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Camané: "Tenho dificuldade em dizer que sou fadista”

Na escola tinha vergonha de dizer que cantava fado e em casa punha os discos baixinho.
Por Vanessa Fidalgo|11.03.18
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O disco ‘Camané Canta Marceneiro’ é o último registo de uma das vozes mais singulares do fado. Para trás, Camané tem mais oito discos de originais, vários ao vivo, um número sem fim de colaborações em projetos de outros músicos e filmes, sempre num tom que é só seu. Os anos de carreira é que já são uma história mais difícil de contar.

Porquê gravar agora um álbum com as músicas de Alfredo Marceneiro?

Ao longo da minha vida fui sempre ouvindo músicos que, por vezes, iam buscar um outro poeta, alguém que era para eles uma referência, como o Bob Dylan ou o Frank Sinatra. O Marceneiro foi sempre uma das minhas grandes referências, como a Amália e o Carlos do Carmo. Eram deles os primeiros discos de fado que ouvi. E eu, apesar de já ter cantado muitos desses fados tradicionais de várias maneiras e com outras histórias, lembrei-me destas histórias do Marceneiro, que tanto me fascinaram quando era miúdo.

Porque o fascinaram tanto?

Eu ouvia-os como se fossem histórias. Uns falam do quotidiano das pessoas, outros têm a ver com uma certa vivência do amor e da vida... Hoje, se calhar, já não vivemos daquela forma, mas no amor eu acho que tudo se repete.

O que é que se repete no amor?

Há determinadas histórias de amor que nos levam para uma determinada vivência da vida. Um amor que nós se calhar já não vivemos assim mas que se repete. São as histórias do quotidiano. Por exemplo, o ‘Mocita dos Caracóis’: antigamente, as pessoas saíam da aldeia para vir para a cidade para ter uma vida melhor e havia um homem superapaixonado por aquela mulher e que inventava tudo para que ela não viesse para a cidade, para não a perder. E depois a forma como está escrito: o lado sensual, a saia de roda, a cintura, a forma como ela se move, tudo aquilo é descrito de uma forma incrível e cheia de sensualidade. Ou a ‘Casa das Mariquinhas’, a descrição de uma casa diferente. Ou o ‘Lembro--me de ti’, que é até um pouco machista. Parece que estamos a ver um filme. E esse filme repete-se. Uma das coisas mais incríveis é a intemporalidade deste disco.  

E o amor para si... o que é?

É como para todas as outras pessoas, acho eu. Gosto de me sentir apaixonado por aquilo que faço, de sentir amor à vida, às coisas e às pessoas, e de me sentir ligado a tudo o que me rodeia.

Viveu com a Aldina Duarte, uma das grandes fadistas da sua geração também. Que opinião tem do trabalho que ela tem feito em prol do fado?

Estamos separados já há muito tempo, mas é uma fadista e uma pessoa que admiro imenso. Uma grande intérprete, mas que também faz muito pelo fado e pelos outros fadistas. Fez letras fantásticas para mim e ainda hoje somos muito amigos.

Conheceu o Alfredo Marceneiro pessoalmente?

Sim. Com 11 ou 12 anos, numa festa que até era em sua homenagem, mas não tive coragem de o abordar. Vergonha, medo, talvez. Com a Amália sempre falei muito, talvez por ser mulher e eu identificá-la com um lado mais maternal. Mas com o Alfredo só falei muito mais tarde, à saída de uma casa de fados no Bairro Alto. Vi-o passar, dirigi-me a ele e disse-lhe o quanto o admirava.

Reza a lenda que começou a ouvir fado quando não podia ir à escola por estar doente...

