade e depressivas. Por outro lado, atualmente, ninguém desliga os telemóveis, estamos disponíveis 24 horas por dia não vá alguém querem falar connosco a qualquer hora, e isso também cria stress. E há situações de dependência que têm de ser tratadas como tal", frisa Berta Pinto Ferreira que apela "à sensibilidade dos pais" e ao "devido acompanhamento".

João, de nove anos, e Afonso, de oito, usam o tablete desde o primeiro ano de vida, para ver vídeos, desenhos animados e jogar. Mas o telemóvel chegou lá a casa causado por outras vicissitudes. "Quando eu e o pai nos separámos, há um ano, demos-lhes os telemóveis para podermos falar com eles quando estivessem na casa do outro. No início serviu para isso, para trocar aquela mensagem de despedida, antes de deitar. Agora eles usam-no mais para os vídeos e para falar no grupo dos colegas de turma do WhatsApp", afirma Tânia Parreiras, a mãe, de 36 anos. Mas, por vezes, também se esquecem dele desligado ou sem bateria "durante dias e dias a fio" e preferem ir fazer outras coisas, concretamente, jogar futebol. Tânia, reconhece, no entanto, que há muito que o pediam: "Talvez desde os cinco, seis anos, sobretudo o João".

A mãe controla o que veem no You Tube através do histórico, pois os garotos usam a conta de Tânia para aceder. "Redes sociais ainda não têm e não sei muito bem como vou reagir quando acontecer. Uma coisa é certa: vou controlar", garante. O mesmo acontece em alturas de testes e trabalhos de casa. "Os aparelhos ficam longe", frisa. Mas vão em alturas de férias e passeio:" talvez porque nós, os pais, quando estamos mais cansados ou precisamos de fazer tarefas. Quando eles eram pequenos levavam sempre o tablet para ir a um restaurante".     

Luísa Januário, 42 anos e três filhas. Ana Carolina, de 10 anos, Catarina, de 17 e Alexandra de 19. Tiveram o seu primeiro telemóvel por volta dos dez anos. A mãe reconhece no entanto, que "entre a mais velha e a mais nova, houve diferenças geracionais".  

O de Ana Carolina chegou há poucos meses, comprado com o seu próprio dinheiro, amealhado das mesadas e prendas de aniversário. "Desde pequena, dos quatro ou cinco anos, que quer mexer no meu ou no das irmãs". Usa-o essencialmente para "jogar, ver vídeos e conversar no Whatsapp com os colegas de turma, onde já quase todos têm também telemóvel. "Também tem Instagram, foram as irmãs que lhe criaram, mas sou eu que tenho a password", diz a mãe. 

Na escola primária, onde frequenta o 4º ano, os telemóveis só saem da mochila à hora do recreio. O que não a deixa propriamente feliz: "antes brincávamos mais, agora parece que o recreio perdeu a piada porque está tudo sentado nos telemóveis!", lamenta Ana Carolina.

Para a mãe, são um mal necessário: "Sobretudo em relação às mais velhas, para saber onde e como estão. Mas acho que não devemos proibir porque o fruto proibido é sempre o mais apetecido". Por isso, há regras bem definidas, até porque Ana Carolina, além da escola, tem outros deveres: estuda no conservatório nacional de música e toca percussão numa banda filarmónica. "Durante a semana, não há telemóvel. E aí sim, está um bocadinho de manhã, depois mais um bocadinho à tarde. Mas tem tempo para tudo: trabalhos de casa, música, brincar e telemóvel", diz Luísa, que reconhece que muitas vezes os pais facilitam, "nem tanto por pressão dos miúdos mas porque o tempo é pouco e é preciso entretê-los com qualquer coisa". Luísa já usou o argumento de tirar o telemóvel como castigo: "por não estarem a fazer o que deviam". E resultou.

Lá em casa, é Catarina, de 17 anos, que passa mais tempo agarrada ao aparelho. Tanto que às vezes se sente farta. "É verdade que ás vezes deixo os trabalhos de casa e outras coisa para depois para estar no telemóvel e fico horas a mais do que devia. Mas às vezes também fico farta e até sinto que preciso de fazer um ‘detoux’.   

