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Correio da Manhã

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CADA VEZ MAIS PERTO

Chegámos às meias-finais, nunca a nossa selecção tinha ido tão longe. É um feito prodigioso, a juntar-se a muitos outros alcançados antes por portugueses. Escolhemos os dez mais importantes, a começar pela nossa primeira vitória no Hóquei e a acabar neste glorioso Euro’2004.
4 de Julho de 2004 às 00:00
As pernas do Figo calaram-nos. Olhávamos para ele a correr junto à linha, recordávamos os piores momentos do capitão neste Euro e era impossível não ter um momento de descrença: não, ele não vai conseguir passar. Mas corrida atrás de corrida, o atleta português ultrapassava os defesas holandeses, ganhava a linha e entregava a bola perfeita… mas para companheiros menos afortunados.
Naquelas arrancadas, o mais velho jogador do plantel em campo – até à entrada de Couto – mostrava a matéria com que se fazem os heróis. Sabíamos que tinha 70 jogos nas pernas, que vinha de uma temporada a todos os níveis frustrante em Espanha. E tínhamos fresca na memória a imagem que nos ficou do Portugal-Inglaterra: o velho leão a abanar descontente a cabeça, refugiar-se nos balneários, para só reaparecer horas mais tarde.
Ou melhor, seis dias mais tarde. Porque Figo só voltou verdadeiramente a aparecer na quarta-feira, contra uma Holanda demasiado mecânica. Foi então que o capitão se encheu de brios e assumiu o papel que nunca ninguém lhe quis roubar: o de capitão. E aquelas pernas cansadas de repente viram-se impulsionadas por uma força maior, secreta, poderosa.
A mesma força sobrenatural que em 1979 empurrava as pernas de Joaquim Agostinho nas íngremes rampas de Alpe d’Huez, onde o ciclista venceria mais uma das etapas da Volta à França. Ou que, em 1984, em Los Angeles, levava um atleta de 37 anos, com 38 km já corridos, a encontrar dentro de si o impulso para atacar, para isolar-se do pelotão e a conquistar o ouro olímpico.
A Carlos Lopes ninguém conseguiu ainda roubar o recorde olímpico; a nós nunca ninguém nos tirará a final que vai ser jogada hoje. Independentemente do resultado, vamos embrulhá-la com carinho, guardá-la na nossa memória colectiva – numa gaveta onde já moram a arte de Jesus Correia e a força de Eusébio, a tenacidade de Rosa Mota e inteligência de José Mourinho. Todos eles portugueses, todos heróis. Capazes todos de, nos momentos decisivos, encontrar aquela força enorme de que fala o hino de Nelly Furtado.
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