Sim. Não podia sair de casa, então ouvia repetidamente os Beatles, o Sinatra e o Aznavour, que eram os únicos discos que tinha naquela altura. Tudo o resto eram discos de fado dos meus pais. Só que, às tantas, já farto de ouvir sempre a mesma coisa, pus um disco de fado. Eu tinha uma verdadeira embirração com o fado, porque o meu pai, que era fadista amador, cantava fado em casa e eu achava aquilo uma coisa muito esquisita. Enfim… o que todos os miúdos acham sobre as coisas que os pais ouvem e fazem. Mas, naquela altura, não tive outro remédio. Ao fim de dois ou três dias comecei a gostar. A gostar e a cantar. Mas à minha maneira, porque eu queria ser diferente do meu pai e dos outros fadistas que me irritavam. Foi a minha forma. É um pouco contraditório: sempre quis fazer diferente e, ao mesmo tempo, aprendi tudo com o meu pai.

Além de fadista amador, o que fazia o pai?

Trabalhava no arsenal, no Alfeite. Era chefe de construção naval. A minha mãe era doméstica.

E aceitaram bem que seguisse profissionalmente o fado? Ainda por cima, saíram-lhes três filhos fadistas...

Nem por isso. Quase todos os fins de semana me levavam para as coletividades ouvir fado, mas o que eles queriam era que eu fosse para a faculdade. Mas eu comecei a cantar fado muito cedo, com nove anos, e aos 18 já era profissional em casas de fado. Os meus irmãos começaram mais tarde, já o caminho estava desbravado.

Era muito jovem. Nesses tempos conseguia-se viver do fado?

Ganhava-se muito bem. Eu era muito solicitado porque cantava bem. Às vezes, estava a cantar numa casa no Bairro Alto e chamavam-me para ir a outras.... chegava a fazer três casas de fado na mesma noite.

Imaginou-se a fazer outra coisa profissionalmente?

Imaginei várias coisas, ir para a tal faculdade, mas houve uma altura em que deixei de imaginar. Acho que foi quando comecei a cantar nas casas de fado e decidi que aquilo era a única forma de aprender, de crescer e de estar. Decidi que era aquilo que queria fazer. Mas cheguei a trabalhar na construção naval com o meu pai e pensei em tirar um curso de desenhador. Depois fui para a tropa, que foi o escape, a libertação. Os outros tentavam não ir para a tropa mas eu arranjei maneira de ir para a tropa para me livrar dessa pressão familiar e poder cantar.

Cantava no quartel?

Depois da fase da recruta, deixavam--me sair para cantar nas casas de fado e facilitavam-me a entrada de manhã. Aliás, nunca cantei tanto como nessa altura! Para os meus camaradas, também. Organizámos uma noite de fados num quartel de Carcavelos, com o Zé da Câmara, que também estava na tropa na altura (mas noutro lado).  

Quem o ajudou a crescer no meio?

As pessoas do passado. As noites de fado eram até às seis, sete da manhã. Lembro-me de aos 17 anos ir para uma casa de fados e estar lá a tocar o Martinho d’Assunção só para mim. Depois ia para outra casa de fados e tinha lá o Carvalhinho pai. O Chainho. Os meus colegas eram todos fadistas geniais: o António Rocha, o Fernando Maurício, o Carlos do Carmo, a Amália (que foi a pessoa que me indicou para eu ir gravar o meu primeiro disco na EMI), a Maria Teresa de Noronha, etc..

É fácil descolar de algo que tanto se admira e ser original?

No fado tradicional tudo é original. Aquilo funciona como o chão musical e depois muda a letra, conforme a história que se quer contar, o registo emocional e até a própria música tem várias opções.

Deve ser o fadista que mais colaborou com músicos e projetos de outras linguagens, dos Humanos às participações com os Xutos & Pontapés ou Pedro Abrunhosa. O que o seduz nesse cruzamento de linguagens?

Mas fui sempre eu, foi sempre o fado. E todos eles, quando me convidaram, fizeram-no por essa característica. Mesmo nos Humanos, convidaram-me pela minha forma de cantar e porque o próprio António Variações também gostava muito de fado.

Essas pontes foram importantes para tornar o fado apetecível para as novas gerações?