 Os crimes do teclado
Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, alerta para o facto destes dispositivos promoverem a "constante busca por atenção e estímulo da superficialidade através a comparação social em detrimento da   profundidade".

Ao parecer ‘versus’ ser juntam-se os riscos físicos: "o cyberbullying e os outros riscos potenciais, resultantes da  
exposição potencial a conteúdos impróprios, contactos e comunicação com terceiros - conhecidos ou desconhecidos - riscos associados a práticas comerciais e publicitárias não-éticas e, sobretudo, à datificação das crianças". Ou seja, a divulgação de dados pessoais que possam por a sua integridade em risco.

Aos pais cabe uma tarefa com nome feio: controlar. "O que é mais difícil por ser um dispositivo privado, móvel, e de bolso. No entanto, os principais sistemas operativos disponibilizem ferramentas de controlo parental e existem no mercado ferramentas especializadas neste tipo de tarefas que podem facilitar a vida aos pais", explica o especialista em segurança na internet Tito de Morais.

O recreio já é digital
Às escolas, os telemóveis também já vieram para ficar. O recreio, por natureza, é uma altura livre, que os alunos ocupam da forma que pretenderem, durante a qual - segundo o Estatuto do Aluno - o uso de telemóveis e outros dispositivos tecnológicos dentro do recinto escolar só é permitido com autorização da direção da escola ou do   professor. "Os limites estão portanto definidos. A questão é da vontade em os fazer ou não fazer cumprir. Pessoalmente, não me parece que a proibição seja a solução. Alias veja-se a situação presentemente. Se as crianças passam os intervalos ocupadas a olhar para os ecrãs, a culpa é nossa, porque como adultos não lhes arranjarmos alternativas mais interessantes para ocuparem o seu tempo. Às tantas, são animadores desportivos, artísticos e culturais nos intervalos. Às tantas, o que falta não é ser mais rígidos e impor limites, às tantas o que falta é ensinar as crianças a brincar", sugere Tito de Morais.

Mas é também na escola que os professores mais sentem os efeitos dos telemóveis. Judite Esteves, professora na EB 2,3 Cardoso Lopes, na Amadora, nunca teve conhecimento na sua escola de um crime de cyberbullying mas já presenciou autênticos dramas quando há um aparelho "apreendido, perdido ou roubado".

"Sente-se nos jovens o desgosto de ficar incomunicável aliado ao medo da reação dos encarregados de educação. É principalmente nestas situações que constatamos o nível exagerado de dependência", constata. Na Cardoso Lopes, as regras estão bem definidas: É obrigatório todos os alunos depositarem o aparelho, devidamente desligado, em bolsas numeradas que existem à entrada de todas as salas de aula.

Mas aos intervalos, pelos ecrãs que os seus olhos espreitam e somam de soslaio, não deverá andar "muito longe da verdadeira percentagem" se considerasse que cerca de 90 por cento dos alunos têm telemóvel e alguns têm mais do que um…

"Tanto é usado para comunicar como para jogar. Sem dados concretos, a sensação que tenho é que as raparigas o utilizam mais para comunicar nas redes sociais e os rapazes para jogar", calcula.

Mas o que mais constatam os professores é o nível de dependência. "O telemóvel tornou-se um objeto de extrema importância na vida da maioria das pessoas. Dificilmente poderia ser diferente a relação com um utensílio que reúne tecnologias que permitem telefonar, enviar mensagens, aceder a sites, redes sociais, vídeos, jogar, pesquisar, fotografar e certamente muito mais… Possivelmente qualquer um dos meus alunos poderia juntar ainda outras funções que desconheço. Quando uma criança tem acesso a um instrumento desta dimensão e aprende a manuseá-lo o caminho para a dependência está aberto. Uns utilizam-no de forma moderada e saudável, outros servem-se dele para ações que poderão ser consideradas prejudiciais, não só para si mas muitas vezes para os outros. Causando muitas vezes situações de indisciplina que são alvo de sanções".

Por isso, equilíbrio e bons exemplos são precisos, avisa a professora: "O bom senso é geralmente o melhor caminho. Mas uma coisa é certa, não só os encarregados de educação, mas também a escola têm que aceitar, acompanhar os avanços tecnológicos e usufruir e deixar usufruir de tudo que há de positivo nestes avanços".

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