Claro que sim. Só fiz três concertos com os Humanos, mas houve imensas pessoas que depois, a parti dali, tiveram curiosidade em ir ouvir o que eu fazia. Desde então, houve um crescimento enorme do meu trabalho. Editei logo a seguir o disco ‘Sempre de Mim’, que foi um sucesso enorme, chegou à dupla platina. Nesse processo acho que também houve um crescimento do público em relação ao fado.

Esse crescimento só traz coisas boas?

O que é bom vai ficar e o que não é bom não fica. Isso é que é importante. Mas acho que isto só é bom para nós, de uma forma geral. E teve o condão de acabar com o preconceito. Ainda existe, mas nota-se menos.

Sentiu esse preconceito na pele?

Ainda aqui há dias ouvi um tipo italiano que veio cá fazer uma palestra sobre literatura e chocou-me imenso porque o tipo disse uma quantidade incrível de disparates. Disse, por exemplo, que "estava muito contente" porque a literatura portuguesa já não era "só o fado, a tristeza e a melancolia". Então, e onde fica a nossa literatura? O Camões? O Eça? Ele esqueceu-se que temos uma literatura tão boa ou melhor que a dele. Eu passei por uma fase em que tinha vergonha de dizer que cantava fado. Dizia na escola e até as professoras se riam. Os meus amigos não se identificavam com a música que eu fazia, não a ouviam e isso foi complicado para mim. Eu, na verdade, ouvia todos os géneros de música. Com os amigos que moravam ao pé da minha casa, ouvia mais música dos anos 80. Numa garagem em Porto Salvo, com outra grupeta, ouvia mais os Doors, os Stones, os Led Zepellin, algum rock sinfónico. Mas fado ninguém ouvia! Só mais tarde, num grupo de outro tipo de pessoas, mais ligadas à aristocracia (e onde havia gente que até canta muito bem, como o Zé da Câmara, a Mariana Bobone, o Rodrigo Costa Félix) é que encontrei alguns que gostavam de fado. Mas eram pequenos grupos (e não eram do meu meio socioeconómico, que era mais popular e de esquerda).

Como é que fazia para ouvir fado?

Ouvia sempre baixinho. Eu morava num rés do chão que dava para uma praceta, mas antes tinha relva e umas escadinhas que davam a volta ao prédio, portanto, estava sempre gente a passar junto à janela do meu quarto. Por causa disso, eu punha o som muito baixinho, como se ouvisse às escondidas. Se fossem outras músicas, punha alto. Aliás, ainda hoje, no carro, se for a ouvir outro tipo de música ponho alto. Mas se for a ouvir fado ponho baixinho (embora hoje seja também para não me associarem). Ainda hoje, tenho dificuldade em dizer que sou fadista. A própria palavra tem um sentido negativo no dicionário. Um fadista é um malandro, um rufia ou alguém não gosta de trabalhar. Cantor de rock era um artista, um cantor de fado não era trabalho. Tenho um trauma e ainda não passou.

De onde vem essa imagem negativa?

A imagem que quiseram dar do fado da música da desgraçadinha só nos mostra que as pessoas não ouviam o fado no seu todo. O fado é uma coisa única, é raro no Mundo haver uma música assim. É cheio de personalidade melódica. São ambientes musicais que têm a ver com o registo emocional, por isso é que é tão difícil encontrar uma música parecida com outra. Essa matriz única só acontece em certas músicas tradicionais, como o tango, o flamenco... mas foi injustiçado por pessoas que não percebiam isso. Os poetas populares eram aqueles tipos que viam e escreviam de uma forma incrível e só me admira como é que não são estudados na escola.

Quantos anos de carreira tem?

É complicado! Posso fazer as contas ao meu primeiro disco profissional na EMI e que já vai para 25 anos. Mas antes disso fiz quatro singles e um LP com o mestre Chainho, ganhei a Grande Noite do Fado em 1979, mas em 77 também tinha participado e tinha sido considerado a revelação do ano. Aos 18 anos é que me profissionalizei e fui cantar para as casas de fado. Não sei bem, custa-me fazer essas contas de carreira.

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